terça-feira, 22 de maio de 2012

COLINA DO SOL


Quando casei fui viver para a Colina do Sol! O que assim à partida soa lindamente, mas na realidade era uma urbanização da Amadora, na freguesia da Brandoa, que posteriormente (e até hoje) passou a ser conhecida como Alfornelos. A casa não era nova, mas relativamente recente e com boas áreas, apesar de ser apenas um T2 (mas alguém precisa de mais, no início de uma vida em comum?). Num 9º e último andar, o primeiro problema que topámos é que sol... batia lá pouco! Com todas as janelas viradas para as "traseiras", ainda usufruía de uma esplendorosa vista para um bairro clandestino, onde as barracas alastravam  diariamente... como cogumelos!

A vizinhança, já se sabe, era um baú de surpresas: havia gente de todas as idades, tamanhos, credos, escolaridade, profissões, cores e feitios, para além de um grau de civismo muito variável. Por coincidência, uma grande amiga nossa também morava lá e sempre nos ia fornecendo umas pistas sobre as particularidades de cada vizinho, embora mantivéssemos com todos a cordialidade do "bom dia!" (ou tarde ou noite, consoante a hora do encontro casual).

Portanto, a cegada era mais notória a nível de reuniões de condóminos: ninguém queria ser administrador do condomínio, mas também ninguém queria pagar administrações profissionais, de modo que voluntária ou involuntariamente eram "eleitos" dois por ano. A primeira decorreu sem percalços de maior e aí tive a ideia (parva!) que o melhor era despachar logo a nossa prestação, a que não foi alheia a noção de que alguns problemas do prédio precisavam de soluções urgentes, aparentemente negligenciados. Na segunda, os administradores defenderam-se das duras críticas, explicando que após conversarem com um dos anteriores, descobriram que o saldo bancário já não existia  - o outro tinha largado a mulher e o filho e, de caminho, levado a "continha"  no bolso... Duas ou três horas depois, discussões acabadas e tudo decidido, chega a tal criatura abandonada pelo companheiro, completamente bêbada, mas toda aperaltada no alto dos seus saltos agulha, e toca de vociferar com todos, que tinham decidido sem a presença dela, mas que ela era jurista, que nos esmagava a todos debaixo do seu sapato! (poupo-vos ao "retrato" de uma gaja completamente grogue, a tentar demonstrar com o salto agulha como realizaria a operação...)

O outro candidato à nova administração era um recém-reformado, picuinhas até mais não, que obviamente não queria cá conversas comigo: mulher não percebe dessas coisas! Telefonava ou batia à porta, se o maridão não estava, voltava a outra hora. Confesso que não nutria nenhuma simpatia por ele - sempre detestei gajos machistas! Certo é que conseguiu pôr as contas todas em ordem, que não se inibia nada de andar atrás dos vizinhos, para pagar a prestação ou por qualquer outra razão. Mas havia quem o odiasse, quem se encarregasse de gamar sistematicamente todas as lâmpadas dos elevadores - que "circulavam" permanentemente às escuras - e quem brindasse a sua caixa de correio com "recheio" de iogurtes azedos ou ovos podres.

A nossa participação foi bastante mais apagada! Mesmo assim, numa manhã de sábado em que estávamos apressados e de saída para mais um casório, toca a campainha e era uma vizinha chorosa - o "esposo" tinha saído de casa de pistola em punho, para matar um outro não-sei-porquê, pretendia que o fôssemos acalmar! Quoi?!? O fulano era conhecido por estes "impulsos" rocambolescos, adorava exibir o seu "pistolão" frente à cara de quem o irritava, o que já sabíamos de antemão. O maridão, mais paciente, ainda a tentar sossegar a mulher e eu já a pegar na pochette: "está a ver que estamos de saída?". Claro que não matou ninguém, mas também foi a nossa última oportunidade de protagonizarmos um filme desta categoria...

Apesar destas e doutras circunstâncias, fui muito feliz na Colina do Sol! Agora não me digam que não sei o que é "peixeirada" na vizinhança, OK?

Imagem da net, de Fagal.

28 comentários:

  1. Gostei do texto. Também já vivi em sitios menos convencionais.
    Um abraço

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  2. eis um bom argumento para um filme do tipo dos que os americanos fazem sobre o Bronx ou outro afim...

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  3. Vivo num prédio com vizinhança que não dá problemas na maior parte do tempo. Mas há um rapazinho no 1º Dtº que, volta e meia, se embebeda e arma confusão, bate em tudo e todos, berra com tudo e todos e parte mobília. A PSP já foi chamada ao prédio uma data de vezes e nem por isso o puto se emenda. Enfim...Tirando isso, pacífico. E vivo numa freguesia que tem fama de ser problemática, na linha de Sintra. Até o Vasco Palmeirim pegou na original "One night in Bangkok" para homenagear o sítio onde vivo. lololololol
    Olha que em 9 anos morando lá, nunca me aconteceu nada.

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  4. eheheh, dessas nunca tive,Teté. O meu bairro é mas proíbo noutras bizarrias, e ainda hei-de descrever uma memorável ue sucedeu na semana passada.

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  5. eheheheheh adorei esta peixeirada ;)

    Apesar de nunca haver peixeiradas no prédios onde vivo ou naqueles onde já vivi, já me aconteceram coisas engraçadas principalmente quando uma vez fui administradora do condomínio...reuniões onde se fala mais um bocadinho do que o "olá, bom dia"...é aqui que ficamos a conhecer melhor muitos dos vizinhos que temos...e nem todos são aquela simpatia que imaginávamos...

    Há duas semanas aconteceu-me uma "cena" que ainda estou a digerir...que me deixou a pensar...qualquer dia conto no meu blog.

    Beijinho :)

    Vi o teu post de ontem (de olhos fechados)...não li, mas estou curiosa com uma coisa...como é que o meu livro foi parar à tua casa? hein? Ele tá na estante dos "ainda não li"...e ainda hoje o vi...mistériooooo :p

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  6. Graças a Deus, unca tive experi~encias desse jaez!!

    O meu abraço

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  7. Quando vivia com os meus pais os vizinhos ficaram amigos até à morte
    e, com uma vizinha/amiga ainda me encontro com ela, quando estou no Porto e também lhe telefono.

    Na Alemanha não tenho problemas, mas também não tenho amizades.

    Com o meu apartamento actual só tenho tido chatices com os vizinhos, não são peixeiros, são vigaristas, um deles também fugiu com o dinheiro do condomínio, mas levou a mulher com ele.

    Qundo li o título desta posta, pensei que ías falar de um filme muito antigo, mas depois é que me lembrei, o filme chama-se A colina da Saudade". Já que foste aí feliz, este título também era um bom título.

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  8. Claro que o apartamento actual trata-se de um apartamento nos arredores do Porto. Aqui na Alemanha não há condomínios, não há problemas, não há amizades.
    Um dia uma vizinha alemã bateu-me à porta para me pedir um ovo, e eu fiquei de tal maneira espantada, que não consegui dizer uma palavra.

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  9. Está soberbo...a maneira como descreves os vizinhos como nrras as situações são um delírio. Confesso que sorri....Já vivi num apartamento, mas a "coisa" era mais pacífica!!! Bj e obrigada pela visita .

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  10. Há estórias rocambolescas sobre as administrações dos condomínios ! Sempre que possível evito-as ! :))
    A vida dá muitas voltas. Dado o meu tipo de trabalho, não fixo, após o casamento tive que viver em 5 casas, até finalmente, com 3 filhos, comprar uma moradia grande. Felizmente, neste caso não havia condomínio. Os filhos casaram-se, a moradia era grande demais e optei por apartamento. Agora sim, o condomínio e os problemas que todos conhecemos ! :)))
    .

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  11. Também vivi num prédio com essas características na Ameixoeira, embora não tivesse uma advogada alcoolizada como condómina.
    Felizmente durou pouco tempo, porque vendi a casa dois anos depois e passei quase todo esse tempo na minha casa do Estoril.
    No entanto, digo-lhe uma coisa. Este ano sou administrador do prédio onde vivo em Lisboa e, apesar de supostamente ser habitado por gente classe média-alta, as reuniões de condóminos por vezes, estão longe de ser civilizadas. Aliás, já uma vez contei uma dessas cenas lá no CR.
    O que é mais curioso é que todos os anos havia gente a atrasar-se no pagamento do condomínio. Uma psiquiatra era useira e vezeira em ter pelo menos um ano de atraso. Ano passado a administração pôs o caso em Julgado de Paz e a senhora pagou num instante.
    Este ano, apesar da crise, quase todos os condóminos têm as prestações em dia...

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  12. Pois, ELVIRA, e por vezes basta haver apenas um ou dois elementos indesejáveis/desagradáveis. Ali, eram vários... :)

    Abraço!

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  13. Sim, VÍCIO, mas com umas nuances muito tugas! :))

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  14. A verdade é que basta um fulaninho desses para perturbar a normal vivência dos restantes inquilinos, ANA! Quanto às "más famas" de bairros ou zonas, não querem dizer muito. No bairro mais chique também cai a ladroagem, não é? :)

    É preciso é ter sorte e não ter um encontro imediato com um desses meliantes que pululam por aí, em qualquer zona do país! :D

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  15. Eheheh, VIC, julgavas que eras só tu a teres "aventuras" no teu prédio? Nananinaná... =))

    E olha que estes episódios foram verídicos! Ainda haveria uns quantos outros a relatar, deste e dos outros dois prédios onde vivi, mas estes foram os mais "sumarentos", digamos assim... :D

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  16. Simpatia que imaginávamos nos vizinhos, MARIA? Garanto que não imagino nada, basta-me que tenham um comportamento minimamente civilizado. Mas ainda tenho amigos que residem no tal prédio, até por estes malucos todos acabaram por unir as pessoas mais sensatas, como numa "frente de combate"... :))

    Vá, então conta essa má "digestão"! ;)

    O TEU livro?!? Não, o livro é de outra minha amiga, que comprei para ela e que já o está a ler... :D

    Depois de o leres diz-me o que achaste, OK? :))

    Beijocas!

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  17. Ainda bem, SÃO! Claro que se não fossem elas, também não havia história para post... :D

    Beijocas!

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  18. Mas há muitos prédios assim, EMATEJOCA, em que se fazem amizades que duram a vida inteira. E tanto pode ser no bairro mais mal afamado, como no mais chique. É uma questão de sorte! Ou de azar, quando se apanham uns malucos destes pela frente! Ou vigaristas, que esses são cada vez mais corriqueiros... :P

    Eu no prédio onde vivo atualmente também não posso dizer que tenha amigos. Mas de um modo geral as pessoas são mais civilizadas, o que também não é difícil, dada a comparação... :))

    A mim nunca ninguém me veio pedir nada dessas coisas à porta! Nem salsa... :)

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  19. Felizmente, BLUE SHELL, a maioria dos prédios são mais pacíficos do que aquele... :))

    Beijoca!

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  20. Imensas histórias rocambolescas, mesmo, RUI! Então no que toca a falta de pagamentos e trafulhices, nem deves imaginar... ;)

    Eu acho que não me habituava a viver numa moradia, toda a vida vivi em apartamentos. Mas suponho que o contrário também deve ser complicado... ainda mais quando chegam as tais chatérrimas reuniões de condóminos! :))

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  21. A advogada (se é que o era, porque nunca ninguém a viu a carregar um códigozinho para amostra) não costumava estar alcoolizada, diga-se em abono da verdade, CARLOS BARBOSA DE OLIVEIRA. Mas naquela noite estava podre... :))

    Não digo que era pelo prédio ser na Colina do Sol que tinha tal "fauna", tivemos azar, só isso! Além de que o prédio era muito grande, tinha 4 apartamentos por andar, o que aumenta logo a hipótese de existirem umas quantas aves raras. Ainda hoje tenho lá amigos, que também havia muita gente decente... :)

    E sim, em quase todos os prédios há uns caloteiros ou vigaristas. Naquele onde vivi com os meus pais, bastante pacato por sinal, ao fim de uns 30 anos ou coisa também um fulano que nesse ano era administrador mudou de casa e nunca deu cavaco de umas massas que desapareceram, até porque se mudou para parte incerta... ;)

    Aqui, também já foram iniciados processos contra 2 ou 3 não pagantes habituais! Mas a vizinhança é mais sossegada, sem dúvida!

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  22. Um filme, é o que é!:))

    Palpita-me que o nosso prédio, até agora sem problemas de vizinhança (exclui-se a antipatia de uma vizinha que parece que lhe devem e não lhe pagam), os terá em breve.
    Com a crise, é vê-los, quais pardais, a alugar os apartamentos que não foram vendidos. E já se nota a diferença na entrada do prédio...e no jardim.
    Confesso que gosto demasiado de paz e de limpeza (a possível), para que algumas coisas me passem despercebidas.
    Peixeirada? Já houve...no prédio contíguo. Mas safámo-nos, por hora.:))

    beijocas

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  23. Nem de propósito!
    Já chegou a tal vizinha metida à lixeira, de que falo no post atual...com os miúdos e já se ouve os putos, no hall de entrada, em altos berros a andarem atrás do gato e de triciclo.
    Tal como a tua jurista, a estes os estudos também não valem de nada.
    beijocas

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  24. Pois é, NINA, a malta não pode escolher vizinhos, e de vez em quando calha com cada um na rifa... :))

    E é sempre bom não cantar muito de galo, porque nunca se sabe quem nos vai tocar à porta... ;)

    E desde quando um canudo, qualquer que ele seja, substitui educação? Não é preciso ser armada a tia dondoca, mas falta de chá não falta por aí mesmo em licenciados... :)

    Beijocas!

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  25. O estatuto económico nem sempre é sinónimo de civismo.
    Gostei de ler as peripécias da tua vizinhança e essencialmente porque foi um época feliz para ti.

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  26. os Moonspell saíram da Brandoa. deviam estar habituados à chinfrineira :P

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  27. Claro que não, CATARINA! :)

    Há com cada um que se julga fino e chique e é cá um bronco... :D

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  28. Ou aos tiros à noite, no bairro das barracas, para anunciar nova remessa de droga, MOYLITO! :D

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Sorri! Estás a ser filmad@ e lid@ atentamente... :)