quarta-feira, 30 de maio de 2012

DESVENTURAS EM CABELEIREIROS?

O homem era alto, grande, gordo e careca, possuía uma voz tonitruante e dava pelo pomposo nome de Augusto. Era o dono do cabeleireiro de bairro mais fashion da zona, naquela época. A mulher era manicure e a filha de ambos deambulava habitualmente pelo salão, sendo unanimemente considerada por toda a clientela como a menina mais prendada de Lisboa e arredores. A rapariga era feia que nem um trovão e desde pequena que se interessava por crochet, tricot, costura e bordados, aos 10 anos já ensinava algumas madames a fazer uns pontos mais complicados. Uma pespineta chata de nariz empinado, talvez devido à sua "fama", mas, pensando mais friamente no caso, a miúda tinha de se entreter com qualquer coisa...

A verdadeira "pérola" do salão era a cabeleireira ajudante (que de ajudante não tinha nada, mas pronto!), que era o oposto da família: mais nova que os patrões, era elegante, gentil e bonitinha, tinha uma fala dócil e meiga com as clientes. Constava que estava lá há muitos anos, que começara novinha a lavar cabeças e aos poucos se tornara numa profissional. Senão encartada, pelo menos devido à experiência. Certo é que, por essa altura, já muitas senhoras preferiam a Amélia ao Augusto, cujos penteados e cortes saiam todos iguais - curtinhos e muito ripados, ao estilo de capacete!

Como crianças íamos lá pouco, à exceção de acompanharmos a nossa mãe ou avó. E esta quase deixou de lá ir, quando o dito homem inventou de lhe pôr um plix no cabelo, supostamente para se manter estático durante mais tempo, para lá da laca. O plix era de uma tonalidade roxa, o cabelo grisalho saiu de lá lilás. O que só piorou com o período de férias à beira-mar que se seguiu...

Entretanto, eu e a minha irmã já tínhamos sofrido (no cabelo, não na pele) uma experiência avassaladora: não sei porquê, os meus pais acharam que nos deviam cortar as franjas, em casa. Quer dizer, imagino o porquê, mas agora não interessa nada denunciar a sovinice! A minha mãe estava hesitante, que nós mexíamo-nos muito e tal e lá aparece o meu  pai, disposto a  dar utilização à tesoura. Com o espírito "científico" que o caracterizava até nestes pequenos pormenores, considerou que a tarefa sairia facilitada com uma folha de linhas em frente à nossa cara, que aí bastava cortar a direito pela linha. Confiantes e incautas, até lhe fornecemos a folha, retirada de um dos nossos cadernos. Não sei ao certo o que é que correu mal com a primeira cobaia (a minha irmã), se ela se mexeu ou se ele errou na linha! Lembram-se da Beatriz Costa? Pois, a dela ficou mais à Santo António! Claro que depois de ver o resultado já não queria que me cortassem franja nenhuma, mas naquele tempo as crianças não tinham voto na matéria. A minha não acabou tão curta, mas também não pude rir muito - não escapou a um ziguezague, que até o Augusto fazia melhor.

A última vez que visitei o tal salão de bairro, a indignação fervilhava em todas as conversas: a Amélia, aquela ingrata, tinha casado e abandonado a profissão. Os ex-patrões e a idiota da filha (cada vez mais mandona na coitada da rapariga que lavava as cabeças) não se calavam com tamanha ingratidão e a clientela anuía e concordava. Francamente, nem sei se por ironia. "Vai-se arrepender!" ou "Tinha aqui um belo futuro!", vaticinavam. A minha mãe lá estava, calada, até que disse ao Augusto, quando ele se preparava para me cortar a farta cabeleira, neste estado de exaltação: "corte à rapaz!" Garanto que foi um trauma que me ficou para a vida inteira... Não voltei àquele cabeleireiro, nem nunca mais admiti palpites da minha mãe sobre o assunto!

Imagem da net.      

30 comentários:

  1. Anónimo5/30/2012

    Lembraste-me duas situações.:)

    3 meses num lar de freiras, para evitar a chatice dos transportes, fui adotada como filha por uma delas, passando o seu tempo a pentear-me. O meu cabelo à caniche não dava tréguas, mas ela gostava tanto de mim que não se importava nem um pouco com a trabalheira que dava domar uma cabeleira assim. Ora, um dia, a coisa correu mal e fui para a escola de cabelo à boneca de porcelana e uma franja muito enrolada para dentro. Foi risota total! Acabei por só lá estar 3 meses, porque o tempo que gastava a ir para a escola, no outro lado da vila, era, afinal o que gastava em transportes. Livrei-me da missa, dos terços e da cabeleireira, embora a recorde com carinho.:)
    E depois lembrei-me do fatídico dia em que fiz um rabo de cavalo e os piolhos caíam pelas costas...literalmente. Com a minha mãe na França, a avó na aldeia e eu num colégio, a solução foi o corte à rapazinho. Lágrimas houve à farta, enquanto o cabelo caía pelo chão...mas livrei-me dos piolhos e não me recordo de os ter voltado a ter. (no verão, levávamos piolhos à farta para terras de Napoleão. A minha mãe tinha uma trabalheira!:))

    (vou-me lá acordar o rapaz com a Maria Carlota:))
    beijinhos
    Nina

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  2. Lembrei-me do meu barbeiro no Barreiro, o Sr. Valdemar. Sempre que de lá saía, a primeira coisa que fazia era desmanchar o risco irritante que me fazia no cabelo, onde metade ficava uns cinco centímetros mais alta do que a outra. Até que um dia ganhei coragem e disse que queria mudar o penteado. Deu-me uma revista para eu escolher, indiquei um e meteu mãos à obra. Quinze minutos depois estava a caminho de casa, a desmanchar o risco de sempre... Beijocas!

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  3. eu sempre tive sorte com os cortadores de cabelo!
    primeiro era um barbeiro que me dava rebuçados para eu não adormecer na cadeira e manter a cabeça quieta e de há 20 anos para cá é a minha irmã que não me dá rebuçados mas deixa-me o dinheiro no bolso para os poder comprar :P

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  4. "À rapaz", sempre era mais fácil de cuidar e principalmente,... durava mais tempo ! eheheh
    .

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  5. eheheheheeh este post não foi escrito por mim, mas são tantas as coincidências :)))

    Para começar os dois nomes que fazem parte da minha vida...depois o corte das franjas das meninas feita pelo meu pai,uma única vez, graças a Deus, que detestava cabelos nos olhos ou no prato da comida, "obrigava-nos" a ir prá mesa com o cabelo apanhado, como nunca nos lembrámos de pôr uns ganchinhos na franja, foram todas assassinadas numa linda tarde de sábado...ficámos tão lindas como vocês duas ehehehe

    Também tínhamos um cabeleireiro assim lá na rua, mas tínhamos a sorte da ajudante de cabeleireiro, que por acaso era casada com um barbeiro, irem a casa dos clientes, para além de ser mais prático, já que éramos 6 crianças, ficava muito mais barato...só não podíamos contar ao dono do cabeleireiro, era um segredo eheh

    De 2 em 2 meses iam lá a casa, ela tratava das meninas, o marido dos meninos...tudo corria bem até ao dia em a cabeleireira ficou doente e só o marido apareceu, como nessa altura de 6, 4 tinham piolhos, eu era uma das piolhosas, a minha mãe pediu que o corte fosse à rapaz eheheh fiquei "trómatizada" de tal maneira que ainda hoje odeio cortar o cabelo eheeh

    Apesar de tudo são boas memórias que nos fazem sempre dar umas boas gargalhadas :)

    Amei este post :)))

    Beijinho óh Santa Antoninho:)

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  6. ahhahah! faz-me lembrar uma história com a minha irmã, eu como era 5 anos mais nova era a cobaia das brincadeiras, então um dia a minha irmã resolveu que brincar às cabeleireiras,claro que eu era a cliente e isto foi numas férias e durante a noite, no outro dia quando os meus pais acordaram e me viram iam morrendo de susto, a minha irmã cortou-me o cabelo todo parecia um rapaz de um campo de concentração, até tenho uma foto desse corte.

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  7. : )
    Também eu me recordo de uma vez a minha mãe decidir (sem me consultar – teria uns 10 anos) que a cabeleireira me devia cortar o cabelo bem curtinho (eu adorava-o pelos ombros talvez porque toda a gente me “gabasse” o cabelo! : ). Quando cheguei a casa, o meu pai comentou que talvez estivesse curto de mais. Um “trauma” que nunca mais esqueci! : )

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  8. Anónimo5/30/2012

    Voltei para te dizer que estava em amena cavaqueira comigo mesma e lembrei-me de uma situação que me fez rir.
    Ora, um dia, sua excelência que ainda hoje é minha sogra (e que não suporto) aos olhos da lei, tinha uma festa e não teve tempo de ir ao cabeleireiro. Prontifiquei-me a dar-lhe um jeito.
    Se te disser que foi lavar o cabelo depois, consegues imaginar como ficou?:))

    beijocas
    Nina

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  9. Na verdade há de que ficar traumatisado....cortar uma bela e farta cabeleira.....é de doidos, sobretudo quando o proprio não quer.
    E por falar em corte de cabelo.....a que mais me chocou foi quando o meu marido um dia me entrou pelo escritório dentro com o cabelo rapado mesmo a zero...podes crer que foi um choque valente (ele que tinha um cabelo farto e bem bonito) mas a razão era um cancro e o cabelo a cair com os tratamentos ( ao fim de uma semana de tratamento rapou)e acabou com o suplicio de o ver na almofada ou na camisa.
    Mas agora deixa o teu cabelo como gostas, aproveita linda.
    Beijokitas

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  10. Nem imaginas, Teté. Eu quando era miúdo, tinha uns enormes caracõis que a minha mãe todos os dias tratava com desvelo. Imagina agora como ela ficou quando um dia o meu pai me levou, e decidiu que era tempo de eu ter um corte de cabelo "à homem" :)

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  11. Não sei se o Augusto era aquele famoso cabeleireiro de Lisboa que fez furor há algumas décadas.
    Sei é que a minha avó, durante um Verão em Cascais, lembrou-se de ir ao tal famoso Augusto e saiu de lá com a cabeleira branca de uma cor lilás, igualzinha à de um licor da Bols que se chamava "Parfait Amour".
    Foi um Verão muito divertido para os netos mais miúdos ( eu era um deles) que a passaram a identificar como a avó "Parfait Amour".
    O meu avô é que não achou piada nenhuma...

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  12. Tenho o cabelo liso e nos anos 80 usavam-se as permanentes. Como nunca estamos satisfeitas com aquilo que temos... lá ia eu fazer permanente. Nem sempre corria bem. e o pior é que hoje ainda tenho fotografias para confirmar a minha triste figura de então :))

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  13. Cada vez que eu saía do barbeiro, a primeira coisa que fazia era desmanchar o penteado que ele me fazia. Fiquei com tal raiva a isso que ainda hoje me penteio com as mãos, quando salto da cadeira.
    E lembras-te das meninas que apanhavam meias nos vãos de escada?
    Beijinho Teté

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  14. Ai, NINA, aquelas franjas enroladinhas eram cá uma coisa. Só para rir mesmo, embora a própria não achasse muita graça! :))

    Nunca tive piolhos, mas um dia destes conto uma história relacionada com isso... :D

    Mas o meu filho e as minhas sobrinhas não escaparam a essa praga, bem sei o trabalho que aquilo dá! :P


    Beijocas!

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  15. É, parece que noutros tempos barbeiros e cabeleireiros só sabiam fazer um penteado, RAUF! E normalmente não eram o que gostávamos... :))

    Beijocas!

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  16. Vou protestar! A mim nunca me deram rebuçados nenhuns no cabeleireiro, VÍCIO! Grunnnf! :D

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  17. "À rapaz" é bom para rapazes, RUI! Ainda hoje detesto cabelos curtos, à conta do Augusto... :))

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  18. Pois, essa do corte das franjas também é capaz de ter tido a ver com os cabelos nos olhos, que o meu pai dizia que faziam mal à vista, MARIA! E se ficaram tão lindas como nós, olha, não nos podíamos rir muito umas das outras... :))

    Mas era mesmo um trauma perder o cabelo assim de repente, porque a mãe achava que precisávamos ou, no caso da minha, porque tinha a mania que me ficava muito bem... :D

    Mas sim, ainda me fartei de rir ao lembrar estas cenas antigas! :)

    Beijocas da Beatriz Costa de franza em ziguezague de outrora! ;)

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  19. Ai, coitada, isso ainda deve ter sido mais traumatizante, RAINHA! Se bem que o corte do Augusto também fosse... :))

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  20. Pois, mas nessas idades alguém consultava as crianças se queriam ou não cortar o cabelo ou como, CATARINA? As mães decidiam e não havia nada a fazer, tínhamos de nos sujeitar... :)

    Mas sim, percebo lindamente esse "trauma", em tudo semelhante ao meu (com a agravante que o meu ainda estava mal cortado)! :D

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  21. Eheheh, também nunca tive jeito para cabelos ou para cabeleireira, certa vez uma amiga pediu para a ajudar a enrolar o dela, eu avisei-a da falta de jeito e que normalmente ficavam todos espetados, e ela que o cabelo dela não espetava. Ai não, que não espetou! =))

    Mas pronto, aí sempre fizeste o gosto ao secador, no cabelo da tua sogra. Ainda por cima sendo prestável! Ca granda ingrata, hein?! :))

    Beijocas!

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  22. E a gente tinha quereres, PARISIENSE? Não! A mãe mandava e tínhamos de obedecer! :P

    Bom, em tratando-se de doença já o casa é diferente! O meu filho há pouco tempo também se lembrou de fazer uma carecada a ele próprio, em casa, só porque sim, a minha mãe ficou numa aflição, que lhe fazia lembrar os jovens com cancro que rapavam o cabelo. Olha, pode ser que lhe tenha servido de lição... ;)

    Ah, pois deixo! E outras vezes como as cabeleireiras gostam, o que nem sempre é a mesma coisa... :))

    Beijokitas!

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  23. Ahahah, era coisa que o meu sogro também era capaz de fazer, que as fotos do meu marido em criança parecem de uma menina, cheio de canudinhos, VIC! Os pais é que não achavam muita graça à brincadeira, talvez com aquele receio antiquado que isso manchasse a virilidade dos seus filhos varões... =))

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  24. Não, CARLOS BARBOSA DE OLIVEIRA, era um cabeleireiro de bairro, anterior a esse Augustus, não tem nada a ver! Mas que pelos vistos cometia os mesmos erros desse de maior gabarito e fama! :))

    Os homens antigamente não tinham sentido de humor nenhum, quando se tratava de alguma novidade respeitante às suas mulheres. Mesmo que elas não tivessem culpa nenhuma! :)

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  25. Também fiz várias permanentes (ou mini vagues, como então se dizia) nessa época, LUISA! Eram modas... :))

    Por acaso nunca tive azar, mas conheço quem tivesse tido! :D

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  26. Tenho impressão que eras tu e quase todos os homens, KIM! Não sei porquê os barbeiros tinham a mania de lhes fazer uma grande popa no cocuruto. Se calhar para combinar com os cabelos em capacete das mulheres... :))

    Essas meninas apanhavam as MALHAS das meias nos vãos de escada, às janelas (como no "Conta-me como foi...") e até em lojas. Lembro-me perfeitamente, está claro! :D

    Beijocas!

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  27. Engraçado, quando era menina tinha um lindo cabelo umas grandes tranças. Quando fui para a escola a minha mãe mandou cortar assim à rapazinho. Parecia que adivinhava a camada de piolhos que eu ia apanhar e resolveu logo que seria mais fácil tratar assim.
    Depois usei os cabelos compridos na adolescência mas a verdade é que depois que entrei na idade adulta foram muito poucas as vezes que usei um pouquinho mais comprido. Hoje mesmo fui cortar 3 cm de cumprimento.
    Um abraço

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  28. Aí até é uma questão diferente, ELVIRA, porque eras muito criança e não tratavas tu própria do cabelo - e já se sabe que um cabelo comprido o suficiente para fazer tranças dá muito trabalho! E se ela não podia estar a tratar dele, óbvio que era o mais prático, mesmo que ainda não adivinhasse os piolhos... :)

    Mas essa "carecada" ditada pela minha mãe já foi lá para os meus 13 anos de idade, numa época que já me olhava ao espelho e que era eu própria a tratar dele... :S

    Em miúda também o usei relativamente curto (sem dar para tranças), mas a partir dessa data foram poucas as vezes que não o usei pelo menos pelos ombros... :D

    Abraço!

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  29. ahahahahahhaha. assim não te ficaste a rir da franja santantoniana da mana :P

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  30. Garanto que naquela altura pouca gente se ficava a rir, com as aventuras e desventuras em cabeleireiros, encartados ou não, MOYLITO! :D

    Hoje até dá... :))

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Sorri! Estás a ser filmad@ e lid@ atentamente... :)