quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

CAFUNÉ

Alguém sabe o significado da palavra cafuné? Ou de cova-do-ladrão? Bom, a primeira definição de Mário Zambujal não é inteiramente coincidente com a dos dicionários - os que têm entrada para a palavra de origem brasileira, que não são todos! - e provavelmente a mais próxima da do linguajar do coronel Coreolano, na primeira versão da telenovela "Gabriela, Cravo e Canela" exibida em Portugal. Onde, aliás, foi a primeira vez que a ouvi...

Palavras à parte, Mário Zambujal é sempre uma boa opção para começar as leituras do ano e "Cafuné" não é exceção: um romance alegre e divertido, que decorre num outro período negro da nossa História - o dealbar do século XIX, as invasões francesas e a fuga da família real para o Brasil, levando consigo todo o tesouro próprio ou do reino. Quer dizer, quase todo, que na agitação do embarque alguns caixotes, contendo obras de arte ou pratas, acabaram esquecidos no cais...

Nada disto é novidade para historiadores, nem para os interessados ou estudiosos da nossa História, mas trata-se essencialmente de um romance, que tem como pano de fundo essa época, sem o escritor pretender aprofundar o lado histórico - antes dando-lhe um toque picaresco e vagamente erótico. 

Destinado ao mosteiro por dona Décia - "solteiríssima senhora cujo único excesso era a religiosidade", que tomara aos seus cuidados para sustento e educação o sétimo filho da lavadeira e do almocreve, por estes não saberem como alimentar mais uma boca - frei Urbino de Santiago, embora desejoso de ampliar conhecimentos e honrando a sua castidade, cedo abandona os muros onde em adequada idade fora enclausurado. Num país onde o analfabetismo ronda os 90%, frei Urbino alcança o posto de bibliotecário da Casa Real e as boas graças do príncipe D. João e de sua mulher Carlota Joaquina. Mas abundam as invejas na Corte e acaba por ser destituído do cargo, não sem recompensa pelos serviços prestados: "um tanto à socapa, como ainda hoje acontece em negócios públicos, foi-lhe atribuída uma tensa mensal vitalícia."

Porém, no primeiro dia do século XIX, salva um jovem e robusto rapaz, Rodrigo Favinhas Mendes, da perseguição de três galifões, que acusam o mariola de desrespeitar a morgada que servem. O acusado afirma não ter havido intenção e os serviçais são incumbidos de transmitir à senhora as desculpas do rapaz. Mas, apesar dos seus 17 anos incompletos, Rodrigo não é assim tão inocente: o excesso de testosterona já o apanhou de calças na mão (ou sem elas) diversas vezes. A amizade entre o casto ex-frade e o mocetão mulherengo cresce a partir do momento em que frei Urbino o acolhe na sua casa e, posteriormente, lhe arranja colocação na casa de um comerciante, cuja sobrinha Dália o toma ao seu serviço como secretário...  

243 páginas de leitura muito agradável - principalmente para quem gosta de história - convidando à boa disposição!
 
Citações: 
"Decrescendo a produção de ouro, embirrou o governador em que o reino de Portugal havia de continuar com os proventos [...] estabeleceu uma derrama que enfureceu os proprietários locais e mais gente abastada. Calcula-se que lhes subtraíam uns vinte por cento dos lucros e nem os consolaria se adivinhassem que, mais de duzentos anos depois, o Estado, entre ierrésses, ivas, imis e um carrossel de taxas, puniria mais severamente qualquer português mediano."

"Não é a muita sabedoria que abranda aquilo que tende a endurecer por feitiço das graças femininas. Há exemplos de cientistas, mestres, eruditos, para quem um simples par de pernas arrebita o que guardam dentro das calças." 

"Santa Engrácia é que tem a fama toda mas obras portuguesas, geralmente, são coisas para ir fazendo e com derrapagens nos custos."

"Decorreria o acto em recomendável discrição, não fosse a extravagância de escolherem como retiro o galinheiro ao fundo do quintal. À sua entrada permaneceu dormente a criação, mas não tardou que gemidos e movimentos dos intrusos despertassem os galináceos para um banzé que tanto poderia significar pânico como apoio e incitamento, tipo claque. Isto, dada a semelhança de algumas posições com devaneios de galos e galinhas." 

26 comentários:

  1. Ahhhh cafuné é muito bom :)))

    Beijocas e um Bom Ano!!!

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    1. Pois é, POPPY! :)))

      Beijocas e bom ano para ti também!

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  2. Parece-me uma proposta interessante, a leitura do livro e o cafuné! :-))

    Abraço

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    1. O livro, o cafuné e o bom humor do escritor, tornam-se uma combinação agradável, ROSA! :)))

      Abraço

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  3. Acho este senhor muito interessante, gosto sempre das suas entrevistas. E o livros que já li dele, agradaram-me. Pelo que tenciono ler este.

    Beijinho.

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    1. Já o vi ao vivo várias vezes, SÃO, e parece um homem simples, simpático e bem-humorado! Os livros parecem refletir a personalidade do escritor... :)

      Beijocas!

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  4. It sounds interesting!

    O único livro que tenho dele (fui confirmar) é “Histórias do fim da rua”.

    Abraço

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    1. Já li vários livros dele, incluindo esse, CATARINA! Este suponho ser o mais recente... :)

      Abraço

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  5. Ainda não li mas parece ser interessante.
    Um abraço e um excelenete 2013

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    1. Do meu ponto de vista é, ELVIRA! :)

      Abraço e excelente 2013 para ti também!

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  6. Desde a crónica dos bons malandros, até ás histórias do fim da rua, longe é um bom lugar, uma noite não são dias... que me delicio com Mário Zambujal. Cafuné ainda cá não mora, mas não tarda.
    Beijinho.

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    1. Desses que referes, VITOR, suponho que só não li "Longe é um bom lugar". E ainda li outro intitulado "À noite logo se vê", que deu azo a alguma confusão e a umas boas gargalhadas... :)))

      Beijocas!

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  7. Uma ternura

    sempre desperta

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  8. Deve ser um romance muito bom! Outro dia estava ouvindo a entrevista com um historiador brasileiro e ele dizia que a corrupção é coisa antiguíssima no Brasil, começou no tempo do império com D. Pedro! Querida, um ano repleto de alegrias prá você e toda a sua família! Bjks Tetê

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    1. Infelizmente, TETÊ, corrupção é coisa antiga, suponho que até mais que isso! Pior é que ninguém está muito interessado em a erradicar de vez... :P

      Obrigada e votos de um excelente ano para ti e todos os teus! :)

      Beijocas!

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  9. Nunca li nada do Mário Zambujal, mas já agora, até vou ver se está traduzido em alemão.

    Saudação literária!

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    1. A leitura é agradável, EMATEJOCA, embora não muito literária! Mas prefiro uma boa história a alguma literatura que não entendo... :)

      Saudações literárias para ti também! :D

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  10. Sempre ouvi dizer que "A cova do Ladrão" é aquela zona que vai desde a nuca até ao meio da cabeça (parte de trás) - Supostamente o 1º sitio onde aparecem os piolhos nos miúdos... LOL
    Mário Zambujal, não me agrada muito, gosto da pessoa, e gosto bastante de o ver na televisão. Enquanto escritor, li Histórias do Fim da Rua e Crónica dos Bons Malandros... não apreciei muito.

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    1. É exatamente isso, NUNO, mas esse é termo português (e suponho que comum ao português do Brasil), cafuné é sem dúvida de origem brasileira.

      Li os dois livros que referes e gostei de ambos! Não podemos partilhar sempre as mesmas opiniões... :)

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  11. Ora aqui está uma boa sugestão de leitura.
    E o título é logo convidativo.
    Bjs e bfds

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    1. Também gostei do título, PEDRO COIMBRA! :)

      Beijocas!

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  12. Vou ter de ler, está visto...
    Obrigada
    Bj

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    1. E bem precisamos bem leituras divertidas, BLUE SHELL! :)

      Beijocas!

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  13. Vale sempre a pena ler os livros do meu amigo Zambujal, porque são garantia de boa disposição.

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    1. É isso mesmo, Carlos, boa disposição garantida... :)

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Sorri! Estás a ser filmad@ e lid@ atentamente... :)