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segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

UMA QUESTÃO DE CLASSE

Mais uma sessão do Clube de Leitura, desta vez com o último livro de Joanne Harris publicado em Portugal: "Uma questão de honra".

A história decorre no tradicional colégio de St. Oswald, onde um novo diretor e a sua equipa preparam mudanças que, para alguns professores da velha guarda, são demasiado radicais: admissão de raparigas, novas tecnologias, reduzir o tempo de aulas, como o Latim, e conceitos de psicologia mais modernos. Um dos professores que não está nada agradado com estes novos ventos é precisamente o velho professor de Latim, Roy Straitley, que vê a sua posição b sempre contestada por esta nova equipa, liderada por Johnny Harrington, um ex-aluno seu em 1981, com o qual embirrava particularmente, pois passava a vida a fazer queixinhas aos pais (e estes à escola). O pior é que está toda a gente fascinada pelo diretor, só Straitley parece saber ler o que lhe vai na mente mesquinha. E desconfia que não é nada de bom: "Mas as pessoas raramente mudam nos aspecto essenciais, apenas na crescente sofisticação dos seus vários disfarces."

Pessoalmente, adorei o livro, Como escrevia uma das minhas companheiras, tem uma grande reviravolta a meio com piada, o ambiente do colégio está muito bem caracterizado nas diversas fases, a personagem do velho professor  está bem caçada, as mudanças temporais exigem que se tenha alguma atenção, para não nos confundirmos. Como aconteceu com outra das nossas companheiras, que ainda não o acabou, mas diz não estar a gostar - a meio da discussão percebemos que não estava a perceber patavina do que estava a ler. Mas também quem é que se lembra de ir ler um livro destes, em simultâneo com outros dois, um deles o último da Ferrante em inglês?!? Não foi a única, outra também considerou o livro um pouco confuso. Mas pronto, no geral a malta gostou. Eu aproveitei para encomendar o livro anterior (outra história, que se passa no mesmo colégio, imagino que apenas com a personagem principal do professor), que estava em promoção na FNAC...

E sim, trata-se de uma fase muito diferente da de "Chocolate", de "Sapatos de Rebuçado" ou de "Cinco Quartos de Laranja". Aí todas concordámos! Mas se ela escrevesse sempre a mesma coisa, qual era a graça?

CITAÇÕES:
"[...] comportamentos que lhes teriam merecido uma repreensão, um castigo ou até uma régua naquele tempo, foram agora identificados como sinais de dificuldades de aprendizagem, hiperatividade, dislexia ou Deficit de Atenção (aquilo a que nós, nos velhos tempos menos compreensivos, chamávamos Falta de Atenção) todas as condições que exigem um tratamento sensível em vez de um chuto no rabo. " (pág. 51)

"Ele vê a aproximação da reforma com o entusiasmo desenfreado do capitão do Titanic quando avistou o icebergue pela primeira vez." (pág. 376)

"A história - disse - não é mais que a versão contada pelo lado que tem melhores registos. São os vencedores que escrevem os livros de história. Os vitoriosos pintam a verdade." (pág. 479)

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A próxima reunião terá lugar no dia 25  de Março, com o título "Deixei-te ir", de Clare Mackintosh.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

O ÚLTIMO ADEUS

Pelo relvado e restante enquadramento dá para ver que este livro não foi lido recentemente, mas nas férias de verão. Como era para ser discutido em sede de Clube de Leitura, como realmente aconteceu em Outubro, fiquei a aguardar a opinião das minhas parceiras, para não vos levar ao engano com o meu arrebatamento por Kate Morton.

Tanto tempo volvido sobre a leitura e a discussão, obviamente falham-me alguns pormenores, mas não serão certamente os mais relevantes. Tal como é costume da escritora, o livro está dividido em capítulos, mais ou menos intercalados, de 3 épocas diferentes: uma primeira à roda de 1911/1914: uma segunda no Verão de 1933; e a terceira e última em 2003, quase sempre entre a Cornualha e Londres.

Portanto, pode dizer-se que não existe uma mas duas tramas, que estão interligadas, constituindo aquela primeira parte uma espécie de explicação do que está para vir. Assim, é durante a festa do solstício de Verão de 1933, que a família Edevane costuma dar na sua casa de Loeanneth, na Cornualha, que o inesperado acontece - o filho mais novo do casal, Theo, de apenas onze meses, é raptado; algumas horas depois é encontrado o corpo de Llewellyn, um velho amigo da família e que com eles reside, sem que se percebam os motivos que levaram à sua morte.

Setenta anos volvidos, Sadie Sparrow, investigadora da Scotland Yard, visita o seu avô Bertie na Cornualha, quando é afastada de um caso que tinha em mãos e, por acaso, dá com a velha e desabitada casa de Loeanneth, e rapidamente se interessa sobre o que outrora lá se passou. Ao pôr-se  em campo, parece-lhe urgente entrar em contacto com os elementos da família que ainda estão vivos: Alice  e Deborah, duas das três irmãs mais velhas do rapazinho desaparecido. E a investigação começa...

Todas as participantes do Clube de Leitura gostaram deste romance cheio de segredos e mistérios, embora a algumas tenha desagradado a "conveniente" coincidência final. Nem por isso deixa de ser uma daquelas escritoras que nos "agarra" da primeira à última página. E atenção que aqui são 615!

Citações:
"Dou por mim a discutir com a televisão. Pior, tenho a forte desconfiança de que estou a perder."

"Em tempos,o pai dissera-lhe que os pobres podiam sofrer de pobreza, mas os ricos tinham de se debater com a inutilidade e não havia nada pior que o ócio para corroer a alma de uma pessoa."

"Estar debaixo de um tecto, com a esperança de estar quente e seca dentro em breve, enquanto a chuva caía lá fora, era uma esplêndida e simples felicidade."


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A próxima reunião ainda não tem data propriamente marcada, mas será em Janeiro, com o livro "Uma questão de classe", de Joanne Harris.

segunda-feira, 18 de julho de 2016

O ASSASSÍNIO DE CINDERELA

"Sob suspeita" é um programa televisivo produzido por Laurie Moran, que recria crimes por resolver no intuito de os solucionar. Assim, 20 anos depois, o misterioso homicídio da estudante universitária Susan Dempsey reúne todos os ingredientes para ser um sucesso, tanto mais que os principais suspeitos a serem entrevistados pertencem agora à elite hollywoodesca e empresarial. Mas será que esta investigação televisiva não vai amedontrar o assassino e obrigá-lo a cometer novos crimes?

Este novo policial de Mary Higgins Clark, escrito em parceria com  Alafair Burke, não levantou grande polémica no Clube de Leitura: de leitura acessível, com motivações dos potenciais suspeitos suficientemente claras, a única discussão que suscitou foi se o final era previsível ou não, já que não tem uma grande reviravolta final. E aí as opiniões dividiram-se - mas não é sempre fácil dizer que se desconfiou desde o início do A ou do B? Pessoalmente, não considerei particularmente previsível. Por outro lado, sendo este o primeiro livro que li da escritora norte-americana de 88 anos, as suas 319 páginas não são propriamente geniais. Ou seja, uma leitura agradável q.b. para os leitores de policiais... mas só isso! 

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A próxima reunião do Clube de Leitura terá lugar no dia 17 de setembro, com o romance de Kate Morton "O Último Adeus".

domingo, 15 de maio de 2016

A AMIGA GENIAL

Elena Ferrante é o pseudónimo de uma escritora italiana que não revela a sua identidade, da qual se sabe apenas que viveu em Nápoles, onde possivelmente terá nascido por volta de 1943, e  na Grécia, e que escreveu recentemente a tetralogia de "A Amiga Genial" - leram bem, são quatro livros em que este é o primeiro volume, seguindo-se "História do Novo Nome", "História de Quem Vai e de Quem Fica" e "História da Menina Perdida".  

Curioso também é que uma das as duas personagens principais tem o nome de Elena, pelo que se especula se esta não será uma obra autobiográfica - o máximo que a escritora concorda em revelar é que  “As mulheres das minhas histórias são ecos de mulheres reais que, por causa do seu sofrimento ou da sua combatividade, influenciaram muito a minha imaginação: a minha mãe, uma amiga de infância, mulheres conhecidas cujas histórias eu sabia” (jornal "Público", de 30/01/2015)

Seja como for, esta história começa pelo final, quando Lila cumpre finalmente a vontade de desaparecer sem deixar rasto: tem agora 66 anos de idade! Isso motiva Elena, escritora conceituada, a escrever toda a história de como se conheceram na escola e se tornaram amigas deste essa tenra infância. Mas não só, relata também o dia a dia do bairro pobre da periferia onde elas habitam, das suas casas, das famílias, da escola, das querelas,  dos amores e desamores  de miúdos, adolescentes e graúdos, onde não falta até o homicídio do senhor Achille às mãos de um vizinho comunista radical. Este volume retrata apenas a infância e adolescência das duas raparigas, no período pós-guerra, pelo que temo que tenha de chegar ao final do 4º livro para descobrir que destino levou Lila. 

Enfim, houve unanimidade no Clube de Leitura, todas adorámos o livro. Pessoalmente, já me agarrei ao segundo volume... 

Citações:

"Ela, Nino e Marisa tinham a sorte de ter uns pais que levavam os filhos a fazer passeios até longe, não só meia dúzia de passos até aos jardins em frente da igreja. Os nossos não eram assim, faltava-lhes tempo, faltava-lhes dinheiro, faltava-lhes vontade. "

"Disse que não porque se o meu pai viesse a saber que eu tinha entrado naquele automóvel, embora fosse um homem bom e amável, e embora gostasse muito de mim,  matava-me com pancada imediatamente, e ao mesmo tempo os meus irmãozinhos, Peppe e Gianni, apesar de ainda serem pequenos, sentir-se-iam na obrigação, agora e no futuro, de tentar matar os irmãos Solara. Não havia regras escritas, sabia-se que era assim e pronto."

"Se não houver amor, não é só a vida das pessoas que se torna árida, mas também a das cidades."

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A próxima sessão do Clube de Leitura terá lugar no dia 2 de julho deste ano, versando o livro "O Assassínio de Cinderela", de Mary Higgins Clark e Alafair Burke.

quinta-feira, 31 de março de 2016

A RAPARIGA DINAMARQUESA

Desiludam-se aqueles que pensam que vou falar do filme com o mesmo título: para ler o livro e não me deixar influenciar pela versão cinematrográfica, acabei por perder esta última. Enfim, é esperar que seja exibido na TV. Este foi o primeiro romance do americano David Ebershoff e conta-nos uma história vagamente baseada na vida de Einar Wegener (e da sua mulher, Greta), o primeiro homem a fazer cirurgias para mudar de sexo. Vagamente, porque o autor alerta que alguns factos são reais, mas tudo o que são pensamentos e diálogos entre o casal e os seus amigos são produto da sua imaginação, portanto ficção pura.

Como o livro foi lido no âmbito de Clube de Leitura, desta vez as opiniões foram bem discrepantes, tornando a discussão mais longa e aprazível - diga-se em abono da verdade que o tema dá pano para mangas. Assim, houve quem considerasse as primeiras páginas muito entediantes - a vida do casal entre 1925 e 1930 é a de um casal mais ou menos comum, que se dá bem, mas que não é dado a grandes excentricidades no dia a dia: pintam, trabalham, eventualmente vão a algumas exposições, mas no geral pode-se afirmar que não tem uma vida social muito activa. E mudam de casa, de Copenhada para Paris, fazendo férias em Menton.

Durante seis anos a transformação de Einar numa Lili cada vez mais presente fá-lo procurar ajuda médica, mas como se pode imaginar, naquele tempo nem a maioria dos médicos sabia como, de modo que as sugestões vão de uma ameaça de queixa às entidades policiais (era crime), a uma lobotomia e até à simplificação de que ele era homossexual. No entanto, é com a ajuda de Greta e do seu cunhado Carlisle que ele é incentivado a procurar solução para o seu problema...

Contudo, o romance não deixa de ser triste e um pouco deprimente, com a enorme vantagem que as suas 322 páginas estão muito bem escritas, conseguindo o autor uma abordagem sensata, discreta e equilibrada, sem cair na tentação da ordinarice ou brejeirice pura e simples.

Citações:

"Porquanto todo o incidente era de tal forma extraordinário que toda a academia teve de pestanejar em uníssono, até ao último membro, fosse ou não artista, abanando ligeiramente a cabeça coletiva."

"Quando se olhava ao espelho via uma ruga ténue e bela de cada lado da boca, duas rugas que a lembravm da entrada de uma gruta - era um pouco exagerado, sabia, mas ainda assim era disso que se lembrava."

"Lili recordava-se dessa sensação, ter de engolir os pensamentos e os sentimentos e guardá-los para ninguém."

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A próxima sessão do Clube de Leitura terá lugar a 14 de maio, desta vez com o livro "A Amiga Genial", de Elena Ferrante.

domingo, 20 de setembro de 2015

O CENTENÁRIO QUE FUGIU PELA JANELA E DESAPARECEU

É óbvio que os livros não se vendem pelas capas, mas também me parece lógico que algumas capas não suscitem o mínimo interesse do comprador desinformado do conteúdo. Será o caso desta, no entender da maior parte dos membros do Clube de Leitura.

Que um centenário internado num lar fuja pela janela, até pode ser invulgar, mas certamente já terá passado pela cabeça de muitos, mesmo que só octo ou nonagenários. Que depois desapareça sem (quase) deixar rasto, é que é mais difícil. Mas os leitores deste livro são uns privilegiados: não só ficam a par das peripécias da fuga de Allan Karlson (o homem que fazia cem anos no dia em que se escapuliu pela janela), como o escritor vai intercalando episódios marcantes da sua vida, que por sinal também coincidiram com momentos importantes da História do século XX e respetivas personagens - Estaline, Mao, Churchill, Franco, Truman, entre outros, são algumas das que perpassam ao longo destas 364 páginas, como conhecimentos esporádicos do protagonista e que, de alguma forma, influenciaram o rumo dele (e da humanidade). E agora, já centenário, alguém acredita que conheceu todos esses figurões do passado, ainda por cima quando ele próprio detesta conversas sobre política ou religião? Pois!

Vagamente a lembrar Forrest Gump, que por acaso encontra todos os presidentes dos EUA, com a diferença que o Allan Karlson não tem nada de tolo...

Numa sessão que reuniu todos os membros do Clube, que não sei porquê começou com a nota sobre a infeliz capa - maioritariamente apelidada de "berucha" - praticamente não houve discussão sobre o enredo elaborado pelo sueco Jonas Jonasson, unanimemente considerado divertido, surpreendente, delirante, absurdo e hilariante. Uma leitura a não perder, portanto!

Citações:

"Disse para consigo que fizera mal em pensar em morrer quando ainda estava sentado na cama do Lar. Porque, mesmo atacado pelo reumatismo, era muito mais divertido andar fugido, longe da irmã Alice, do que ficar deitado e quieto debaixo de seis palmos de terra."

"O grande líder era inteligente, culto, era bom dançarino e até tinha uma bela voz - mas era completamente doido! Só porque Allan tivera a infelicidade de citar o poeta errado, um jantar ameno tinha-se transformado numa verdadeira catástrofe."

"[...] muitos indivíduos de origem chinesa tinham sido simplesmente expulsos da Indonésia com a etiqueta de comunistas, e tinham precisado de se refugiar na China, onde de imediato eram tratados como capitalistas."

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A próxima reunião do Clube de Leitura foi agendada para dia 22 de novembro de 2015, com o romance "Quando o Diabo Reza", de Mário de Carvalho.

segunda-feira, 13 de julho de 2015

STONER

Antes de escrever o que quer que seja sobre este livro, quero agradecer desde já ao Carlos Barbosa de Oliveira e à Cat (amiga pessoal e do Clube de Leitura) pelo aviso insistente para o ler, pois estavam certos que iria gostar. Tinham razão: amei!

O que é que faz que um livro escrito em 1965 passe completamente despercebido durante cinco décadas e depois se torne num sucesso mundial? Mistério! Uma editora americana resolveu fazer uma segunda edição do livro de John Williams em 2006 e a romancista francesa Anna Gavalda leu, elogiou e traduziu o livro. Em 2013, foi considerado um dos maiores romances americanos de todos os tempos...

William Stoner nasceu no seio de uma família de pobres agricultores e durante toda a sua infância não sonhou vir a ser mais do que o seu pai. Contudo, é este que o convence a ir tirar um curso de agronomia, já que o jovem é bom aluno, além de trabalhador. E ele vai para a universidade de Columbia, trabalhando como um escravo na lavoura de uns parentes que aí residem para se sustentar, enquanto tira o curso. Mas eis que o seu plano sofre um volte-face e ele apaixona-se pela literatura inglesa, acabando por se tornar professor universitário da disciplina. No entanto, tudo o que acontece na sua vida parece alheio à sua vontade, como se fosse uma fatalidade. Ele é um homem solitário e triste, preso nas convenções sociais de uma época e incapaz de se libertar das amarras que o prendem - exceto através dos livros (e das aulas), que funcionam como uma espécie de lenitivo para todas as suas amarguras. E são várias, porque mesmo sendo ele um homem ensimesmado e pacato, suscita ódios destemperados...

MUITO BOM! E, para quem não leu, pode ler a opinião do Carlos Barbosa de Oliveira aqui.

Citações:

"Quando pensara na morte, antes, pensara nela ou como um acontecimento literário ou como o lento e silencioso desgaste do tempo na carne imperfeita. Não pensara nela como a explosão da violência num campo de batalha, como o jorro de sangue de uma garganta perfurada."

"Esse amor à literatura, à língua, aos mistérios da mente e do coração que se revelavam nas ínfimas, estranhas e inesperadas combinações de letras e palavras, na tinta mais negra e fria... esse amor que escondera como se fosse ilícito e perigoso começou então ele a mostrar, hesitantemente a princípio e depois com ousadia e, por fim, com orgulho."

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O último Clube de Leitura mais não foi que uma caracolada, já que nenhuma das participantes presentes tinha lido o livro até ao fim: algumas, como eu, mal tinham começado. No entanto, a opinião geral de quem leu mais do que meia dúzia de páginas é que o livro não cativa o leitor, pelo que se torna desinteressante, para não dizer aborrecido - não basta ser Nobel da literatura para o interesse das páginas redobrar...

A próxima sessão terá lugar no dia 18 de setembro, desta vez com o livro "O centenário que fugiu pela janela e desapareceu", do sueco Jonas Jonasson. Esperemos que a leitura deste seja mais aprazível para todas!

segunda-feira, 20 de abril de 2015

GALVEIAS

Esta reunião do Clube de Leitura teve a sua originalidade: parecia mais um encontro gastronómico do que propriamente a discussão de um livro. Passo a explicar - a dona da casa onde nos reunimos, entusiasmada com a leitura onde por vezes o autor refere a culinária alentejana, sendo também ela alentejana de gema, vai de cozinhar umas migas com entrecosto pró "lanchinho", onde também não faltaram os queijos e os enchidos, para lá de vários doces e petiscos. Bom, mas enquanto saboreávamos a deliciosa refeição "ajantarada", acabámos por concordar que José Luís Peixoto faz aqui uma extraordinária homenagem à sua terra (Galveias, como o título do livro indica) e suas gentes. 

De algum modo fez-me lembrar Manuel da Fonseca, no livro de contos lido recentemente. A estrutura em contos ou capítulos difere, mas o todo de personagens e das suas histórias, do modo como se entrecruzam e derivam, não. O que difere realmente é a época, já que a ação de "Galveias" decorre entre janeiro e setembro de 1984, enquanto "Aldeia Nova" foi escrito mais de 50 anos antes. Mesmo assim, e dadas as devidas diferenças históricas e culturais, há ali um je-ne-sais-quoi de mentalidade "local" que perdura ao longo dessas várias décadas... (e não, não li os dois livros de seguida, embora possa dar essa impressão, uma vez que não referi o Ken Follett e o Urbano Tavares Rodrigues que li de permeio!)

Para ser franca, também não havia muito a discutir, porque a maioria dos elementos do grupo adorou a leitura, bastou recapitular algumas passagens a que achámos mais piada. E concordar que a fotografia da capa do livro era genial. Mas também não se fala muito de boca cheia, né?

Citações:

"O frio e o silêncio existiam ao mesmo tempo e ocupavam o mesmo espaço. Não havia fronteira entre o frio e o silêncio. Às vezes, confundiam-se."

"Joaquim Janeiro apontou várias vezes para esse céu, quando contou a história da coisa sem nome. Ao descrever a noite em que a terra pareceu explodir por dentro, houve homens crescidos a taparem a cabeça com os braços, como se esse gesto os pudesse proteger de um semelhante azar. Os olhos da plateia cresceram com o susto. Mas não se pode temer o céu, é demasiado medo. O céu está sempre lá em cima. Quando se perde confiança na sua flutuação, também o medo passa a ser permanente. Então, ainda que o céu se mantenha, vive-se diariamente o pior da sua queda, até se desejar que caia mesmo para, por fim, acabar com essa dor."

"A porta da igreja Matriz estava aberta, à espera. As mulheres agradeceram o fresco das paredes grossas,do chão de pedra, da sombra e dos ecos do silêncio. A maior parte dos homens ficou na rua: falavam sobre miudezas, agarrados a cigarros ou a lenços com que limpavam o suor. O noivo e o padrinho entraram, claro. Mal pôs um pé na sacristia para dar aviso de chegada, João Paulo sentiu o bafo do padre: vinho tinto fermentado e halitose. O Catarino entrou logo depois e, juntos, assistiram à forma como o padre se emaranhou em si próprio, tentando enfiar a batina, mas sem acertar no buraco da cabeça."

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A próxima sessão do Clube de Leitura ficou marcada para dia 27 de junho, com o livro de Orhan Pamuk, "Neve".

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

EM PARTE INCERTA

Não vi o filme, que aliás só está indicado para o Oscar de melhor atriz (Rosamund Pike, no papel de Amy Dunne), mas o livro é, no mínimo, surpreendente e inquietante. 

Dividido em três partes, a primeira intitula-se "Rapaz perde rapariga" e é estruturado como páginas de diário em alternância: o casal Nick e Amy vai celebrar o seu 5º aniversário de casamento e essas primeiras páginas servem para nos dar conta do seu passado, por vezes a raiar a monotonia - ambos perderam o emprego e o cancro da mãe de Nick determina a mudança do casal de Nova Iorque para uma pequena cidade do Missouri, igualmente sem grandes oportunidades de trabalho. Até que no dia do 5º aniversário, Amy desaparece misteriosamente de sua casa, tudo levando a crer que sem ser por sua livre vontade: há sinais de luta, o ferro de engomar está ligado e a investigação policial revela que o chão da cozinha foi limpo, mas que foi lá derramado sangue de Amy. E nestas coisas, já se sabe, o principal suspeito é sempre o marido. No entanto, apesar de algumas incongruências, eventualmente resultantes de pontos de vista diferentes, somos levados a acreditar que o casal se dava bem. Tal como os pais de Amy afirmam perante a imprensa, sobre aquilo que puderam observar ao longo dos anos.

A segunda e a terceira parte seguem num crescendo, cada vez mais emocionante e elucidativo, mas o próprio leitor não quer acreditar que a escritora Gillian Flynn praticamente os enganou "à grande" na primeira parte. Isto porque também é difícil acreditar em tanta maldade, mesquinhez, espírito vingativo, egocentristo e manipulação, tudo dentro da maior disciplina e aparente simpatia. Será isto um(a) psicopata? Sem dúvida. Resumindo: 511 páginas, cujo final não se adivinha e que dificilmente satisfaz. O final, porque a partir de certa altura o livro torna-se absorvente, deixando o leitor numa dúvida (quase) permanente. E mais coisa menos coisa esta foi a opinião que todos os membros do Clube de Leitura tiveram na discussão. Unanimidade a 100% só em relação às capas (são duas) que todas achámos horrorosas. E é curioso que é raríssimo falarmos de capas...

Citações:
"A minha mãe sempre disse aos filhos: se estão prestes a fazer uma coisa, e querem saber se é má ideia, imaginem vê-la impressa em papel para toda a gente ver."

"Com a Internet, o Facebook, o Youtube, já não há júris imparciais. Adeus tábua rasa. Oitenta ou noventa por cento de um caso é decidido antes de entrar na sala de audiências."

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A próxima sessão do Clube foi agendada para dia 11 de Abril, desta vez com o último livro do escritor português José Luís Peixoto, "Galveias".

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

O JOGO DE RIPPER

Não li muitos livros de Isabel Allende: os dois autobiográficos, "A Casa dos Espíritos" e agora este, para o Clube de Leitura. Em contrapartida, as minhas companheiras habituais destas "tertúlias" leram quase tudo o que a escritora escreveu e costumam ser fãs.

Desta vez, Isabel Allende mimoseia os seus leitores com um enredo policial. Um género geralmente mal visto na literatura, como uma espécie de 2ª categoria - só um pouco melhor do que os livros de cordel. Teoricamente, até mais fácil de escrever, pois há sempre um crime, uma investigação e, por fim, um desenlace.

Mas mesmo antes de vos falar do enredo em si - o que vou fazer o mais sucintamente possível - posso afirmar que todas as participantes foram unânimes: ninguém gostou!

Nos dias que correm, não é de estranhar que uma jovem de 17 anos passe parte dos seus tempos livres agarrada ao computador e a um jogo online, com amigos virtuais (e o avô). E, se calhar, nem muito original que o fito do jogo seja descobrirem  os criminosos que perpetraram assassínios reais e atuais. Agora completamente inverosímil é que o pai da rapariga, o inspetor encarregue das investigações, lhe(s) passe todas as informações que possui, incluindo relatórios e autópsias. Quer dizer, nem na América, nem no país mais sarrabeco do terceiro mundo! 

Enfim, quando um policial parte de uma premissa estapafúrdia, não há muita volta a dar ao texto, por mais linda e vaporosa que seja Indiana, a terapeuta holística (?!?) mãe de Amanda, a jovem inteligentérrima que desvenda os casos rebuscados, quase sem levantar o rabo da cadeira... 

Citação:

"«Ninguém fica rico a trabalhar», respondeu-lhe, divertido, e deu-lhe uma aula sobre a distribuição da riqueza e de como as leis e as religiões se encarregavam de proteger os bens e privilégios dos que possuíam mais, em detrimento dos pobres, para concluir que o sistema era de uma injustiça descomunal, mas por sorte ele pertencia aos grupo dos afortunados."

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A próxima sessão ficou marcada para dia 8 de fevereiro, com o livro "Em Parte Incerta", de Gillian Flynn.

quarta-feira, 16 de julho de 2014

MAL NASCER

Mais uma sessão do Clube de Leitura que, embora com pouco quórum, obteve unanimidade: o romance de Carlos Campaniço, finalista do prémio Leya 2013, foi do agrado de todas.

O Portugal rural do início do século XIX, as invasões francesas e o reinado miguelista servem de pano de fundo ao enredo, enquanto descobrimos a infeliz infância de Santiago Bento. Órfão de pai, a vida do rapaz e da mãe torna-se num inferno, quando esta é obrigada a casar com um feitor beberrão e violento, pelo juiz e presidente da câmara Albano Chagas e sua mulher, que simultaneamente são donos de todas aquelas terras. Mas como a vida dá muita volta, o pequeno acaba por ser recolhido por um médico, que o encontra abandonado nas ruas de Lisboa e, apegando-se ao jovem, financia-lhe os estudos de medicina. Santiago recebe assim o apelido Barcelos, mas ao apoiar D. Pedro acaba por aceitar o cargo de médico na sua terra natal, no intuito de despistar os miguelistas que o perseguem. Contudo, pretende também vingar-se de todos aqueles que o fizeram sofrer, separando-o da mãe que tanto amava e não viu morrer. Mas, para seu espanto, ninguém reconhece no jovem médico o infeliz menino de outrora...

191 páginas que nos transportam para um período negro desse Portugal de outras eras, onde a fome, a miséria e a injustiça estavam reservadas para os mais desfavorecidos - só as epidemias não olhavam a classes sociais para atacar. Curiosamente, um pano de fundo que não é muito habitual em romances, mas em "Mal Nascer"  quase sentimos a dura realidade daquele povo, quando já se adivinhava pela frente uma sangrenta guerra civil. 

Citações:
"Em Lisboa, nunca senti com afecto uma rua que fosse; nunca descansei, num jardim, uma hora à tardinha, sentado com o ócio dos que amam a terra onde põem os pés; nunca disse, minha terra; nem lhe chamei minha casa; e tampouco bebi o sal de uma lágrima na hora da despedida."

"Morreu muita gente desde que abalei da terra, muitos morrem novos, embora se façam mais criaturas do que aquelas que fenecem, pois que, da mesma maneira, não se sabe por aqui como parar a vida de umas e a ida de outras. Feitas as contas, ainda assim, está-se vendo a vila a alargar de gente."

"Se eu fosse Deus só morria gente má, Vitórios e Albanos Chagas, e outros assim. Mas ele não, com a desculpa que quer os bons a seu lado, está esta terra cheia de diabos e encurta a vida dos que não mereciam morrer."

A próxima sessão do Clube de Leitura foi agendada para Setembro, com o livro de Isabel Allende "O Jogo de Ripper".

domingo, 18 de maio de 2014

AS CIDADES INVISÍVEIS

Mais uma reunião do Clube de Leitura, que desta vez esteve longe de reunir unanimidade: o que se compreende, já que se trata de um livro que não o é exatamente, mas antes um conjunto de descrições de cidades que Marco Polo faz ao imperador Kublai Kan, ficando este na dúvida se serão lugares reais ou fruto da imaginação do mercador.

Cada capítulo revela sucintamente as características de cada cidade, no capítulo seguinte já se fala de outra, de permeio algumas "conversas" entre o imperador e Marco Polo - entre aspas porque, pelo menos de início, ambos falavam línguas diferentes e entendiam-se por gestos e por alguns objetos que este último trazia das suas viagens.

174 páginas que para algumas são quase poéticas e uma fonte de inspiração, um grandioso tédio para a maioria, havendo até quem decidisse não acabar a leitura. Por acaso não foi o meu caso, li o livro até ao final. Mas não gostei e considerei que tinha uma dificuldade acrescida: utiliza muitas palavras fora do comum, o que ainda lhe confere aquela "aura" de livro só para inteletuais de élite. Ainda fui sublinhando a lápis algumas delas, para posteriormente verificar no dicionário, mas às tantas desisti da ideia: quero lá saber o que é uma fonte de pórfiro ou uma cúpula cuspidada (eheheh, até no corretor dá erro). 

Ah, claro, escusado será dizer que o enredo não passa disto e história não há nenhuma. Tanto que nos habituais elogios de contracapa alguém sugere que as suas páginas podem ser lidas em ziguezague, o que realmente é verdade! Quanto ao autor parece que tem outros livros com pés e cabeça (e se bem que, para já, ficasse sem grande vontade de o voltar a ler), de modo que a próxima obra dele será escolhida com bastante mais atenção... 

Citação:
"A cidade para quem passa sem entrar nela é uma, e outra para quem é tomado por ela e já não sai; uma é a cidade a que se chega pela primeira vez, e outra a que se deixa para nunca mais voltar; cada uma delas merece um nome diferente."

A próxima sessão do Clube de Leitura terá lugar a 12 de Julho, com o livro "Mal Nascer", de Carlos Campaniço.

domingo, 23 de março de 2014

O VÉU PINTADO

O escritor e dramaturgo britânico Somerset Maugham escreveu este livro em 1925, tendo como base do enredo um adultério: Kitty, uma jovem bela e fútil é incentivada pela mãe a encontrar um pretendente rico, mas ao fim de meia dúzia de anos a tarefa mostra-se inglória; quando a sua irmã mais nova (e menos dotada fisicamente) fica noiva do filho de um baronete ela então decide casar-se com Walter Fane, o bacteriologista oficial de Hong Kong, que se apaixona por ela durante umas férias em Londres; depois de casada depressa descobre que o trabalho do marido não lhe dá grande status social e que ele é um homem demasiado sério para a convivência do casal ser divertida; por outro lado, o assédio constante de Charles Townsend, vice-governador local, acaba por a seduzir e Kitty apaixona-se perdidamente. Até ao dia em que o marido descobre o adultério e dá-lhe a escolher entre duas opções: ou o divórcio (que arrastará o nome dos amantes pela lama, já que Charles também é um homem casado) ou acompanhá-lo até Mei-tan-fu, na China, para onde foi destacado como médico e bacteriologista, para tentar acabar com uma epidemia de cólera que tem matado grande parte da população. E como Charles se recusa a abandonar a sua mulher e as suas ambições políticas de vir a chegar a governador, Kitty não tem outro remédio senão seguir o marido. Apavorada, evidentemente.

No entanto, para lá do triângulo amoroso, Maugham dá-nos a conhecer algumas facetas da vivência na China dos anos 20 do século passado, com usos e costumes que hoje nos parecem estranhos e distantes  -longas viagens em liteiras, conventos católicos encalhados no meio de montanhas inóspitas ou surtos de cólera que chacinam populações inteiras. Ou outras que ainda se verificam naquela parte do mundo, como meninas abandonadas à nascença pelos simples facto de nascerem do sexo feminino.

Os capítulos curtos, os diálogos contundentes e as descrições pitorescas mas não demasiado alongadas contribuíram para uma ausência de discussão no Clube de Leitura: 293 páginas que se leram com bastante prazer e longe de se encontrarem desatualizadas, apesar de terem sido escritas há quase um século. Muito bom!

Citações:

"E esse é o primeiro requisito para um homem entrar para o Governo. Eles não querem homens inteligentes; os homens inteligentes têm ideias e as ideias causam problemas; querem homens com charme e tacto e que lhes dêem a garantia de não virem a fazer nenhum disparate."

"Quando tudo durava tão pouco e nada tinha grande importância, era uma pena que as pessoas, dando um valor absurdo a objectos triviais, se fizessem a si próprias e aos outros tão infelizes."

A próxima sessão do Clube de Leitura será a 10 de maio, com o livro "As Cidades Invisíveis", de Italo Calvino.

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

TEIA DE CINZAS

A última sessão do Clube de Leitura não teve um grande quórum, dados outros compromissos das participantes habituais, mas em contrapartida teve unanimidade: todas gostámos deste "Teia de Cinzas", de Camilla Lackberg.

Um pescador encontra o corpo de uma menina no mar, supostamente afogada, e Patrick e a sua equipa são chamados a investigar o caso. Os pais da criança - que têm outro filho mais novo - vivem com a avó materna e o marido desta, que se encontra enfermo de cama. A família parece igual a tantas outras, mas uma antiga disputa de vizinhança, que está longe de acabar, faz a polícia suspeitar de uma vingança. Até porque após a autópsia se descobre que a menina de 10 anos morreu realmente afogada, mas em água doce.

Ao longo dos vários capítulos, e como vem sendo seu costume, Camilla narra uma outra história paralela, que só lá mais para diante descobrimos como se relaciona com o enredo principal. O final é inesperado, como (quase) sempre...

Citações:

"Hoje em dia parece que qualquer miúdo que não se sabe comportar é desculpado com uma maldita variante qualquer de DAMP. No meu tempo, esse tipo de comportamento fazia-nos ganhar um par de reguadas. Mas agora os miúdos têm de ser medicados e confortados por psicólogos e mimados. Não admira que a sociedade esteja a ir pelo cano abaixo."

"Em vez de inventarem idiotices, as pessoas podiam ouvir o que ele tinha para dizer e aprender com ele. Afinal, aquilo vinha tudo na Bíblia."

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

MORTALHA PARA UMA ENFERMEIRA

Calma, que é apenas o título de um policial! Que "herdei" recentemente de uma amiga da minha mãe, que se queria desfazer de uns quantos livros velhos... (será que há livros velhos?!?)

Normalmente esta não seria escolha para primeira leitura do ano - costumam ser escritores que gosto muito (desconhecia esta autora, até à data!) e/ou livros que me pareçam divertidos à partida. Para começar com o pé direito, que eu cá não sou supersticiosa, mas há questões que são ponto de honra! E, como tal, até já tinha decidido que Murakami iria ser o escritor que se seguiria.

Mas como o que tem de ser tem muita força (onde é que já ouvi isto?) e quase 600 páginas de livro não dão muito jeito para alancar de um lado para o outro, tomei a irrevogável decisão de começar por este mais maneirinho.

A primeira consideração a tecer sobre Phyllis Dorothy James - aqui divulgada como "a nova rainha do crime" - é que na verdade  é uma inglesa de 93 anos, cujas obras de ficção lhe valeram o título de baronesa James de Holland Park, sendo membro da Câmara dos Lordes. Ou seja, o desconhecimento era apenas meu, em Inglaterra é mais que suficientemente famosa: recebeu vários prémios literários e alguns dos seus policiais foram adaptados à televisão.

Quando uma estudante de enfermagem morre durante uma aula prática da Escola de Enfermagem do Hospital John Carpendar, suspeitou-se desde logo que tinha sido envenenada. A polícia local investiga, mas quando uma segunda aluna morre, o inspetor-chefe da Scotland Yard, Adam Dalgliesh, é chamado para desvendar o mistério da morte das jovens. Nada a apontar como enredo, portanto! Gostei e li rapidamente as 247 páginas escritas em 1971 (e que diferença de mentalidades se nota!), não obstante a letra minúscula.

Entretanto o Clube de Leitura vai retomar as suas sessões, a próxima está agendada para dia 15 de Fevereiro. Com o livro "Teias de Cinza", de Camilla Lackberg, que por sinal também já acabei de ler, mas sobre o qual só escreverei após a discussão com as minhas companheiras. 

Boas leituras para todos!

terça-feira, 22 de outubro de 2013

O ESTILETE ASSASSINO

Pois é, o livro já o li durante o verão, até para o emprestar a uma parceira do Clube de Leitura. Mas, dados os últimos acontecimentos, não compareci à reunião - pela primeira vez em mais de 6 anos. Sei no entanto que Alice Munro foi a escritora sugerida para uma próxima sessão, mas não me parece que uma contista propicie grande discussão...

Este título de Ken Follett liga o género policial ao de espionagem, já que a ação decorre durante a II Guerra Mundial. O enredo parte de um facto verídico: em 1944, as comunicações britânicas referiam um imenso exército "estacionado" a sul de Inglaterra. Tratava-se de um embuste, um cenário criado com tábuas e materiais velhos, de forma a enganar a força aérea alemã sobre o potencial bélico inglês e dar a falsa ideia que o ataque se daria em Pas de Calais e não na Normandia, como veio a acontecer a 6 de junho de 1944. A partir daí a história é de ficção, se bem que os líderes políticos e militares sejam identificados pelos seus nomes e características, para dar o devido enquadramento histórico ao enredo.

Henry Faber é o espião alemão que atua na zona de Londres, escapando sempre às malhas dos serviços de contra-espionagem britânicos, que nem suspeitam da sua existência. Utiliza vários disfarces e liquida sumariamente quem se interponha no seu caminho. E só quando 5 elementos de uma patrulha próxima da zona interdita é assassinada, o MI6 deteta a sua presença. E descobre que quatro anos matou a senhoria da casa onde estava alojado, disfarçando o crime como sexual. Começa a caça ao homem! Desconfiamos que o seguimento é ainda mais sangrento, quando ele mata outro militar e, já na posse de provas que podem dar outro rumo à guerra, vai parar a uma ilha onde apenas vivem quatro pessoas: um velho pastor, um ex-piloto da RAF que perdeu as pernas num acidente, Lisa, a mal amada mulher dele e o filho de ambos, apenas com 3 anos de idade. Aí a leitura ganha um ritmo alucinante, por vezes a suscitar a dúvida "porque é que uma ilha com uma localização tão importante como aquela  não tem lá um militarzinho para amostra?" Não é que o experiente espião germânico não o "limpasse" à mesma, mas pelo menos sempre dava ideia que as elites militares britânicas não eram "ingénuas" de todo...

Mesmo assim, um livro empolgante, ao longo das suas 383 páginas!

Citações:
"Os estrangeiros têm espiões: a Grã-Bretanha tem o Military Inteligence. Como se o eufemismo não fosse suficiente, a denominação foi abreviada para MI."

"Tom deitou chá forte em três canecas e juntou um cálice de uísque a cada uma. Os três homens sentaram-se e beberam-no em silêncio, David a fumar um cigarro e Tom o cachimbo, e Faber teve a certeza que os outros dois passavam muito tempo juntos desta maneira, a fumar, a aquecer as mãos e sem dizer nada." 

segunda-feira, 15 de julho de 2013

ENCONTROS E DESENCONTROS

 Num fim de semana cheio de encontros e de desencontros, por razões várias, o encontro do Clube de Leitura foi adiado de sábado à noite para domingo ao final da tarde (uma delas sendo uma viagem profissional a Angola de uma das participantes), tendo eu já agendado um almoço familiar para essa data. Por sinal muito aprazível, porque o desagradável são mesmo os desencontros... Mas almoço é almoço e final da tarde é final da tarde, embora deteste estes compromissos sociais de enfiada, foi a programação possível.

Não reli "Dom Casmurro", de Machado de Assis, até porque o emprestei logo de seguida e a leitura ainda era relativamente recente. E a discussão também foi mínima, fiquei com ideia que todas consideraram mais difícil do que eu entrar naquela escrita, com mais de um século de existência. Mas conversas à desgarrada não faltaram, da viagem a Angola até à "viajante" pretender saber o que se tinha passado por cá na comunicação presidencial. OK, ninguém foi de grande ajuda para a esclarecer, mas os palpites sucederam-se, desta vez também em torno de umas pratadas de caracóis. 

Foi assim que chegámos à conclusão que, na próxima sessão, preferíamos um livro um pouco mais atual e a escolha acabou por incidir em "O Estilete Assassino", de Ken Follett. Isto de ler ou reler clássicos tem os seus dias, nem sempre apetece. E também faz todo o sentido que a próxima reunião tenha sido marcada para dia 5 de outubro, para comemorar a República, naquele feriado que deixou de ser... (ou nem por isso?)

  
Imagem do facebook.

sábado, 22 de junho de 2013

A SALA DE JANTAR

Uma amiga do Clube de Leitura pertence a um grupo de teatro amador, denominado "Ilha d'Artes". Atualmente, a peça que exibem intitula-se "A Sala de Jantar", escrita pelo dramaturgo americano A. R. Gurney em 1982, e que fez sucesso em palcos de maior nomeada.

Fomos ver por amizade e simpatia - sem grandes expetativas - mas acabou por ser uma agradável surpresa! Uma enorme mesa de sala de jantar rodeada de cadeiras é praticamente o único cenário, onde se entrecruzam cenas do dia a dia de famílias de uma alta burguesia em extinção, onde não faltam criadas fiéis à beira da reforma, pais a repreenderem a linguagem, a postura e os sonhos dos filhos, avós ricaças que são alvo das pedinchices dos netos ou o marido que considera que a mulher não deve estudar na mesa que é uma antiguidade, reservada para as (escassas) visitas. 

O que me espantou ainda mais foi a atuação destes atores amadores, que não ficam em nada a dever aos profissionais. E a sua adaptabilidade aos espaços onde atuam, consoante a disponibilidade de auditórios ou pequenos teatros locais, que obviamente exigem alterações na encenação e novos ensaios, para exibições durante 3 dias ou coisa. Para depois passarem ao palco seguinte... 

Desculpem lá, se isto não é carolice e um grande amor ao teatro, não sei o que possa ser!

Imagem promocional do evento, do facebook do grupo.

domingo, 12 de maio de 2013

O PINTOR DEBAIXO DO LAVA-LOIÇAS

O livro tem apenas 170 páginas e muitos bonecos pelo meio. Olhos, muitos olhos, e mais uns quantos semelhantes ao da capa. Mas não se trata de um livro infanto-juvenil. A história em si baseia-se num facto real - a família do autor teve um pintor judeu escondido debaixo do lava-loiças durante meses, no decurso da II Guerra Mundial - mas a vida do pintor é ficcional.

Jozef Sors nasce numa grande casa do império Austro-Húngaro, filho do mordomo e de uma engomadeira, nos finais do século XIX. O proprietário da casa é Moller, um coronel do exército, que também tem um filho de tenra idade e logo decide contratar um precetor para tratar da educação de ambos, democraticamente. Ao contrário do que seria de esperar, os rapazes não se tornam amigos: Wilhelm é um leitor compulsivo, que considera que "a última página de um livro é a primeira do próximo", tal como os fumadores inveterados acendem um cigarro no outro; Jozef, por seu turno, é um desenhador frenético que, desde que aprendeu a pegar num lápis, não faz outra coisa senão desenhar em papéis, paredes, terra ou até em pensamentos; Havel Kopecky, o precetor, entende que o mais importante é ensinar-lhes filosofia desde cedo.

Um mordomo que não entende metáforas e abomina armas, um coronel sensível que por vezes enfeita o cabelo com flores, a menina Frantiska que mora na casa vizinha e que adora que lhe empurrem o baloiço enquanto concebe estranhas teorias, são algumas das personagens inverosímeis que influenciam o jovem Jozef, também ele atreito a elaborar uma teoria sobre "o problema da dispersão e a lei de Andronikos relativa à árvore de Dioscórides". Complicado? Nem por isso, já que adolescentes cheios de certezas teóricas nunca faltaram, nem faltarão. Até ao pintor se esconder debaixo do lava-loiças de um fotógrafo da Figueira da Foz, pois, só várias páginas depois e muitos anos volvidos...

O livro é muito imagético e recheado de metáforas, onde se sucedem frases sentenciosas e de uma certeza inabalável, para nos capítulos seguintes descobrirmos que, afinal, certezas e teorias também podem cair por terra, mesmo que já seja tarde para emendar o engano. Não se trata da defesa desta ou daquela "verdade", mas de sintética, ingénua e quase poeticamente traçar a linha dos pensamentos de um ser humano, à medida que cresce e evolui. Surrealista, também!

Curiosa também foi a discussão no Clube de Leitura: quatro adoraram, uma achou deprimente e outra considerou chato - esta, com piada, dizia que era como o mordomo, sem paciência para metáforas. Escusado será dizer que adorei este primeiro livro que li de Afonso Cruz e fiquei com vontade de ler mais... 

Citações:
"- Parece-me uma grande felicidade que, quando se olhe para o mundo, pareça sempre que é a primeira vez que o fazemos."

"As esquinas são propícias às cervejarias, pois parece que chamam clientes de um lado e do outro, fregueses perpendiculares que se cruzam a meio de uma cerveja." 

"- Somos mesmo esquisitos: a escuridão cega-nos e a luz também. Os olhos fechados deixam-nos sozinhos. Os olhos abertos mandam-nos para a prisão." 

"Só sobrevivemos numa corda muito fina estendida sobre um abismo. Todo o ser vivo é um equilibrista. Todo o ser vivo é um mau equilibrista. Acabará sempre por cair." 


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A próxima sessão do Clube de Leitura terá lugar a 12 de julho, com o livro "Dom Casmurro", de Machado de Assis.  Como já li, vou tentar ler "Memórias Póstumas de Brás Cubas" do mesmo autor.

domingo, 17 de março de 2013

O HIPNOTISTA

Ao contrário do que acontece nos livros de Agatha Christie, em que todas as personagens parecem normais (sendo Poirot a mais original, como ex-inspetor belga cheio de peculiaridades), os protagonistas deste policial são esquisitóides todos os dias: polícias, médicos, suspeitos, incorrem todos no mesmo mal, nunca se sabe para que lado estão virados, esquivos como poucos - fogem, mordem, vingam-se, matam, sem se perceber porquê.

O médico Erik Maria Bark desistiu de prosseguir as suas investigações no tratamento de doentes com traumas profundos através de hipnose, quando o seu método foi contestado e o seu nome desacreditado. Contudo, 10 anos depois, o comissário Joona Linna pede-lhe que volte a hipnotizar um jovem de 15 anos, o único sobrevivente ao ataque que a sua família sofreu - o pai, a mãe e a irmã de 5 anos foram brutalmente assassinados - pois acredita que a irmã mais velha do rapaz, a residir noutro local, também pode correr perigo de vida.

Erik tornou-se viciado em calmantes, a relação com a sua mulher está por um fio e quando a notícia da sua participação no caso transpira para os jornais, a evolução dos acontecimentos acelera a um ritmo vertiginoso: a sua casa é invadida por desconhecidos e o filho adolescente do casal, Benjamim, é raptado. Com a agravante do rapaz sofrer de uma doença hemofílica rara e necessitar de medicamentação atempada e adequada.

A dupla Lars Kepler - pseudónimo do casal Alexander Ahndoril e Alexandra Coelho Ahndoril, ela de origem portuguesa, como o nome indica - consegue um feito inusitado, à medida que se leem estas 560 páginas: um arrepio pegado do princípio ao fim, ao ponto de recearmos o que mais vai acontecer na seguinte. Medo, muito medo, mas sem dúvida um policial empolgante, para não dizer hipnotizante...

Opinião unânime e partilhada por todas, no Clube de Leitura.

Citações:
"[...] Incluo uma série de instruções ocultas nas minhas palavras e faço com que o paciente imagine lugares e situações simples, vou sugerindo um passeio imaginário, cada vez mais longe, até que a necessidade de controlar a situação quase deixa de existir. É um pouco como  quando se lê um livro tão emocionante que deixamos de ter consciência de que estamos sentados a ler."

"Quem me inveja? Quem me quer castigar, tirar tudo o que tenho, destruir a minha vida, a minha razão de viver? Quem poderia desejar acabar comigo?"

"Eram todos indivíduos com um denominador comum: tinham sofrido abusos traumáticos. Abusos esses que tinham causado uma tal devastação na sua mente que, para sobreviver, tiveram de os ocultar até de si próprios. Na realidade, nenhum deles sabia com exatidão o que lhes acontecera. Estavam apenas conscientes de que o seu terrível passado lhes arruinara as vidas presentes."

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O novo livro a ler no âmbito do Clube de Leitura será "O Pintor Debaixo do Lava-loiças", de Afonso Cruz, com discussão agendada para dia 11 de maio.