terça-feira, 23 de outubro de 2012

OS PROFETAS

Este romance decorre na época quinhentista, numa viagem que nos leva de Porto Santo a Machico, Évora e Lisboa dessas eras: durante 18 dias, Fernão e Filipa Nunes, tio e sobrinha, dizendo-se inspirados pelo Espírito Santo, declararam-se profetas e pregaram por todo Porto Santo, sendo idolatrados e seguidos pela população da ilha, independentemente da classe social de origem. A Igreja não tolerou tal afronta e, através do forte braço da Inquisição, julgou e condenou ambos pela heresia. Sumariamente e de forma exemplar - andrajosos, sujos e semi-nus foram expostos, amarrados a postes, frente à Sé de Évora, para que o povo local se encarregasse de os insultar e torturar com cuspidelas, pedras ou círios acesos a seus pés. Antes de seguirem para as masmorras e provável futura fogueira.

Com base nesses factos históricos verídicos, Alice Vieira constrói um romance em torno de Filipa Nunes (na primeira pessoa), que está longe de ser infantil ou juvenil. A rapariga é adolescente e paralítica há longos anos, quando o tio, recentemente regressado de longas viagens pelos mares, a consegue curar miraculosamente. E se aquele tio aventureiro já era o seu herói - em contraposição com a mãe queixosa e o outro tio padre e beato - que a ensinou a ler e escrever e a levou a passear quando ainda não conseguia andar, a partir desse momento segue-o leal e fielmente. Dos dias de pregação, até ao martírio em Évora. Mas, ao contrário de Fernão, e não sendo os únicos condenados às masmorras do Limoeiro, entre outros hereges, ladrões e assassinos amontoados numa carroça, a incúria dos guardas "a cheirarem a vinho" permite-lhe fugir e escapar de tal sorte. Aos 18 anos e a vadiar pelas ruas de Lisboa, crê que o seu fim está próximo, até que Brígida a encontra e acolhe na sua casa...

A imagética de Portugal na época da Inquisição é absolutamente avassaladora, a vida romanceada da protagonista parece-me um mero pretexto para evidenciar as injustiças cometidas por esses tribunais de inquisidores, aos quais denúncias invejosas ou vingativas bastavam para acusar e condenar à morte qualquer cidadão do reino de D. João III e de D. Sebastião. E que se prolongou durante outros reinados, mas desses já não reza o livro!   

Citações:

"Atentai no que vos digo e juro: há sempre uma altura em que até os loucos são levados a sério, se as suas palavras servirem para obscuros fins dos que estão no seu juízo perfeito."

"E pessoas sem medo são difíceis de escravizar."

"- Tem cuidado com o que andas para aí a dizer, rapariga! Quanto menos palavras saírem da nossa boca, melhor. Lembra-te sempre que nunca ninguém foi preso pelo que não disse!
Aí é que a minha mãe estava enganada.
 [...]
E eu só o percebi muitos anos mais tarde, nesta cidade de Lisboa onde agora escrevo, quando comecei a ver gente presa, condenada, torturada, queimada, morta, por tudo o que nunca tinha dito."

14 comentários:

  1. D.João III e seu irmão, o Cardeal que foi rei, assim como D.Sebastião erma beatos falsos e cínicos. E, já agora, os estrangeiros ficavam espantados com as superstições e a beatice que viam em Lisboa no reinado de D.João V, um dos piores reis que Portugal teve.

    O livro deve ser interessante, sim.

    Que o teu dia tenha luz.

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    1. Pois olha, SÃO, entre D. João III, D. Sebastião e D. João V, não tenho a certeza de qual foi pior - um trouxe a Inquisição, ou outro armou-se em herói e acabou mal e este último era um beato igual aos outros (se bem que ficou para sempre associado ao Aqueduto das Águas Livres, obra então de grande dimensão). Isto sem contar com o Cardeal. Quando se fala em monarquia, lembro-me muitas vezes destes reis que foram um triste exemplo a desbaratar as riquezas dos descobrimentos... Um mau rei não é melhor que um PR, com a diferença que fica lá de pedra e cal! ;)

      E sim, as crendices da época deviam ser mais que muitas, o livro também refere algumas... de passagem!

      Boa noite! :)

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  2. Li, em tempos, um livro infantil da Alice Vieira e algumas das suas crónicas.
    Fiquei com curiosidade de ler "Os Profetas", mas tenho que esperar até visitar o Porto, porque não posso estar sempre a pedir livros.

    Hoje tive serviço na biblioteca e trouxe 3 livros:

    "Winter of the World" de Ken Follett

    "Sing You Home" de Jodi Picoult

    "El cuaderno de Maya" de Isabel Allende

    Conheces, ou antes, já leste algum destes romances?

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    1. Costumo ler as crónicas de Alice Vieira, li alguns (poucos) dos seus livros juvenis - já era crescidinha quando ela começou a escrever para crianças e jovens... Mas este é para adultos. E, para ser franca, não é dos meus preferidos: o tema em si é um bocado místico e deprimente!

      Quanto a esses livros, não li nenhum. No ano passado li um de Ken Follett e gostei bastante, mas ainda não calhou ler mais nenhum. Jodi Picoult vai ser lida para o próximo clube de leitura (nunca li nada da autora), mas o livro é outro. De Isabel Allende li os dois livros mais ou menos autobiográficos - "Paula" e "A Soma dos Dias". Desta por acaso tenho um livro em stand by na estante, mas também não é esse... ;)

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    2. Respondi ao teu comentário sobre o filme "Gainsbourg – O Homem que Amava as Mulheres", e como sempre, um testamento.

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    3. Já li, EMATEJOCA! :)

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  3. Este vou apontá-lo para aconselhar a alguns alunos leitores.:))

    Obrigada pela fantástica sinopse!:)
    beijinhos

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    1. Desde que os alunos não sejam muito novinhos, porque embora a escritora escreva de forma leve, o tema é um bocado pesado, NINA... ;)

      Beijocas!

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  4. Pela sinopse parece bem interessante.
    Um abraço

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    1. Especialmente para quem se interessa pela História, ELVIRA! :)

      Uma abraço

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  5. Um livro cuja temática passa além fronteiras, portanto... Pelo que se ficou a saber hoje, a Inquisição está muito actuante em Itália.

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    1. Não estava a ver onde a Inquisição atuou em Itália, mas com um clique cheguei à crónica publicada no Expresso, Carlos! Com a qual concordo a 100%, escusado será dizer... :)

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  6. Alice Vieira esteve aqui, creio que no ano passado, na Gladstone Library. Não tive oportunidade de assistir ao lançamento do seu livro (não me recordo neste momento o título) porque tomei conhecimento do evento poucas horas depois de já ter terminado. Tive muita pena.

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    1. Foi pena, porque ela é mesmo muito simpática e uma boa comunicadora, CATARINA! Mas a maior parte dos seus livros são juvenis (não é o caso deste), portanto se calhar nem te interessava por aí além. Embora eu tenha lido alguns desses juvenis, que gostei francamente! :)

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Sorri! Estás a ser filmad@ e lid@ atentamente... :)