segunda-feira, 4 de Fevereiro de 2013

VERÃO QUENTE

Não deixa de ser uma injustiça passar da leitura de Murakami para a de Domingos Amaral: o que no primeiro tem todos os ingredientes de um romance genial, aqui mais parece uma redação escolar de um aluno com aspirações a romancista de cordel. Ou argumentista de telenovelas. E nada contra isso, porque há leitores (e escritores) para todos os géneros e ainda bem! Mas mesmo sem comparações com outros autores, uma desilusão em relação a "Enquanto Salazar Dormia...", um dos livros em língua portuguesa que mais gostei nos últimos anos, do mesmo escritor.

Ao longo das 319 páginas de "Verão Quente" conhecemos o drama de Julieta: acusada do homicídio do marido e da irmã, deitados e mortos a tiro na mesma cama, cai escada abaixo e fica em coma durante meses, quando recupera a consciência já foi condenada a vários anos de prisão, à revelia. As provas parecem irrefutáveis, já que ela foi encontrada inanimada e com a arma do crime na mão. Mas, pior que isso, ela própria sofre consequências aparentemente irreversíveis do grave acidente, que alguns classificam como tentativa de suicídio - cegou e a sua mente apagou completamente as cenas que se seguiram depois de entrar em casa e até recuperar do coma. Após sair da prisão não consegue entrar em contacto com a única filha, que foi criada pela avó paterna. Quando esta morre as duas mulheres aproximam-se, já que não têm mais família.

Enquanto passam férias num spa, mãe e filha conhecem o narrador que as encanta e que por sua vez também fica encantado com elas, especialmente com Redonda. Mas ela é casada com Tomás, para grande desgosto da mãe, que detesta o genro. Por coincidência, é nesse momento que as milagrosas águas do spa produzem os seus efeitos - Julieta recupera a visão e, aos poucos, vai tendo alguns flash backs da tarde de 3 de agosto de 1975. O narrador propõe-se ajudá-la a reconstituir essas memórias perdidas e o fatídico crime, com o fito de não perder o contacto com as duas mulheres que tanto o impressionaram...

Sem sequer contestar a investigação histórica do autor sobre a época - o PREC foi efetivamente um período de grande regabofe político e contestatário, que deu azo a enormes e inúmeras injustiças - restou a sensação de personagens estereotipadas e, na sua maioria, bastante fúteis e demasiado preocupadas com o seu próprio umbigo. A escrita é fluente e acessível a todos, o que é sempre uma vantagem para ser um sucesso de vendas!

Seja ou não sucesso, a opinião do Clube de Leitura foi unânime: uma historieta medíocre, maniqueísta e possidónia. Se não bastasse a generalização de todos os comunistas serem maus como as cobras ("arrependidos" à parte!), a dos ricos injustiçados pela revolução nos seus valores de "Deus, Pátria e Família" - mas que, mesmo assim, se rebolam na cama com qualquer um(a) que lhe apareça debaixo do nariz e ainda passeiam de iate à fartazana - já dava uma ideia... 

Citações:
"Ora, a raiva é uma emoção viva, e uma mulher nova não gosta de sentir no homem essas emoções pelas mulheres passadas, mesmo quando são más emoções. Para além disso, as mulheres não gostam de um homem que diz mal das mulheres, gostam mais de ser elas a fazer isso."

"Os anarquistas, com o humor que sempre os caracteriza, escrevem numa parede de Lisboa: «Pedimos desculpa por esta democracia, a ditadura segue dento de momentos.»"

"Sabe, por debaixo daquelas ideias comunistas, das «intervenções» e das comissões de trabalhadores, também havia muitas coisas destas, miudinhas: ódios pessoais, raivas, desconsiderações, desgostos e desonras."

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O próximo livro a ler será "O Hipnotista", de Lars Kepler, na discussão do Clube de Leitura a decorrer no dia 16 de março.

22 comentários:

  1. Ainda foi ontem, ao falarmos sobre o que estávamos a ler, que uma amiga minha me disse que me emprestaria “Enquanto Salazar dormia”. Nunca li nada deste autor que me lembre.

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    1. Acontece que no Clube de Leitura 3 das participantes (incluindo eu) já tinham lido esse do "Enquanto Salazar Dormia" e todas gostámos. Daí a escolha recair neste, já que não tínhamos lido nada do autor no âmbito do clube. Não me parece que tenha nada a ver! Mas para esse que decorre nos anos 40 deve ter feito uma pesquisa a sério, para este - talvez por na época já ter nascido, embora tivesse apenas 7 anos nesse verão - parece ter tomado como certo que era tudo um grande regabofe, tanto político como sexual, cai tudo mortinho de "desejo" ao primeiro olhar... O resultado é caricato, para dizer o mínimo! :P

      Aproveita para ler o outro, este não vale a pena! :)

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  2. Teté,
    Tentei, pela enésima vez, ler Lobo Antunes.
    Não dá!
    Desisto!!
    Bjs e boa semana

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    1. Nem nunca tentei, PEDRO COIMBRA, que aqui a cara metade leu um livro dele e chegou ao fim sem me saber dizer do que é que o livro tratava... :)

      Mas já tentei ler muitas vezes Saramago e não consigo! Há quem adore, quem deteste e eu... só não consigo, que me dá uma soneira desgraçada! Mas com tanto bom livro para ler, para que é que me hei de esforçar a ler um que me dá sono?!? :)))

      Beijocas e boa semana!

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    2. Ahahah! Como te compreendo! Nao resisti a uma grande gargalhada!

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    3. É do Saramago um dos 2 únicos livros que comecei a ler e não terminei, mas é também do Saramago um dos livros que mais gostei. O que não consegui terminar de ler foi a "Jangada de Pedra", o que gostei muito foi o "Ensaio sobre a Cegueira", apesar de na minha opinião do final não estar à altura do resto do livro. É um livro para reflectir. Além desse não há mais nenhum livro dele que me puxe para ler.

      Beijocas

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    4. Nem sequer é filme, CATARINA, é a pura da verdade! :)

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    5. Devo dizer que tenho uma lista maior que a tua de livros que não consegui ler, POPPY! Ou que desinteressaram... que vem a dar no mesmo! "Ulisses" de James Joyce é um deles, "O Memorial do Convento" outro. Da Margarida Rebelo Pinto só li 30 paginas e chegaram. Adorei "O Alquimista", de Paulo Coelho, mas o segundo livro que tentei ler dele "As Valquírias", também não passei da página 30. Assim só dos que me lembro... :)

      Quanto ao Saramago, hei de tentar ler outro, pode ser só com aquele que me dá sono... :D

      Beijocas

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  3. rrsss um dos meus próximos posts será também sobre o meu primeiro livro de Amaral.

    Tem uma excelente semana.

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    1. Estava a pensar ler outro sobre o terramoto de 1755, SÃO, mas com esta "amostra" fiquei na dúvida! :)

      Uma excelente semana para ti também!

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    2. Pois é sobre esse mesmo que vou falar....

      Abraço

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    3. Então fico a aguardar o teu comentário sobre o livro, para ficar com uma ideia se vale a pena ou não lê-lo, SÃO! :)

      Abraço

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  4. os senhores do clube de leitura ainda se vão arrepender quando o livro for adaptado para um episódio do CSI!

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    1. As senhoras, se faz favor, VÍCIO, porque os poucos elementos masculinos que aderiram ao clube desistiram rapidamente... :)))

      CSI, dizes tu? Não me cheira... :D

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  5. Desconhecia esse livro, apenas o conheço das análises políticas mas, pela sua avaliação ( confio bastante nos seus conselhos, apesar de termos muitas vezes opiniões diferentes...) não vou gastar um cêntimo, nem perder tempo a lê-lo. Obrigado pelo aviso!
    Boa semana

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    1. O título, a capa, a sinopse da contra-capa é tudo muito apelativo, mas o livro em si é muito fraquinho, CARLOS! ;)

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  6. Filme Lincoln - não ver

    Livro Verão quente de Domingos Amaral - não ler

    Recomendação da minha critíca literária, discográfica e cinematográfica (assobiando)

    Acho que já vi este livro por aí, se não era o verão quente era outro verão qualquer, nem reparei que era de Domingos Amaral, mas não me chamou à atenção, até porque quentes são todos os verões, né? :p

    Beijinho :)

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    1. Bom, parece-me que tenho de dar conselhos mais positivos, MARIA! :)))

      Aquele verão foi especialmente quente, numa espécie de loucura coletiva! Mas não era caso para escrever um livro assim... tantos anos depois! :D

      Esperemos que o próximo também seja quente, por melhores razões...

      Beijocas!

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  7. Adorei a citação a vermelho...lol a história começa por ter tudo para ser empolgante... mas, pelos vistos, algo falha a meio do processo... acontece tantas vezes... =)

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    1. É verdade, BRISEIS, não será o primeiro nem o último que falha no enredo em si... :)))

      Também achei piada à citação, mas se calhar por razões diferentes das tuas - por ser simplista e machista q.b.! ;)

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  8. Só li este livro do autor e, como disse no clube, não tenho vontade de ler mais nada. Vou dar um tempinho e depois abalanço-me ao "Enquanto Salazar Dormia". Já agora...

    Não gostas de Lobo Antunes? Aiiiiii, é o meu autor de eleição. GENIAL!!! Já Saramago? Passo! É dele o único livro que não consegui acabar - A Jangada de Pedra. Irra.

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  9. Ora então no próximo encontro hás de me dizer qual o teu livro preferido de Lobo Antunes, porque fiquei sem saber do que é que "Exortação aos Crocodilos" tratava, PAULA... :)))

    Gosto das crónicas dele, o que já é meio caminho andado! :D

    Parece que essa "Jangada de Pedra" também tem uma certa unanimidade! :)

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Sorri! Estás a ser filmad@ e lid@ atentamente... :)