terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

NÃO MATEM A COTOVIA

Este extraordinário romance de Harper Lee decorre numa pequena cidade sulista norte-americana (Maycomb, no Alabama), em meados da década de 30 do século passado, num ambiente em que a palavra de um branco valia mais que a vida de um negro e em que o racismo e o preconceito eram ainda muito comuns entre a população, enquanto a liberdade das mulheres era praticamente inexistente.

Narrado na primeira pessoa por uma criança órfã de mãe, Jean Louise (Scout) Finch, ficamos a conhecer um pouco da cidade e dos seus habitantes, primeiro num circuito mais ou menos restrito da vizinhança "ao alcance da voz de Calpurnia" (a empregada negra), onde decorrem as suas brincadeiras com o irmão Jem e os primeiros encontros nas férias de verão com Dill - um rapaz um ano mais velho que ela, com o qual combina casar num futuro distante -  e o interesse excessivo que têm pela vida solitária de um vizinho que raramente sai de casa. Mas, à medida que vai crescendo, esse círculo vai-se alargando à escola que detesta, aos colegas que insultam o seu pai Atticus (advogado daquela cidade) e aos quais ela responde com os punhos, mesmo que raramente compreenda o que significam, e à família mais ampla que encontra na época do natal, onde por vezes também recorre a uns murros para "pôr nos eixos" um primo embirrante, sofrendo as consequências dos seus actos. É assim através dos seus olhos e da sua inocência (nem sempre isenta de perversidade) que descobrimos a consciência cívica do seu pai, em contraposição à mentalidade das gentes locais, arreigadamente preconceituosa e racista. Quando Atticus é chamado a defender um negro, injustamente acusado de violentar uma rapariga branca, a cidade está ao rubro de indignação, havendo quem deseje fazer "justiça" pelas próprias mãos... 

"Não Matem a Cotovia" foi publicado em 1960 e granjeou à sua autora o prémio Pultitzer, no ano seguinte. ADOREI! (pena é haver tantas gralhas nesta edição!)

Citações:
"Se o resto do ano, na escola, fosse tão cheio de complicações dramáticas como o primeiro dia, talvez chegasse a ser medianamente divertido, mas a perspectiva de passar nove meses a privar-me de ler e de escrever fazia-me pensar em fugir."

"O Sr. Avery disse que estava escrito na Rosetta Stone que quando as crianças desobedeciam aos pais, fumavam cigarros e andavam em guerra umas com as outras, as estações do ano mudavam: Jem e eu sentimo-nos acabrunhados com um sentido de culpa, por termos contribuído para as aberrações da Natureza, fazendo a infelicidade dos nossos vizinhos e causando desconforto a nós próprios."

"- O teu pai tem razão - disse ela. - As cotovias não fazem mais nada senão cantar para satisfação nossa. Não comem coisas nos jardins das pessoas, não fazem ninhos nas searas, não causam danos a ninguém. É por isso que é pecado matar uma cotovia."

"- Como puderam eles fazer isto, como puderam?
- Não sei, filho, mas fizeram. Já o fizeram antes, fizeram-no esta noite e voltarão a fazê-lo. E quando o fazem... parece que apenas as crianças choram."

32 comentários:

  1. Ainda não li e não tenho a certeza se o tenho na minha biblioteca (tenho tantos livros para ler). Vou ver, se não talvez o venha a comprar. Só não sei quando o vou ler, mesmo estando sempre a ler pelo menos dois de cada vez.

    ResponderEliminar
  2. Nem acredito!!!

    Teté, ainda ontem andei aqui a pesquisar sobre este livro e em todos os sites dizia "ESGOTADO" :(((

    E eu quero-o...muito.

    Dou-te 5€ por ele...é justo, não? (assobiando)

    Beijinho :)

    *Mudaste o teu pensamento intemporal de ontem, e que eu adorei, nem tive tempo de o copiar :(
    Agora tenho que ir ver se o encontro aqui no teu blog...só trabalhos difíceis que me dás :p

    ResponderEliminar
  3. Ouvi falar maravilhas desse livro. Agora estou a dedicar-me aos clássicos e tenho uma lista enorme de livros recentes para ler. Nem sei para onde me virar.

    Beijinhos
    Patrícia

    ResponderEliminar
  4. Ainda não li, lá vai mais um para a lista!

    ResponderEliminar
  5. Adorei o teu comentário e as citações.

    Tenho de o ler one day!

    ResponderEliminar
  6. Carambas!!!

    Este é o meu terceiro comentário, se desta vez ficar, vou comentar a sério.

    ResponderEliminar
  7. Falando com as palavras do Carlos, "Não Matem a Cotovia" é um dos livros da minha vida e, um

    C L Á S S I C O ! ! !

    Já viste o filme, Teté?
    Também vale a pena.

    Mesmo ganhando o prémio Pultitzer, a autora só escreveu um único livro, que é um pouco auto-biográfico, sendo o Dill inspirado no Truman Capote, que ela conhecia desde criança.
    Na vida real não se casaram, ele era homossexual, mas ficaram sempre amigos até ela ficar melindrada com ele, mas isso, já é uma outra história...

    O frio sibérico continua, o sol brilha glacial, mas dá alegria.

    ResponderEliminar
  8. Adorei este livro, que li já há muitos anos. Requisitei-o numa biblioteca que havia em São Domingos de Benfica, lembras-te? Por trás da nossa escola. Acho que "limpei" essa biblioteca.:)
    Bjs

    ResponderEliminar
  9. Sabia que ias gostar! Afinal já começamos a conhecer os gostos uns dos outros. ;)
    Pois eu deixei de gostar das edições da Europa-América...

    ResponderEliminar
  10. Ó Teté, não será um pouco PIEGAS?!.... (Tou a brincar. Deve ser muito bonito, até. Tenho de o ler.)

    Beijinhos.

    ResponderEliminar
  11. nunca tinha ouvido falar e sinceramente interessou-me :)

    ResponderEliminar
  12. VITOR, para ti e PARA TODOS: se comparem o livro, tentem outra edição que não esta! Para além das múltiplas gralhas, a tradução também é muito bera. Como comprovei, ao dar uma espreitadela noutros blogues que referiram este livro... ;)

    Apesar disso, o enredo é suficientemente interessante para não arrefecer o entusiasmo com a sua leitura! :D

    Ler dois livros ao mesmo tempo... é coisa que não faço! :))

    ResponderEliminar
  13. E tomaste muito bem. Imagino que tu não terás problemas com a tradução, CATARINA! :D

    ResponderEliminar
  14. MARIA, acabo de ver na net que a DIFEL (que tem melhor tradução) cessou a atividade em 2011, daí ter esgotado! :(

    Esta edição de bolso, mais berucha em todos os aspetos, encontras na Bertrand, por 6,55 €!

    O pensamento intemporal anterior era de Nuno Camarneiro, do livro "No Meu peito Não Cabem Pássaros" e era a seguinte:

    "Junto às tias e a esta terra, tudo volta a ser pequenino. O sufixo parece ser anterior às palavras, o menino está cansadinho, a viagem foi boazinha, está tão branquinho, coitadinho. Portugal é assim, diminutivo e manso. O que foi chegando fez-se à escala e por cá ficou, as Indiazinhas, as Americazinhas, os pretitos, pobrezinhos. Os portugueses não querem nada que não possam meter no bolso. Como é que esta gente descobriu tanto mundo?"

    Não quero que te falte nada, hem?! =))

    Beijocas!

    ResponderEliminar
  15. Este é quase um clássico... do século passado, PATRICIA! :))

    E também gosto de clássicos, note-se, costumo é ir intervalando com outros mais recentes! :)

    Beijocas!

    ResponderEliminar
  16. Se fores como eu, TERESA DURÃES, a lista é enoooooormmmeeeee... :D

    ResponderEliminar
  17. Lê que vale a pena, MIGUEL! Entretanto, pode ser que saia uma edição melhor que esta... :)

    ResponderEliminar
  18. EMATEJOCA, pelo que li na net, também fiquei com ideia que o livro é um pouco auto-biográfico: o pai dela também foi advogado, também nasceu e viveu numa pequena cidade sulista, cujas gentes não deviam ser tão diferentes das que ela retrata no livro.

    E sim, também sei que foi o único livro de ficção que escreveu, que o sucesso assustou-a! Salvo erro, aconteceu algo semelhante com a escritora que escreveu e "E Tudo o Vento Levou"!

    O que não sabia é que Dill representava Truman Capote, embora tivesse lido qualquer coisa de ela ter feito um pequeno papel num filme sobre a biografia dele. Gracias pelo teu comentário, que estamos sempre a aprender... :D

    Temos sempre ideia que os clássicos são escritos algures no século XIX, mas, vendo bem as coisas, já estamos no XXI! E ela ainda é viva... :)

    ResponderEliminar
  19. Não tenho a certeza se sei qual é essa biblioteca, suponho que seria uma que tanto vendia livros como os emprestava aos leitores. Coisas que normalmente não resultam, TERESA! :)

    Beijocas!

    ResponderEliminar
  20. Pois é, TONS DE AZUL, ao fim de quase 5 anos, já vamos conhecendo alguns dos gostos uns dos outros, pelo menos daqueles que conhecemos quase desde o início! :))

    Estava interessada em lê-lo já há muito tempo, mas tu e o Nuno Cardoso ainda incentivaram mais a sua leitura... Obrigada pela boa dica! :D

    Beijocas!

    ResponderEliminar
  21. Nem me fales em piegas, GRAÇA, que me dá logo vontade de dar uns chutos no traseiro do cretino! :P

    O livro vale a pena! :)

    Beijocas!

    ResponderEliminar
  22. Há sempre uma primeira vez, MOYLITO! :D

    ResponderEliminar
  23. Estou a ver que tenho que despachar "O Crime do Padre Amaro" para começar a leitura deste livro.

    Já vi que a edição é péssima mas o que se há-de fazer? Já li anteriormente livros da Europa- América e a experiência não é muito boa.

    Já viram o filme?

    ResponderEliminar
  24. Obrigada, obrigada, obrigada...és uma querida (assobiando, rindo e piscando o olho só porque ainda não me esqueci do marcador dos laçinhos colilosa)

    Lembras eu dizer que se visse o título deste livro era capaz de seguir em frente? Pois, disse, mas já não digo e agora está na minha lista de livros a comprar e tudo por causa das palavras do pensamento intemporal que me faz lembrar a minha madrinha ehehe

    Quanto a "Não matem a cotovia", este livro é falado no livro "As serviçais", daí eu querer ler também...

    Beijinho :)

    ResponderEliminar
  25. É, LANDA, a qualidade da tradução e a (falta) de revisão deixam muito a desejar... Mas, apesar disso, o livro vale a pena! :)

    E não, não vi o filme, que é de 1962, com o Gregory Peck! Quer dizer, se o vi, era ainda muito criança e não me lembro... ;)

    Boas leituras para ti!

    ResponderEliminar
  26. O marcador dos lacinhos côderosa está muito bem guardadinho, obrigada, MARIA! =))

    Como disse o livro tem uma prosa muito poética e lê-se bem - falta-lhe é enredo! O do Nuno Camarneiro, para não haver confusão. ;)

    Quanto a mencionarem este livro em "As Serviçais" é natural, porque o tema é o mesmo e a época também! :D

    A tua madrinha fala com os sufixozinhos?! Eheheh! :))

    Beijocas!

    ResponderEliminar
  27. Olá Teté
    Depois de ler muitos dos posts em atraso, os textos do seu desafio- onde gostaria de ter participado, porque teria sido uma oportunidade para eu também encontrar uma razão- ancorei neste para deixar o meu comentário de boas vindas.
    Creio que há tempos já escrevi sobre este livro que li ainda em miúdo e que adorei. Tanto, que uns tempos mais tarde fui ver o filme e continuei a preferir o livro. Foi um dos livros que realmente me marcou na juventude.
    Resta-me dizer que já sentia saudades de passar por aqui e a visita que comecei a fazer aos blogs amigos está a ajudar-me a ultrapassar a tristeza que sinto pelo regresso.
    Até amanhã!

    ResponderEliminar
  28. Há anos que andava com a ideia de ler o livro, mas não o encontrava à venda, CARLOS BARBOSA DE OLIVEIRA! Muito bom, mesmo, e em qualquer idade! :))

    Foi pena não estar cá para o desafio, mas talvez esteja num próximo, quem sabe? :D

    Bom regresso a casa, apesar dessa tristeza! :)

    ResponderEliminar
  29. Um livro extraordinário, de facto...

    http://numadeletra.com/13274.html

    Cumprimentos,

    Numa de Letra

    ResponderEliminar
  30. Bem-vind@, NUMA DE LETRA! :)))

    É mesmo! :D

    Cumprimentos!

    ResponderEliminar
  31. Anónimo5/21/2013

    Este comentário foi removido por um administrador do blogue.

    ResponderEliminar

Sorri! Estás a ser filmad@ e lid@ atentamente... :)