quarta-feira, 16 de Abril de 2014

OLHAI OS MALMEQUERES DO CAMPO...

Um dia destes, um jardineiro encontrava-se a aparar a relva de um campo próximo de casa. E à medida que o corta-relvas avançava, desapareciam também as pequenas florinhas que ali nascem espontaneamente na primavera. Uma coisa de causar dó: de um lado a máquina manuseada pelo homem e a relva aparada e verdejante, do outro o campo ainda pintalgado de brancos, rosas e amarelos, prestes a sumir com o corte.

O jardineiro camarário estava a realizar o seu serviço, ninguém o podia acusar de nada. Mas lá que dava pena, dava!

Alguns dias depois, passei por lá novamente. E a mãe natureza já dera conta do recado - as pequenas flores já se encontravam de volta ao relvado, novamente floridas. Comentei o caso com o maridão e o filhote e este sai-se a dizer que só uma mulher para reparar nesses pormenores. Não sei se ele tem razão, desconfio que daquele relvado só se lembre das muitas horas que lá andou a jogar à bola. Coisas de rapazes! Mesmo daqueles que fazem hoje 22 anos e, se calhar, ao verem relvados deviam ver mais do que apenas futeboladas... 

PARABÉNS, FILHOTE!


segunda-feira, 14 de Abril de 2014

3 CASOS DE PERRY MASON

Ainda estamos em meados de abril e já li 12 livros este ano. O que não quer dizer muito, quando alguns deles são policiais de bolso, que se leem num ápice.

Não vou aqui falar do enredo de cada um destes casos de Perry Mason - Erle Stanley Gardner, também ele advogado criminalista, escreveu mais de 80 livros e ainda mais argumentos para séries televisivas onde o famoso causídico desvenda em tribunal os mistérios mais intrincados, com a ajuda sempre imprescindível da sua secretária Della Street e do detective privado Paul Drake. Isto fora os livros que escreveu com outros pseudónimos, nomeadamente A. A. Fair, com outros protagonistas.

A principal vantagem deste género de literatura (há quem não a considere como tal, mas não pretendo entrar nessa discussão) é a acessibilidade para quase todos os leitores: muito diálogo, muita ação, poucas descrições e, de um modo geral, uma linguagem simples. Mesmo que na base estejam crimes que à partida parecem insolúveis ou indicar numa única direção. Com estas características, dificilmente se perde o fio à meada, o que resulta numa rápida leitura - ainda mais tendo em conta que são livros de bolso, com cerca de 200 e poucas páginas cada. Outra vantagem, digo eu, é que não pesam muito (e cabem) dentro da mala...

Bom, mas como "não há bela sem senão" e depois de ler vários seguidos, começamos a notar que estão um bocado "datados": são os piropos de "boneca" atirados à secretária ou a outra protagonista nova e "jeitosa", é outra a considerar-se muito "batida" aos 23 anos, são os sobretudos e chapéus dos homens a demonstrar um certo status, é o "vai-e-vem" das corridas às cabines telefónicas em cada esquina, para se manterem a par dos acontecimentos, entre tantos outros pormenores. OK, não é que as histórias percam o seu interesse - vendo bem, quase todos os livros escritos há mais de 50 anos (como aqui é o caso) são um pouco "datados" - mas concluí que devem ser lidas de tempos a tempos, com a devida moderação. Para não se tornarem um bocado caricatas!  

Isto, claro, para além do facto de atualmente preferir diversificar leituras, em vez de ter fases de ler exclusivamente um único autor, como aconteceu tantas vezes noutros tempos. É engraçado como até nisto mudamos, com o passar dos anos... 

sábado, 12 de Abril de 2014

A BIBLIOTECA ITINERANTE (que faltava)

No post "Uma árvore, um banco e um jardim" quase toda a gente adivinhou que se tratava do jardim do Príncipe Real, pelo que não foi necessário utilizar a foto que tinha "na manga", para possível futuro "enquadramento" do local. Aliás, a foto não era esta mas outra semelhante, pois nesta até se vislumbra a placa com o nome da praça - e bem sei que alguns têm olho de lince... Suponho que, tal como eu, ninguém aprecia "adivinhas" demasiado óbvias.

No entanto, considerei a ideia tão interessante, que não quis deixar de a divulgar: a biblioteca itinerante funciona naquela carrinha azul e os livros são de autores portugueses... mas traduzidos para inglês. Um projecto de um pequeno grupo estrangeiro, pretendendo assim dar a conhecer aos turistas anglo-saxónicos alguma da nossa literatura. Gostei!

Com ou sem passeatas, mas preferencialmente com boas leituras, tenham um...

EXCELENTE FIM DE SEMANA!

quinta-feira, 10 de Abril de 2014

FROZEN

Não tenho ido ao cinema, mas dos filmes que tenho visto por casa, este "Frozen - O Reino do Gelo" foi sem dúvida o que mais gostei: "Causa Justa" (1995), tem um bom naipe de atores, onde se inclui Sean Connery e Ed Harris (e a ainda  menina Scarlett Johansson), mas o argumento policial é um bocado estranho - quando julgamos que o filme vai acabar, ainda faltam 40 minutos, que mudam a história completamente; "Anything Else - A Vida e Tudo o Mais" (2003) é escrito, realizado e interpretado por Woody Allen e tem todos aqueles tiques que me irritam nos filmes dele, nomeadamente uma série de personagens neuróticas, sendo o protagonista (Jason Biggs) o totó mais chapado de todos. Tanto um filme como o outro não alcançaram mais de 6.3/10 e 6.4/10 na IMDb (e não sei se por especial favor...). 

Anna e Elsa são as duas princesinhas de Arendellle, que em criança gostavam de brincar com a neve, dado o dom de Elsa de transformar tudo em neve e gelo. No entanto, numa dessas brincadeiras infantis, Anna é atingida de raspão e Elsa fica com medo de a magoar gravemente. Os reis seus pais prometem protegê-la, mas ambos morrem e a jovem princesa vive reclusa nos seus aposentos, sem contactar praticamente com ninguém e negando todos os pedidos da irmã para a ver. Até que chega o dia em que Elsa vai ser coroada rainha do reino e, por mero descuido, esta transforma Arendelle numa cidade coberta de neve e gelo. Sendo acusada de feitiçaria ela foge para longe, mas a irmã vai atrás dela para a convencer a desfazer o encanto e voltar - deixando o palácio sobre o comando do seu jovem pretendente, Hans.

No caminho encontra Kristoff, um simpático vendedor de gelo, e a sua inseparável rena, bem como Olaf, um boneco de neve feito pela irmã. A viagem é recheada de aventuras e no final... Bom, são desenhos animados, é suposto terem um Happy End garantido! 

Fica o trailer, para quem quiser espreitar:


"Frozen" conquistou todos os prémios a que concorreu na sua categoria, Oscar incluido, o que me pareceu mais que merecido. E tem a classificação atual de 7.9/10, na IMDb, desta vez sem favor nenhum... Fica a dica para quem, como eu, adorar desenhos animados!

Imagem da net.

segunda-feira, 7 de Abril de 2014

UMA ÁRVORE, UM BANCO E UM JARDIM

Uma árvore,

um banco e...

um jardim. O difícil, ou talvez nem tanto assim, é adivinhar onde. Claro que se acrescentasse a biblioteca itinerante era "canja", mas vamos ver se chegam lá só com estas três fotos...

terça-feira, 1 de Abril de 2014

A SENTINELA

Quando o Carlos Barbosa de Oliveira escreveu sobre este livro no seu blogue "Crónicas on the rocks", eu própria tinha acabado de o ler há poucos dias. Com a diferença que ele é grande fã do escritor, mas por aqui foi a primeira vez que o li. E, tanto quanto julgo saber, este género "policial psicológico" não é habitual nas suas obras, mais viradas para romances históricos.

Dito isto já há alguns anos que estava curiosa de ler Zimler, principalmente porque duas grandes amigas têm opiniões diametralmente opostas: uma que os livros dele são uma estopada, a outra que é um escritor fantástico e imperdível. Ora nestas questões alinho mais no ler para crer... Parece-me agora é que comecei pelo livro errado - não o escolhi por gostar de policiais (embora começar por aí se tornasse mais cativante), mas por ser o mais recente à venda no Círculo dos Leitores.

Bom, como policial, considerei muito fracote: Pedro Coutinho, um abastado construtor civil, é assassinado e Henrique Monroe, um inspector da Polícia Judiciária, é chamado a investigar o caso. As suspeitas seguem em dois sentidos: o envolvimento do empresário em casos de corrupção que alguém deseja abafar ou de tentar defender a filha adolescente de um caso de assédio sexual. Mas o crime depressa passa para um plano secundário, ao descobrirmos o segredo que tanto atormenta o inspetor e como ele também se serve dessa "arma fantasmagórica" para avançar na investigação. Para tal, muitas destas 424 páginas são passadas a descrever a infância infeliz de Monroe e do seu irmão mais novo, a relação muito próxima que ainda mantém com ele na atualidade e o seu dia a dia com a mulher e os dois filhos do casal. Resumindo: um enredo um bocado confuso, sem sabor a carne ou peixe.

No entanto, não li tantas páginas só para ver como acabava: a escrita é apelativa, mas onde o livro me parece ter mais mérito é no retrato realista que faz do nosso país, com a crueza de quem nasceu americano e decidiu viver em Portugal há mais de duas décadas (e naturalizar-se português). Agora está visto é que terei de ler outro livro mais caraterístico de Zimler, para formar uma opinião mais abalizada...

Citações:
"De perfil, parecia mais velha - e dava a sensação de ter acabado de compreender que se afastara tanto de tudo que sempre sonhara que nunca conseguiria voltar a onde queria estar."

"O Alentejo não tinha nada de monumental - nem montanhas com cimos de neve nem morros altaneiros como no Oeste americano -, mas as casas caiadas e as ruas calcetadas exibiam uma tal ordem e limpeza, e a variedade de verdes das suas paisagens era tão tranquilizadora - como um sonho de criança que tivesse tomado forma - que parecia ser o sítio perfeito para mim e para os miúdos."

"- Vamos andar todos a pedir pelas ruas antes de darem cabo de nós. É o que eles querem.
- Eles quem? - perguntou Ernie.
- Os que fazem as regras... O FMI e as agências de notação, os banqueiros e os tipos da bolsa... Dormem com os canalhas que governam este país. Todos eles sujeitinhos de fato de marca que vivem em Cascais e no Estoril..."

"Ao mesmo tempo, apercebi-me que o nosso sistema de filtragem  estava gravemente avariado: em vez de rejeitar as pessoas mais corruptas, o aparelho político permitia-lhes subir até ao topo." (na página 369, e após um resumo muito elucidativo da "licenciatura" de Miguel Relvas na Universidade Lusófona)

domingo, 30 de Março de 2014

PARE, ESCUTE, OUÇA

Esta semana praticamente não vi telejornais, como aliás vem acontecendo cada vez com mais regularidade. São tantas más notícias e disparates governamentais (ou da oposição!) e entrevistas a só servirem para os entrevistados se auto-vangloriarem, que o resultado é absolutamente deprimente. 

Mas claro que não vivendo numa redoma, com as redes sociais a funcionarem em pleno e outros programas de informação televisivos, não me escaparam o aumento da pobreza no nosso país, segundo os últimos dados do INE, ou a população de pouco mais de 6 milhões prevista para o ano de 2060, se as políticas de apoio à natalidade (que não existem, realmente!) e a emigração continuarem neste rumo. A questão já não é a das raízes que nos prendem ao país onde nascemos, mas de pura sobrevivência.

Para descontrair, na semana passada ainda tentei ir ao cinema ver uma comédia - "Fim de semana em Paris" - mas o filme era tão... tão... pouco comédia, mais dramático e incongruente do que outra coisa, que a tentativa de animar falhou redondamente. Para nem me apetecer escrever sobre o filme no blogue, estão a ver...

Companhia assídua e calmante tem sido José Duarte que, com este triplo CD, me tem dado mais do que "Cinco minutos de jazz", já que para comemorar os 45 anos do seu programa de rádio - iniciado a 21 de fevereiro de 1966 - inclui 45 temas musicais dos mais variados artistas.

E conta ele que quando o programa começou na Rádio Renascença (atualmente dá na Antena 1 da RDP), com cobertura nacional e internacional, lhe chegaram as "primeiras mensagens apócrifas" que o classificavam como:
- amante de batuques
- racista
- apreciador da cultura dos pretos que punham em risco a unidade nacional.  
E o jazz não era "proibido" antes do 25 A, faria se fosse...

Obrigada, José Duarte, e continua com essa boa "carolice" jazzística!

Como não podia deixar de ser, fica também uma das suas músicas escolhidas, via YouTube - "My Baby Just Cares For Me", na voz de Nina Simone. São é apenas 3m e 43s, não os tais Cinco:


Imagem da FNAC.

quarta-feira, 26 de Março de 2014

"CAÇA" AOS PATOS...

Uma noite destas sonhei que andava a "caçar" patos. Com uma máquina fotográfica, está bom de ver, já que não sou adepta da caça propriamente dita. Assim, mesmo que o fim de semana não estivesse particularmente soalheiro, sempre teve umas abertas que deram para um pequeno passeio. À Gulbenkian, que visitamos invariavelmente no início da primavera, mais até pela fauna do que pela flora. Se bem que o cheirinho primaveril já se faça sentir agradavelmente nos seus jardins... 

Isto porque árvores e arbustos se encontram carregados dos primeiros botões e flores. Mas pronto, desta vez a ideia era dar o gosto ao dedo e clicar, "apanhando" alguns patos. Ou aves. Ou qualquer outra novidade interessante.

Patos havia para todos os gostos: os que ficavam quietinhos em pose para a fotografia,

os que viravam costas,

os que brincavam ao pé coxinho,

os que vestiam outras roupagens,

os que dormiam ou...

os que pareciam estar de choco.

Pombos também eram aos magotes, uma gaivota também se deixou fotografar, mas as restantes aves eram mais ariscas: nem uma pluminha para amostra deixaram captar.

No entanto, o que considerei mais estranho foi a quantidade de gente que encontrei a fazer pequenos esboços coloridos de alguns recantos. Não como numa escola, todos no mesmo local, mas espalhados pelo jardim, de várias idades e usando materiais diversos. 

Não sei se a ideia é realizar um "quadro" semelhante a este que se encontra exposto nos relvados - que me pareceu desenhado a giz ou crayons em cartolinas pretas - mas o resultado foi bem feliz: qualquer um identifica os jardins da Gulbenkian ao primeiro olhar...

domingo, 23 de Março de 2014

O VÉU PINTADO

O escritor e dramaturgo britânico Somerset Maugham escreveu este livro em 1925, tendo como base do enredo um adultério: Kitty, uma jovem bela e fútil é incentivada pela mãe a encontrar um pretendente rico, mas ao fim de meia dúzia de anos a tarefa mostra-se inglória; quando a sua irmã mais nova (e menos dotada fisicamente) fica noiva do filho de um baronete ela então decide casar-se com Walter Fane, o bacteriologista oficial de Hong Kong, que se apaixona por ela durante umas férias em Londres; depois de casada depressa descobre que o trabalho do marido não lhe dá grande status social e que ele é um homem demasiado sério para a convivência do casal ser divertida; por outro lado, o assédio constante de Charles Townsend, vice-governador local, acaba por a seduzir e Kitty apaixona-se perdidamente. Até ao dia em que o marido descobre o adultério e dá-lhe a escolher entre duas opções: ou o divórcio (que arrastará o nome dos amantes pela lama, já que Charles também é um homem casado) ou acompanhá-lo até Mei-tan-fu, na China, para onde foi destacado como médico e bacteriologista, para tentar acabar com uma epidemia de cólera que tem matado grande parte da população. E como Charles se recusa a abandonar a sua mulher e as suas ambições políticas de vir a chegar a governador, Kitty não tem outro remédio senão seguir o marido. Apavorada, evidentemente.

No entanto, para lá do triângulo amoroso, Maugham dá-nos a conhecer algumas facetas da vivência na China dos anos 20 do século passado, com usos e costumes que hoje nos parecem estranhos e distantes  -longas viagens em liteiras, conventos católicos encalhados no meio de montanhas inóspitas ou surtos de cólera que chacinam populações inteiras. Ou outras que ainda se verificam naquela parte do mundo, como meninas abandonadas à nascença pelos simples facto de nascerem do sexo feminino.

Os capítulos curtos, os diálogos contundentes e as descrições pitorescas mas não demasiado alongadas contribuíram para uma ausência de discussão no Clube de Leitura: 293 páginas que se leram com bastante prazer e longe de se encontrarem desatualizadas, apesar de terem sido escritas há quase um século. Muito bom!

Citações:

"E esse é o primeiro requisito para um homem entrar para o Governo. Eles não querem homens inteligentes; os homens inteligentes têm ideias e as ideias causam problemas; querem homens com charme e tacto e que lhes dêem a garantia de não virem a fazer nenhum disparate."

"Quando tudo durava tão pouco e nada tinha grande importância, era uma pena que as pessoas, dando um valor absurdo a objectos triviais, se fizessem a si próprias e aos outros tão infelizes."

A próxima sessão do Clube de Leitura será a 10 de maio, com o livro "As Cidades Invisíveis", de Italo Calvino.