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segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

UMA QUESTÃO DE CLASSE

Mais uma sessão do Clube de Leitura, desta vez com o último livro de Joanne Harris publicado em Portugal: "Uma questão de honra".

A história decorre no tradicional colégio de St. Oswald, onde um novo diretor e a sua equipa preparam mudanças que, para alguns professores da velha guarda, são demasiado radicais: admissão de raparigas, novas tecnologias, reduzir o tempo de aulas, como o Latim, e conceitos de psicologia mais modernos. Um dos professores que não está nada agradado com estes novos ventos é precisamente o velho professor de Latim, Roy Straitley, que vê a sua posição b sempre contestada por esta nova equipa, liderada por Johnny Harrington, um ex-aluno seu em 1981, com o qual embirrava particularmente, pois passava a vida a fazer queixinhas aos pais (e estes à escola). O pior é que está toda a gente fascinada pelo diretor, só Straitley parece saber ler o que lhe vai na mente mesquinha. E desconfia que não é nada de bom: "Mas as pessoas raramente mudam nos aspecto essenciais, apenas na crescente sofisticação dos seus vários disfarces."

Pessoalmente, adorei o livro, Como escrevia uma das minhas companheiras, tem uma grande reviravolta a meio com piada, o ambiente do colégio está muito bem caracterizado nas diversas fases, a personagem do velho professor  está bem caçada, as mudanças temporais exigem que se tenha alguma atenção, para não nos confundirmos. Como aconteceu com outra das nossas companheiras, que ainda não o acabou, mas diz não estar a gostar - a meio da discussão percebemos que não estava a perceber patavina do que estava a ler. Mas também quem é que se lembra de ir ler um livro destes, em simultâneo com outros dois, um deles o último da Ferrante em inglês?!? Não foi a única, outra também considerou o livro um pouco confuso. Mas pronto, no geral a malta gostou. Eu aproveitei para encomendar o livro anterior (outra história, que se passa no mesmo colégio, imagino que apenas com a personagem principal do professor), que estava em promoção na FNAC...

E sim, trata-se de uma fase muito diferente da de "Chocolate", de "Sapatos de Rebuçado" ou de "Cinco Quartos de Laranja". Aí todas concordámos! Mas se ela escrevesse sempre a mesma coisa, qual era a graça?

CITAÇÕES:
"[...] comportamentos que lhes teriam merecido uma repreensão, um castigo ou até uma régua naquele tempo, foram agora identificados como sinais de dificuldades de aprendizagem, hiperatividade, dislexia ou Deficit de Atenção (aquilo a que nós, nos velhos tempos menos compreensivos, chamávamos Falta de Atenção) todas as condições que exigem um tratamento sensível em vez de um chuto no rabo. " (pág. 51)

"Ele vê a aproximação da reforma com o entusiasmo desenfreado do capitão do Titanic quando avistou o icebergue pela primeira vez." (pág. 376)

"A história - disse - não é mais que a versão contada pelo lado que tem melhores registos. São os vencedores que escrevem os livros de história. Os vitoriosos pintam a verdade." (pág. 479)

*******
A próxima reunião terá lugar no dia 25  de Março, com o título "Deixei-te ir", de Clare Mackintosh.

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

ABRAÇO

Tal como o autor explica nas notas finais, este livro é composto por crónicas publicadas em diversos jornais e revistas ao longo de 10 anos - entre 2001 e 2011, para ser mais precisa. 

Os temas são bastante variados, vão desde recordações de infância a uma velhice imaginada, passando por inúmeros locais, desde a terra natal de José Luís Peixoto e o Alentejo, até a muitos dos sítios por onde viajou. Aqui e ali, especialmente nessas memórias mais antigas, fez-me lembrar um Portugal há muito desaparecido, onde existiam cabines telefónicas, peixeiros, padeiros e leiteiros de porta em porta e crianças a jogar à bola nas ruas, por exemplo. Se o amor aos filhos, aos pais, à família, às mulheres da sua vida tornam alguns textos mais ternurentos e intimistas, noutros cinge-se a factos ou conversas, num intuito provavelmente mais informativo. A literatura está muito presente, o dia a dia também, a série de pensamentos que suscitam podem ser triviais ou completamente "out of the box", como dizem os ingleses.

São 655 páginas que se podem ir lendo aos poucos, já que as crónicas são naturalmente curtas e não seguem exatamente uma sequência. Gostei muito, como de tudo o que li dele até hoje!

CITAÇÕES:
"Desde que cobri o braço esquerdo com tatuagens que sei aquilo que sentem as mulheres com decotes." (pág. 333)

"Hoje, ao contrário de quase sempre, parece-me que há mais verdade no pessimismo dos velhos do que no optimismo dos adolescentes." (pág. 405)

"Às vezes, esqueço-me de que posso morrer todos os dias." (pág. 492)

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

LEITURAS DE 2016

Em 2016 li 43 livros, mas nem todos foram boas escolhas. Descontando até aquele policialzeco que se lê porque é o que cabe melhor na mochila, quando sabemos que vamos "secar" na sala de espera do dentista - e depois, já agora, queremos ler o final - houve outras desilusões com livros até mais ou menos badalados: "A Rapariga Dinamarquesa", "As Gémeas de Gelo", "Solar", etc. e tal. Sobre eles escrevi na devida altura, não vale a pena bater mais nos "desconchavadinhos". 

Sobre outros nem me dei ao trabalho, mas aviso todos os leitores incautos que os dois policiais que li de Dick Haskins foram simplesmente para esquecer: datados e sem ponta por onde pegar, com finais completamente estapafúrdios e sem nexo. Claro que só custaram 50 cêntimos cada um, mas tenham dó!

No entanto, estou aqui para falar do melhor que li e não do pior. E neste capítulo não posso deixar de referir a tetralogia de Elena Ferrante:

Na verdade, aqui só dei a minha opinião sobre o primeiro volume "A Amiga Genial", até  porque não consegui encontrar um modo de falar dos restantes sem revelar demasiado sobre o desenvolvimento dos diversos enredos (em causa estão várias famílias ao longo de cerca de seis décadas), o que eventualmente desinteressaria futuros leitores. Não é pior que bater na avó, mas anda lá perto... No geral posso dizer que foi das melhores leituras do ano, mas por vezes tive de parar a leitura, para retomar o fôlego da emoção e da intensidade dramática que transborda. Aqui e ali também uma conversa mais chatóide sobre política italiana (quase sempre), mas que não tira o mérito e o interesse ao restante conteúdo. Sei é que é uma leitura séria, mesmo com vontade de ler o volume final deixei-o para depois de férias, pois não combinaria com a descontração desejada para as mesmas. Ah, e claro, não sei ao certo se devo classificar a tetralogia de romance ou biografia, na volta é um híbrido...

Se me perguntarem qual foi o romance que mais gostei em 2016, não tenho dúvida em responder que foi "A Peregrinação do Rapaz sem Cor", de Haruki Murakami. Logo seguido de "Amores Secretos" de Kate Morton - que deve ter sido a autora que mais li este ano, a par de Mary Higgins Clark - e de "A Decisão Final do Major Pettigrew", de Helen Simonson. Todos muito diferentes, o primeiro atual a abordar um dos nossos piores medos - o da exclusão - o segundo um romance que entrelaça o presente e segredos do passado, o terceiro já mais leve, até com laivos de comicidade, sobre o amor na terceira idade.

Como policial, "O Domador de Leões", de Camilla Läckberg levaria a taça, se taças houvesse a distribuir, seguido de perto por Jo Nesbo e o seu fenomenal "O Fantasma", cuja continuação (?!?) saiu agora em Novembro e já estou "em pulgas" para ler...

Em 2016 só li três livros lusófonos, dois do Jô Soares - que são mais uma paródia do que outra coisa - e com os quais me diverti enormemente e este de João Pinto Coelho, o qual foi uma surpresa de que gostei bastante, à exceção de um segmento final. Portanto, "Perguntem a Sarah Gross" faz parte deste "ramalhete", digamos assim.

Resumindo: se decisões de início de 2017 houvesse aqui para estas bandas, não seria ler mais, mas ler melhor!

Agora quero ver aí o feedback desse lado e saber qual foi o livro ou livros que cada um de vós mais gostou em 2016. E não venham com a conversa mole de ando sem vontade de ler, não me lembro do título, etc.e tal. Se não leram, não leram, se leram satisfaçam a minha curiosidade...

BOAS LEITURAS
e
BOM FIM DE SEMANA!

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

2017 JÁ CHEGOU!

Posso afirmar que 2016 foi um bom ano aqui para nós - à exceção das últimas 3 semanas com gripalhadas atrás de gripalhadas, mas isso foi igual a pelo menos metade da população portuguesa, portanto, queixarmo-nos de quê? - com a concretização de alguns sonhos antigos. O meu, o de visitar Keukenhof, o do maridão o de correr a maratona, que por acaso calhou ser a de Valência. E aproveitámos para visitar as duas cidades, tanto esta como Amesterdão. Adorámos, cada uma à sua maneira!

Também passámos dois períodos de férias no Algarve, em família, o que é sempre uma animação.

Comprámos um carro novo, mas essa teve menos piada, porque o anterior (da empresa da cara metade), deixou-nos a meio caminho na autoestrada entre Lisboa e o Algarve e já não teve arranjo possível - quer dizer, o arranjo era superior ao valor do carro. Mas pronto, tudo acabou por se arranjar, embora fosse um despesão inesperado.

Por outro lado, o filhote também está a trabalhar numa empresa da área que escolheu e gosta e entretanto vive mais tempo em casa da namorada do que na nossa, anda feliz e satisfeito. Que mais pode um pai ou uma mãe desejar?

Ah, e a nível nacional este ano a rapaziada da bola ganhou o campeonato europeu de futebol, o que deu uma enorme alegria à malta. Politicamente ainda nos livrámos da "múmia paralítica" de São Bento, substituída com grande vantagem pelo tio Marcelo - e não sou suspeita, que nem sequer votei nele...

E agora, 2017? Pois,é uma grande incógnita, se bem que o cenário mundial não possa dar azo a grandes otimismos. 

Certo é que é já a 28 deste mês que terá início o ano do Galo de Fogo (terminando a 15 de Fevereiro de 2018) do horóscopo chinês e as previsões genéricas que li até são bastante auspiciosas. Mas pronto, vale o que vale!

Não cheguei a fazer os habituais balanços de livros, fotos ou filmes de 2016, mas a disposição não era nenhuma, não achei simpático atamancar posts às três pancadas. Com calma, o dos livros sairá de certeza,  os restantes logo se verá. No entanto, e antes de tudo o mais, queria desejar a todos...

UM BOM ANO DE 2017!

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

O ÚLTIMO ADEUS

Pelo relvado e restante enquadramento dá para ver que este livro não foi lido recentemente, mas nas férias de verão. Como era para ser discutido em sede de Clube de Leitura, como realmente aconteceu em Outubro, fiquei a aguardar a opinião das minhas parceiras, para não vos levar ao engano com o meu arrebatamento por Kate Morton.

Tanto tempo volvido sobre a leitura e a discussão, obviamente falham-me alguns pormenores, mas não serão certamente os mais relevantes. Tal como é costume da escritora, o livro está dividido em capítulos, mais ou menos intercalados, de 3 épocas diferentes: uma primeira à roda de 1911/1914: uma segunda no Verão de 1933; e a terceira e última em 2003, quase sempre entre a Cornualha e Londres.

Portanto, pode dizer-se que não existe uma mas duas tramas, que estão interligadas, constituindo aquela primeira parte uma espécie de explicação do que está para vir. Assim, é durante a festa do solstício de Verão de 1933, que a família Edevane costuma dar na sua casa de Loeanneth, na Cornualha, que o inesperado acontece - o filho mais novo do casal, Theo, de apenas onze meses, é raptado; algumas horas depois é encontrado o corpo de Llewellyn, um velho amigo da família e que com eles reside, sem que se percebam os motivos que levaram à sua morte.

Setenta anos volvidos, Sadie Sparrow, investigadora da Scotland Yard, visita o seu avô Bertie na Cornualha, quando é afastada de um caso que tinha em mãos e, por acaso, dá com a velha e desabitada casa de Loeanneth, e rapidamente se interessa sobre o que outrora lá se passou. Ao pôr-se  em campo, parece-lhe urgente entrar em contacto com os elementos da família que ainda estão vivos: Alice  e Deborah, duas das três irmãs mais velhas do rapazinho desaparecido. E a investigação começa...

Todas as participantes do Clube de Leitura gostaram deste romance cheio de segredos e mistérios, embora a algumas tenha desagradado a "conveniente" coincidência final. Nem por isso deixa de ser uma daquelas escritoras que nos "agarra" da primeira à última página. E atenção que aqui são 615!

Citações:
"Dou por mim a discutir com a televisão. Pior, tenho a forte desconfiança de que estou a perder."

"Em tempos,o pai dissera-lhe que os pobres podiam sofrer de pobreza, mas os ricos tinham de se debater com a inutilidade e não havia nada pior que o ócio para corroer a alma de uma pessoa."

"Estar debaixo de um tecto, com a esperança de estar quente e seca dentro em breve, enquanto a chuva caía lá fora, era uma esplêndida e simples felicidade."


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A próxima reunião ainda não tem data propriamente marcada, mas será em Janeiro, com o livro "Uma questão de classe", de Joanne Harris.

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

O HOMEM QUE MATOU GETÚLIO VARGAS

Como certamente muitos saberão, Getúlio Vargas suicidou-se a 24 de Agosto de 1954, pelo que esta prosa da lavra do sempre inspiradíssimo Jô Soares é meramente ficcional. Num enredo surrealista, onde se cruzam algumas das grandes personagens do século XX, tal como Mata Hari ou Madame Curie, Al Capone ou Franklin Delano Roosevelt.

Mas não se pense que elas são as protagonistas destas 250 páginas, cabendo tal papel ao anónimo Dimitri Borja Korozec, cuja vida seguimos desde a tenra infância até aos seus pouco maduros 57 anos - com alguns interregnos pelo meio, é certo. Filho de um anarquista sérvio e de uma artista de circo brasileira (irmã bastarda de Getúlio Vargas), cedo o rapaz segue o exemplo paterno e ingressa numa escola de assassinos jugoslava. Aí ensinam-lhe a manejar armas, bem como estratégia e tática, o que é imprescindível para alguém que está decidido a livrar o mundo de todos os tiranos. 

Infelizmente, nem tudo ocorre conforme os planos de Dimitri e outros assassinos adiantam-se aos seus esquemas tão minuciosamente engendrados. Estranhamente, sem dar pelo facto, também ele tem um assassino na sua cola, o anão Motilah Bakash, o último sobrevivente de uma seita cigana asiática. Para grande sorte do anarquista, o anão é um pouco precipitado nas suas investidas...

Muito bom. para os que apreciam o non-sense bem-humorado do !

Citações: 

"- Não percebes?! - retrucou, furioso, Bouchedefeu. - Este conforto higiénico leva à ociosidade e à decadência. Para mim, o bidé foi o grande responsável pela Revolução Francesa, e, depois, pelo declínio dessa mesma revolução. O próprio Marat morreu apunhalado no bidé."

"Certamente não a quero como cúmplice e entendo que a sua formação religiosa condene a violência, entretanto gostaria de fazê-la entender que a minha vida é dedicada à destruição da tirania, custe o que custar."

terça-feira, 18 de outubro de 2016

O VOO DAS ÁGUIAS

"Esta é uma história verdadeira sobre um grupo de pessoas que, acusadas de crimes que não cometeram, decidiram fazer justiça pelas próprias mãos", elucida o primeiro parágrafo do prefácio.

A história decorre no Irão, durante um curto período de tempo - de 5 de dezembro de 1978 a 17 de fevereiro de 1979 - que, no entanto, deve ter parecido muito longo para as personagens envolvidas. Viviam-se então os dias que antecederam a revolução iraniana e os primórdios da mesma, com toda a instabilidade que qualquer revolução acarreta - manifestações de rua, jovens armados com armas que não sabem usar, assaltos, piquetes e por aí adiante.

A EDS, uma empresa norte-americana de sistemas de processamento de dados encontrava-se representada em Teerão, trabalhando directamente com o governo iraniano. Contudo, este deixa de pagar os serviços que lhe são prestados e a empresa admite a hipótese de retirar o seu pessoal do país. Mas a decisão final levou o seu tempo a tomar e dois dos principais executivos da sucursal são presos. Sem qualquer acusação formal, apenas umas vagas (e infundadas) suspeitas de corrupção - com o país em constante agitação, governos a caírem e ex-ministros  a serem igualmente presos, vale tudo. E para os tirar de lá? Ou à força ou pagando uma exorbitante fiança de 13 milhões de dólares (sem que com isso os dois homens pudessem abandonar o país). Vai daí que Ross Perot, o fundador e presidente da EDS, tivesse reunido um pequeno grupo de voluntários entre os seus colaboradores em Teerão, liderados por um oficial de elite na reforma, no intuito de salvar a vida dos dois executivos.

Grosso modo, é esta a história que Ken Follett escreveu em 1983, relatando as aventuras e desventuras desta fuga rocambolesca nestas 480 páginas. Acontece que a grande vantagem da ficção sobre a vida real é precisamente poder moderar os percalços, sem os tornar repetitivos: ali há um magote de estudantes armados, lá adiante uma tribo pouco amistosa, na fronteira um grupo de contrabandistas. E chega! E a meio caminho um furo no pneu também é suficiente. Aqui, perdi a conta aos encontros com iranianos pouco amistosos (que também os há, note-se, alguns ajudando até na fuga) e só furos nos pneus são uns 4 ou 5. Resumindo: o livro é interessante, mas aqui e ali um pouco maçador. Mas enfim, foi o próprio Ross Perot que pediu a Follett que o escrevesse e, se este o fez, é porque achou que tinha pernas para andar...

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

A ACADEMIA ENSANDECEU?

A Academia Sueca anunciou hoje o Nobel da Literatura 2016: nada mais nada menos que o músico, compositor, pintor, ator e escritor norte-americano, Bob Dylan. OK, goste-se ou não, certo é que a sua música marcou toda uma geração. Mas daí a Nobel da Literatura, não vai uma grande diferença?

Devo dizer que nunca li nenhum livro dele. Nem sei se o escreveu. Poemas serão os das suas músicas (e as de outros), diga-se em abono da verdade bem melhores que a sua voz de cana rachada. Mas até pela multiplicidade de profissões que exerceu, não será notório que a sua dedicação à literatura é relativa? Com tantos e excelentes escritores a dedicarem-se inteiramente à nobre arte, no mínimo parece-me uma brincadeira de mau gosto. Aliás, a Academia Sueca só parece ter aversão aos escritores que são do agrado do grande público, porque passa de escritores e poetas praticamente desconhecidos, para um ídolo da música dos anos 60 do século passado.

António Zambujo é que deve estar satisfeito: quem sabe se daqui a 40 anos não é ele o premiado?

Deixo "Blowin in the wind", agora elevado a obra-prima - atenção, eu gosto da música, mas também gosto de outras que mereciam igual distinção, mas em prémios musicais...


Imagem da net.

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

LIVROS DE SETEMBRO

Assim à primeira vista, podem parecer muitos livros, mas na verdade os cinco das Selecções do Readers Digest são condensados, quer isto dizer que têm apenas cerca de 120/130 páginas (excepção ao de Grisham, que tinha quase 160), digamos lhes cortam a "palha". Alguns poderão questionar-se porque é que alguém que gosta de ler pega nestes livros ditos "condensados". A explicação é simples: só li aqueles que são de escritores que aprecio bastante - no caso, John Grisham e Mary Higgins Clark - e porque, mesmo que queira, já não encontro estes títulos à venda. Em Portugal, talvez devido ao hábito de leitura não estar arreigado na população, é raro reeditarem livros que não sejam os grandes clássicos, e mesmo esses...

De qualquer das formas, também foi para aproveitar a estante que tinha ao dispor na casa onde passei férias, tanto que os li quase todos nessa semana. 

Sobre o livro de João Pinto Coelho já escrevi aqui, do último de Grisham não vou falar - embora seja interessante e tenha um fio condutor (o advogado) é quase um livro de contos, pois inclui seis casos diferentes.

Boa notícia foi a que a Redonda nos deu aqui, que relembro aos leitores de policiais mais distraídos:


BOM FIM DE SEMANA...
...e boas leituras!

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

PERGUNTEM A SARAH GROSS

Este livro foi(-nos) recomendado pelo Francisco Oliveira, aqui, e é o primeiro romance de João Pinto Coelho. Na capa afirmam que foi finalista do prémio Leya em 2014, mas não encontrei nenhum comprovativo disso na net - o que não interessa rigorosamente nada, uma vez que gostei mais deste do que de outros que até ganharam o dito prémio...

As 443 páginas são divididas em enredos paralelos, que decorrem em cidades e épocas diferentes: por um lado, o dia a dia num colégio de Connecticut, entre 1968 e 1969, onde Sarah é a directora que acabou de contratar, Kimberly Parker, uma jovem professora de Literatura, que esconde um passado infeliz; por outro, ficamos a conhecer a infância e juventude da mesma Sarah, que passou dos EUA para a Polónia, em cidades como Cracóvia e Oshpitzin, entre 1923 e 1943. Se vos disser que Oshpitzin viria a ser rebatizada pelos alemães como Auschwitz e que a família dela é judaica, já dá para perceber não é propriamente um romance onde a felicidade reina. Antes pelo contrário, os judeus ingenuamente nunca acreditaram que Hitler não aproveitasse pelo menos a sua força de trabalho, mas como todos sabemos o ódio falou mais alto e, depois, já era tarde para fugir.

Como já referi adorei o livro, li-o de fio a pavio com grande emoção e celeridade - é daqueles empolgantes que é difícil largar - mas um dos desfechos nas últimas 20 páginas pareceu-me roçar o absurdo (já que as histórias de vida envolvem várias  personagens e não apenas Sarah). Querem saber qual? Pois, leiam o livro, que mesmo assim vale muito a pena...

CITAÇÕES:
"Acho apenas que os países desta região procuram na História as razões para lutar, quando o passado é a melhor prova de que este não é o caminho. [...] Todos teríamos a ganhar se a Polónia parasse de se ver como uma flor virtuosa, ofendida pelas suas próprias pétalas. Primeiro, devemos aceitar que temos os nossos pecados para carregar e, depois, compreender que essas pétalas são povos e estados, também à procura da sua identidade, da sua soberania."

"[...] conquiste-os com um livro e lembrar-se-ão de si para o resto da vida."

"É curiosa a maneira como certas recordações nos prendem aos lugares onde vivemos, mesmo que estes não passem de um cenário tão neutro como papel de embrulho."

quarta-feira, 31 de agosto de 2016

ÚLTIMOS LIVROS LIDOS

Agosto foi um mês de muitas e variadas leituras.  As que constam na colagem acima, para ser mais exata. Sobre o livro de Kate Morton escreverei após a reunião do Clube de Leitura (em meados de Setembro), sobre a tetralogia de Elena Ferrante o mais brevemente possível (ainda tenho de ver como, sem revelar demasiado sobre os enredos e o desfecho). Em relação aos restantes, devo explicar o seguinte: embora sempre tenha referido livros, leituras, apresentações, feiras e afins,  este blogue nunca teve a pretensão de se dedicar exclusivamente à literatura. Portanto, quando leio mais, não dou vazão a opiniões literárias - e, diga-se em abono da verdade,  nem todos os livros o justificam.

Um que justificaria seria "Bifes mal passados", de João Magueijo, que não sendo de todo o meu género de leitura me fez rir até às lágrimas. Aliás, devo esclarecer que me foi sugerido num texto da Graça Sampaio e, como o tinha na estante, resolvi "espreitar". Acabei de ler as cerca de 180 páginas nessa madrugada... Já o policial de Mary Higgins Clark é de agradável leitura, mas semelhante a tantos outros, o de Jo Nesbo está longe de ser o melhor do autor (e isto de publicar os livros na ordem inversa da sua edição também prejudica um bocado o seu interesse, no meu entender), "Solar" de Ian McEwan é uma grandiosa seca. Mas lá está, não há espaço nem tempo para falar de todos, fica apenas esta opinião sucinta.

Em Julho, as leituras foram estas:
Por acaso referi aqui quase todos, o que não mencionei foi uma releitura, relacionada com um tema infelizmente ainda muito atual: o da violência doméstica. É neste livro que Clara Pinto Correia relata um antigo caso verídico, de um proeminente juiz que mata a mulher e o filho paraplégico (vítima de um acidente de mota), pois culpa a mulher do sucedido, uma vez que foi ela que ofereceu a motorizada ao rapaz no seu aniversário. Ou seja, aquela ideia que só campónios labregos fazem da vida das suas mulheres um inferno, moendo-as de pancada até à morte, é falsa, acontece em todas as classes sociais. Pior, é que se mesmo o tal hipotético labrego tem sempre algum vizinho que se mostra muito admirado pela desgraça e afirma que o homicida era um "santo homem", quando se trata de gente da "alta" os casos são abafados e muitas vezes nem chegam aos jornais. No caso do livro (como no real) parece que o próprio PGR se meteu ao barulho, tentando culpabilizar a mulher/vítima por não dar apoio suficiente ao marido homicida... (?!?)

Bom, entretanto já comecei a ler outro livro que entrará para o rol dos lidos em Setembro, e que por sinal também me foi recomendado aqui na blogosfera...

BOAS LEITURAS!

terça-feira, 16 de agosto de 2016

A DECISÃO FINAL DO MAJOR PETTIGREW

Como alguns certamente estarão lembrados, este romance foi recomendado pela Catarina a 28 de junho deste ano, aqui.

Na altura fiquei entusiasmada com a sinopse e, com calma, fui bisbilhotando em livrarias e feiras de livros a ver se o encontrava.  Fui bem sucedida - lá estava ele na feira do livro de Portimão, em saldo, a piscar-me o olho com o convidativo preço de 5,60 €.

Grande defensor dos valores tradicionais, o major Pettigrew leva uma vida solitária e pacata no campo, desde que enviuvou. As suas preocupações prendem-se com evitar as coscuvilheiras lá da terra, a futilidade e a ganância do seu único filho e a urbanização desenfreada que ameaça os arredores da sua casa. Mas parece que de repente tudo e todos se conluiaram para não lhe dar sossego...

A morte do seu irmão propicia uma amizade inesperada com a senhora Ali, uma paquistanesa também viúva e dona da loja da aldeia, que também atravessa um período crítico, com a família a querer decidir por ela o seu futuro. A solidão e o amor pela literatura aproxima o casal, mas a sociedade considera este improvável romance no dealbar da terceira idade como inadequado, dadas as diferenças culturais e religiosas. Será que eles arranjam maneira de ultrapassar todos os preconceitos ainda vigentes no século XXI?

Este despretensioso livro de estreia de Helen Simonson cedo se tornou num bestseller, por razões que me parecem óbvias: à ingenuidade enternecedora de um romance tardio alia-se um sentido de humor very british, um pouco cínico, mas certeiro e irresistível. Muito bom!

Citações:
"O Major desejava que os jovens não refletissem tanto. Parecia sempre dar origem a movimentos revolucionários absurdos ou, como no caso de vários dos seus antigos alunos, a poesia muito má."

"Não se fala de religião, de política, de sexo só através de insinuações, não admira que vocês os britânicos sejam obcecados pelo tempo, querido."

"Já se faziam as coisas mais espantosas no Oriente enquanto nós ainda andávamos a ver se aprendíamos a  construir casas com paus e lama e a tentar encontrar ovelhas tresmalhadas. [...] Infelizmente, nada disso conta a menos que entreguem as patentes antes dos americanos."

segunda-feira, 8 de agosto de 2016

O DOMADOR DE LEÕES

Estar de férias com um calor abrasador a ler um livro cuja ação se passa na Suécia em pleno inverno não deixa de ter a sua piada - eu a derreter e as personagens a baterem o dente. Foi o que aconteceu com "O Domador de Leões", o último livro de Camilla Läckberg editado em Portugal.

Sinopse:
Patrik e a sua equipa investigam o caso de várias adolescentes desaparecidas, que suspeitam ter tido o mesmo infeliz destino de Victoria Hallberg: esta ainda estava com vida quando saiu da floresta repentinamente e foi dar à estrada onde foi atropelada, mas evidenciava sinais de ter sido barbaramente torturada durante os 4 meses de cativeiro. Por seu turno, Erica também segue o seu rumo de investigações, que lhe parece estranhamente associado a Laila, uma mulher de meia idade a cumprir pena de prisão pelo assassínio do marido, mas que se recusa a falar do passado. Será que Erica e Patrik vão conseguir conjugar esforços e descobrir o criminoso?

Opinião:
Como todos os livros de Camilla, os crimes são particularmente violentos, pelo que nem todos os leitores de policiais os apreciam: não há cá Perry Masons a defender casos em tribunal com argumentos inventivos, nem deliciosas velhinhas a fazer tricot enquanto resolvem o crime lá da aldeia como se fosse um puzzle. Os tempos são outros e os crimes são puros e duros. Mas para os múltiplos fãs da escritora sueca é mais um policial de leitura compulsiva, desta vez a roçar o fantástico (no sentido do género). Gostei imenso do enredo, embora seja parcialmente previsível e o final me desiludisse um pouco...

Citação:
"«Se conseguires ter os pés e a cabeça quentes já te podes dar por satisfeito», dizia o avô. Gösta começava a compreender o que ele queria dizer: tudo consistia em não ter grandes pretensões."

sexta-feira, 29 de julho de 2016

AS GÉMEAS DO GELO

E agora, aqueles que têm mais ou menos uma ideia das leituras que costumo apreciar, perguntam-me com algum espanto: mas porque é que vais escrevinhar sobre este livro, se o detestaste, com tantos livros empolgantes que leste nos últimos tempos (esta é só para aqueles que têm bola de cristal e usam turbante na cabeça, claro!)?

A resposta é simples: foi combinado num grupo de leitura do facebook os participantes lerem e darem a sua opinião. Hoje, às 11 da noite, hora à qual não sei se poderei estar em frente ao computador - daí ficar aqui com alguma antecedência, "transfiro" para o FB assim que puder. Dito isto, aviso desde já todos os eventuais interessados nesta leitura que este post contém SPOILERS, portanto é para parar de ler já!

Se há coisa que acho piada nos ingleses é aquela mania de que castelo, palácio ou mansão que se preze tem por ali um fantasma a cirandar. Mas se tem piada no reino da lenda ou de histórias contadas junto à lareira em noites de inverno, já não tem tanta quando para dar um final a um livro um bocado esquisitóide se tenta impingir o fantasma. Por mim, a credibilidade vai logo pelo cano!

Gémeas idênticas, Lydia e Kirstie têm 6 anos quando Lydia morre acidentalmente ao cair de uma varanda. Após a tragédia, Sarah e Angus Moorcroft, os infelizes pais das meninas, resolvem abandonar Londres e ir viver para o farol de uma ilha escocesa desabitada, que herdaram de uma avó, com Kirstie. E aí, pouco depois de se instalarem na casa em ruínas, a criança alega que os pais se enganaram, quem morreu foi Kirstie e o nome dela é Lydia. O que não lhe granjeia grande popularidade na nova escola, as outras crianças têm medo e fogem dela, excluem-na completamente das suas brincadeiras - isto quando não a perseguem ou acuam. 

Enquanto a confusão da identidade da miúda (habituada a fazer parte de uma dupla) e o desgosto devastador dos pais soa a possível e até verosímil, o diálogo quase inexistente do casal e mesmo assim quase sempre recheado de mentiras começa a pesar ao longo das 314 páginas. Latente está também a questão da culpa no acidente. Sem se entender porquê. Angus bebe demais, Sarah é completamente desequilibrada, com tantas dúvidas e angústias - chega a crer que o marido é pedófilo, só porque a filha lhe diz que ele beijava a irmã com frequência. Mais adiante, lá para o final, descobre-se que ela teve uma grave depressão, que não se lembra de nada do acidente. Porque em vez de estar a tomar conta das filhas, estava enrolada com um fulano num quarto da casa, com a porta fechada. E as miúdas, curiosas com a novidade, resolveram trepar pela varanda e espreitar pela janela do quarto, quando uma se desequilibrou e caiu - e a outra ficou com o remorso de não ter tido força para a segurar...

Pronto, dadas estas explicações, que final dar a uma mãe "desnaturada" destas? A morte, evidentemente! E toca de pôr o cãozinho a fugir numa noite de tempestade, em que mãe e filha estão convenientemente sozinhas na ilha. Aterrorizadas, trocam confissões e acabam por abandonar a casa do farol rumo à segurança do continente, através de um lamaçal que lhes permite a passagem na maré baixa. Angus, preocupado com elas, apesar da enorme bebedeira, está a fazer o percurso em sentido inverso e parece-lhe ver  uns vultos. Quando chega a casa só encontra Kirstie, encolhida a um canto. Então quem saiu de casa, de mão dada com Sarah, na noite da tempestade? A única interpretação possível é Lydia, a filha que morreu. Ou o fantasma dela, portanto. O corpo da mãe é encontrado no epílogo. "Milagre" é o cão ter escapado ileso... Tenham dó!

Nunca tinha lido nada de S. K. Tremayne ou de Tom Knox, ambos pseudónimos do escritor e jornalista britânico Sean Thomas. Embora entenda que haja quem goste do género de terror, não creio que este livro cumpra essa função - é demasiado soft para aterrorizar alguém. A escrita é acessível e até convida a ler, mas torna-se muito repetitivo e a "reviravolta" final é bastante incongruente. E meio a dar para o moralista, também.

Citações:

"E não há nenhuma razão para que a Lydia não fique em segurança na ilha, desde que não se perca em deambulações. É uma ilha. Ela tem sete anos e pode ficar sozinha, sem o menor risco, em casa. Não temos varandas."

"Ouço as ratazanas na arrecadação. Porque é que o 'Beany' não as mata? Este cão é patético. Taciturno, deprimido, amedrontado."

"Não é tanto a minha própria morte que é intolerável, mas sim a morte daqueles que me rodeiam. Porque os amo. E parte de mim morre com eles. Portanto, todo o amor, se quiserem, é uma forma de suicídio."


segunda-feira, 18 de julho de 2016

O ASSASSÍNIO DE CINDERELA

"Sob suspeita" é um programa televisivo produzido por Laurie Moran, que recria crimes por resolver no intuito de os solucionar. Assim, 20 anos depois, o misterioso homicídio da estudante universitária Susan Dempsey reúne todos os ingredientes para ser um sucesso, tanto mais que os principais suspeitos a serem entrevistados pertencem agora à elite hollywoodesca e empresarial. Mas será que esta investigação televisiva não vai amedontrar o assassino e obrigá-lo a cometer novos crimes?

Este novo policial de Mary Higgins Clark, escrito em parceria com  Alafair Burke, não levantou grande polémica no Clube de Leitura: de leitura acessível, com motivações dos potenciais suspeitos suficientemente claras, a única discussão que suscitou foi se o final era previsível ou não, já que não tem uma grande reviravolta final. E aí as opiniões dividiram-se - mas não é sempre fácil dizer que se desconfiou desde o início do A ou do B? Pessoalmente, não considerei particularmente previsível. Por outro lado, sendo este o primeiro livro que li da escritora norte-americana de 88 anos, as suas 319 páginas não são propriamente geniais. Ou seja, uma leitura agradável q.b. para os leitores de policiais... mas só isso! 

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A próxima reunião do Clube de Leitura terá lugar no dia 17 de setembro, com o romance de Kate Morton "O Último Adeus".

sábado, 2 de julho de 2016

A PEREGRINAÇÃO DO RAPAZ SEM COR

Tsukuru Takazi é um engenheiro que reconstrói estações de comboio em Tóquio, onde vive, e tem cerca de 36 anos quando conhece Sara, uma agente de viagens um pouco mais velha. Solteiro e trabalhador, leva uma vida rotineira, monótona e solitária, ao contrário do que acontecia na sua adolescência, quando fazia parte integrante de um grupo de cinco colegas de liceu, amigos inseparáveis em quem confiava plenamente. Nessa época, o seu único aborrecimento era que todos os seus amigos tinham uma cor no apelido e o dele só significava  "o que faz coisas". Já na altura, um dos seus passatempos favoritos era visitar as estações de comboio de Nagoia, onde ele e os amigos residiam, e observar as carruagens a chegar e a partir, "vomitando hordas de pessoas e engolindo a toda a mecha nova fornada". Por isso, foi sem hesitação que se esforçou para conseguir notas para entrar em engenharia na faculdade de  Tóquio, enquanto todos os seus amigos permaneceram em Nagoia.

Durante o primeiro ano da faculdade ele regressa à sua cidade natal sempre que lhe é possível, a amizade com o seu grupo não parece ser abalada. Contudo, durante o segundo ano, nota que os seus amigos não respondem às suas chamadas telefónicas até que um dia Ao lhe diz explicitamente para ele não voltar a ligar a nenhum deles. Quando pretende uma justificação para tal, o outro apenas o incentiva a pensar no assunto, que depressa vai descobrir - mas Tsukuru não faz a menor ideia ao que Ao se refere. O pacato e tímido estudante sofre então um profundo desgosto com o abandono dos amigos e só pensa em morrer. Durante os seis meses seguintes perde peso e faz tudo automaticamente. "Foi como se me tivessem atirado ao mar, do alto de um navio, em plena noite", explicará mais tarde.

À medida que o tempo vai passando, "a dor por ter sido ostensivamente rejeitado persistia, com a diferença que agora aumentava e diminuía, como a maré. Havia alturas em que lhe chegava aos pés, e outras em que se retirava, afastando-se para longe, ao ponto de mal dar por ela." Assim, é sem espanto que o desaparecimento de Haida, um amigo já da faculdade, não lhe provoque um desgosto idêntico: Tsukuru parece fadado para ser abandonado. E chega à errónea conclusão que "no fundo, não tenho nada a oferecer às outras pessoas. Pensando bem, nem sequer tenho nada a oferecer a mim próprio."

É Sara que o convence a procurar os antigos companheiros e esclarecer a situação uma vez por todas: "Quero saber quem são, afinal, esses indivíduos que continuas a carregar às costas." E 16 anos depois ele parte nessa demanda...

Murakami no seu melhor, num estilo mais intimista e menos fantasioso, em que o leitor se identifica imediatamente com a personagem. Afinal de contas, quem é que nunca sofreu com uma rejeição inexplicável e injusta?

BOM FIM DE SEMANA!
(com ou sem férias à vista...)

sexta-feira, 24 de junho de 2016

ATÉ AO NATAL?!? hummm...

Este ano na Feira do Livro fartei-me de fazer compras, a bons preços, na Happy Hour: 5 foram a metade do PVP, o do Maigret foi oferta (na compra dos 2 primeiros números da nova coleção vampiro), todos os restantes tiveram descontos superiores aos 10% para aderentes da FNAC.  Na altura até exagerei e referi que tinha livros para ler até ao Natal. Quer dizer, até tenho, se lhes juntar uns quantos em fila de espera a ganhar pó na estante ou esta lista de 2000 livros para download na net  - que fica para quem quiser aproveitar. Na certeza porém que não estive a verificá-la, reparei apenas que existiam alguns títulos repetidos.

Bom, bem vistas as coisas, até foi uma boa poupança e tão depressa não compro livros. Com a honrosa exceção do último da Camila Lackberg - "O Domador de Leões" - que conto encontrar na Feira do Livro de Portimão, que visito todos os anos, e que em 2016 já tem presença marcada entre 27 de Julho e 24 de Agosto, na zona ribeirinha da cidade.

Então vou ali ler um livrinho... e já volto! Até lá, tenham...

UM ÓTIMO FIM DE SEMANA!

terça-feira, 21 de junho de 2016

AS ESGANADAS

Como alguns saberão, sou e sempre fui grande fã de Jô Soares, tanto na sua faceta de ator e humorista - nos velhos tempos de "O Planeta dos Homens" e "Viva o gordo" - como no de apresentador do talk show "O programa do Jô", que esteve em exibição desde o ano 2000 (e suponho que agora chegou ao seu final). Mesmo sendo um homem tão multifacetado, ainda encontrou tempo para escrever alguns livros, dos quais 4 estão publicados (e "traduzidos") em Portugal. "As esganadas" é o terceiro que leio e, como sempre, não desapontou.

A história é policial e tem o seu q.b. de non sense: 3 gordinhas de boas famílias são encontradas mortas, entupidas em comida; quando se julga que o perfil das vítimas será esse, eis que aparece uma quarta gordinha assassinada pelo mesmo método, mas que exercia a profissão de prostituta; o leitor sabe quem é o assassino quase desde o início, Caronte é um homem esquelético e traumatizado, cuja mãe obesa o impedia de comer guloseimas na infância; o interesse do enredo está em saber como o delegado Mello Noronha, o inspetor Valdir Calixto e o antigo detetive lisboeta Tobias Esteves vão conseguir descobrir e apanhar o criminoso.

A ação decorre em 1938 no Rio de Janeiro, em plena ditadura de Getúlio Vargas, e tem nas personagens secundárias figuras como Fernando Pessoa, Vasco Santana e Mirita Casimiro, por exemplo. No entanto, no final do livro o autor alerta: "Os vários personagens verídicos que permeiam constantemente a trama, embora inseridos no contexto histórico, são tratados de forma ficcional numa mescla de fantasia e realidade". Apesar de toda a mortandade inerente a um enredo com estas características, o livro é muito divertido e dispõe bem, num tom de comédia de costumes em que é infalível!

Citações (os provérbios - desconhecidos - do detetive tuga):

"Impossível é Deus mentir e rato fazer ninho em orelha de gato."

"Mais vale ser solteirona em Sintra do que apedrejada em Teerão."

segunda-feira, 6 de junho de 2016

COMO VAMOS NÓS DE LEITURAS?

Não tenho falado de livros, mas na verdade não tenho lido muito: o 2º da amiga genial da Elena Ferrante (sobre o qual escreverei quando acabar de ler os quatro volumes); "A Filha Desaparecida", de Jane  Shemilt, que mais parece um livro de terror, pois trata do desaparecimento de uma adolescente e do sofrimento (e sensação de culpa) da sua mãe; "O Elefante Evapora-se", uma coleção de 17 contos de Haruki Murakami, escritos entre o princípio dos anos 80 e 1993; e vários  policiais.

Bom, se alguns destes contos de Murakami estão um bocadinho datados no tempo - nem todos, inclui por exemplo "O Segundo Assalto à Padaria", que é engraçadíssimo - nem vos conto sobre estes romances policiais, quase todos eles da antiga coleção vampiro de bolso. Que, a propósito, está a ser republicada - apenas alguns números, evidentemente! Então é o Perry Mason a correr para a cabine telefónica, sem se esquecer do sobretudo e do chapéu na cabeça, as loiraças todas a cruzarem as pernas perante os olhares ávidos masculinos (hummm... não sei se isto é assim tão datado!), o monóculo do Lord e detective Peter Wimsey e, pasme-se, a primeira mulher detective a comandar uma equipa policial. Mas claro, nesse tempo até já havia UM computador na esquadra... Enfim, estou a brincar, mas a verdade é que estes livros foram escritos entre 1930 e 1976, obviamente são notórias vivências temporais muito diferentes das modernas.

Entretanto também já fiz uma primeira ronda pela Feira do Livro de Lisboa 2016, nada de muito novo a acrescentar: domingo à tarde é capaz de ser dos melhores dias para ver gente e autores, não o é certamente para comprar livros - o banho de multidão não ajuda nada na ponderação... Mas até dia 13 ainda terei outras oportunidades de passar pelo parque Eduardo VII!


domingo, 15 de maio de 2016

A AMIGA GENIAL

Elena Ferrante é o pseudónimo de uma escritora italiana que não revela a sua identidade, da qual se sabe apenas que viveu em Nápoles, onde possivelmente terá nascido por volta de 1943, e  na Grécia, e que escreveu recentemente a tetralogia de "A Amiga Genial" - leram bem, são quatro livros em que este é o primeiro volume, seguindo-se "História do Novo Nome", "História de Quem Vai e de Quem Fica" e "História da Menina Perdida".  

Curioso também é que uma das as duas personagens principais tem o nome de Elena, pelo que se especula se esta não será uma obra autobiográfica - o máximo que a escritora concorda em revelar é que  “As mulheres das minhas histórias são ecos de mulheres reais que, por causa do seu sofrimento ou da sua combatividade, influenciaram muito a minha imaginação: a minha mãe, uma amiga de infância, mulheres conhecidas cujas histórias eu sabia” (jornal "Público", de 30/01/2015)

Seja como for, esta história começa pelo final, quando Lila cumpre finalmente a vontade de desaparecer sem deixar rasto: tem agora 66 anos de idade! Isso motiva Elena, escritora conceituada, a escrever toda a história de como se conheceram na escola e se tornaram amigas deste essa tenra infância. Mas não só, relata também o dia a dia do bairro pobre da periferia onde elas habitam, das suas casas, das famílias, da escola, das querelas,  dos amores e desamores  de miúdos, adolescentes e graúdos, onde não falta até o homicídio do senhor Achille às mãos de um vizinho comunista radical. Este volume retrata apenas a infância e adolescência das duas raparigas, no período pós-guerra, pelo que temo que tenha de chegar ao final do 4º livro para descobrir que destino levou Lila. 

Enfim, houve unanimidade no Clube de Leitura, todas adorámos o livro. Pessoalmente, já me agarrei ao segundo volume... 

Citações:

"Ela, Nino e Marisa tinham a sorte de ter uns pais que levavam os filhos a fazer passeios até longe, não só meia dúzia de passos até aos jardins em frente da igreja. Os nossos não eram assim, faltava-lhes tempo, faltava-lhes dinheiro, faltava-lhes vontade. "

"Disse que não porque se o meu pai viesse a saber que eu tinha entrado naquele automóvel, embora fosse um homem bom e amável, e embora gostasse muito de mim,  matava-me com pancada imediatamente, e ao mesmo tempo os meus irmãozinhos, Peppe e Gianni, apesar de ainda serem pequenos, sentir-se-iam na obrigação, agora e no futuro, de tentar matar os irmãos Solara. Não havia regras escritas, sabia-se que era assim e pronto."

"Se não houver amor, não é só a vida das pessoas que se torna árida, mas também a das cidades."

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A próxima sessão do Clube de Leitura terá lugar no dia 2 de julho deste ano, versando o livro "O Assassínio de Cinderela", de Mary Higgins Clark e Alafair Burke.