terça-feira, 4 de dezembro de 2012

O TÚNEL

Apesar das meras 135 páginas, este livro de alegada estrutura policial, do escritor argentino Ernesto Sabato - vencedor do prémio Cervantes de Literatura, em 1984 - foi dos que mais me custou a ler este ano. Escrito em 1948, segundo a contracapa desta edição, Albert Camus diria sobre o autor: "Admiro a sua dureza e intensidade". Precisamente aquilo que não admirei, se bem que duro e intenso seja de certeza! 

Juan Pablo Castel nutre um profundo desprezo pela natureza humana, mas ao expor um dos seus quadros numa exposição descobre que uma desconhecida está mais atenta ao pormenor de uma mulher à janela olhando o mar, do que às imagens de primeiro plano. Ela desaparece no meio da multidão, mas meses mais tarde volta a encontrar aquele rosto que não esqueceu. Engendra múltiplos planos para a voltar a ver, segue, persegue, confronta, utiliza todos os estratagemas e mais alguns e Maria Iribarne concede-lhe alguma atenção. Ela é casada, mas a paixão obsessiva de Castel conduz ao atribulado romance, em que o ciúme doentio do marido e de todos que a rodeiam assume papel preponderante. Em suma, nunca está bem com ela, nem sem ela e acaba por a assassinar.

Que não se diga que estou a desvendar o final do "policial", a primeira frase do capítulo inicial elucida-o: "Sou Juan Pablo Castel, o pintor que matou Maria Iribarne." Mas o facto de haver um homicídio, caracteriza a estrutura como policial? Por mim, diria que é um romance negro, com uma forte componente psicológica - a personalidade insatisfeita e os pensamentos maníaco-depressivos da personagem central são narrados até à exaustão, sem nenhum outro ponto de vista relevante em contraponto. Quase como se de um diário intimo se tratasse...

Enfim, os prémios literários valem o que valem, não duvido que os autores exibam um uso do léxico e da gramática "à prova de bala" (na língua original, que traduções já são outros 5 paus!), mas não é em vão que os best-sellers são outros!

Citações:

"A frase «todo o tempo passado foi melhor» não significa que menos coisas más tenham acontecido então, mas que, felizmente, nos esquecemos delas."

"É o único género de novelas que consigo ler agora. Digo-te: encantam-me. São tão complicadas e têm detectives tão maravilhosos que sabem tudo: arte da época Ming, grafologia, teoria de Einstein, baseball, arqueologia, quiromancia, economia política, estatísticas sobre a criação de coelhos na Índia. E depois são tão infalíveis que até dá gosto."

"Às vezes acreditamos ser super-homens, até percebermos que também somos mesquinhos, desonestos e pérfidos." 
 

14 comentários:

  1. Nunca li nada deste autor, e embora, a tua crítica nem seja absolutamente positiva, fiquei com curiosidade.

    Há muito tempo que sabemos, que

    "Às vezes acreditamos ser super-homens, até percebermos que também somos mesquinhos, desonestos e pérfidos."

    Mas é sempre bom recordar!!!

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    1. De facto até gostei da escrita, EMATEJOCA, mas nem por isso do desfiar dos pensamentos obcecados do homicida confesso. Desconfio que também escreveu isto, para minimizar a escrita de "segunda categoria" dos policiais, que a segunda citação sai da boca de uma dondoca insuportável... embora contenha um certo humor! :)

      Mas claro que também temos falhas como todos os outros, que o lugar dos santinhos é no altar! ;)

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  2. Eu, pelo contrário, fiquei sem vontadinha nenhuma de ler o livro!
    O que dizes, de desvendar o desfecho logo no início da narrativa, fez-me lembrar a "Crónica de uma morte anunciada" de Gabriel Garcia Marquez, esse sim, um livro magnífico!
    Bjs

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    1. Esse de Garcia Marquez não li, TERESA, mas também acredito que gostaria mais! :)

      Beijocas!

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  3. Há uns anos comecei a ler o livro na língua original, mas fartei-me. Não faz o meu género.

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    1. Não faz o seu género, nem o meu, CARLOS! :)

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  4. E eu, depois de te ler, digo que este é um Túnel que não tenho vontade de atravessar...

    Beijinho :)

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    1. E eu tenho quase a certeza que também não ias gostar, MARIA! :)

      Beijoca!

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  5. Estou à espera de ler em breve o novo policial de Donna Leon! Já tenho saudades de ler policiais que me arrebatam umas horas sem grandes dramas (quer dizer... ) e que me entusiasmam. Este que estou a ler “Peito Grande, Ancas Largas” permite-me fazer umas pausas de vez em quando sem grande alarido.

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    1. Ora aí está uma autora que para o ano que vem tenho de tentar ler, CATARINA: Donna Leon! Já uma vez me falaste nela, ainda fui ver se existiam livros publicados cá, na livraria só tinham 3, mas na dúvida de qual ler, adiei a compra. Mas como também gosto muito de policiais, pró ano não falha! :)

      Esse é do Nobel deste ano! Depois diz se gostaste... :)

      Abraço!

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    2. Ainda ontem à noite, contra o stress do natal, comecei a ler "Drawing Conclusions" da americana, residente em Veneza, Donna Leon.

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    3. Pois é, EMATEJOCA, parece que sou a única que não conheço a escritora. Tenho de colmatar essa lacuna rapidamente... :)

      Por aqui tem sido mais cansaço (das compras) do que stress... Até porque o Natal este ano é cá em casa e já fui fazendo umas compras para a consoada! ;)

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  6. Já tinha ouvido falar dos eu blogue.
    Hoje, por indicação da uma leitora assídua, passei por cá.
    Como gostei, vou ficar!

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    1. Bem-vindo, PEDRO COIMBRA!

      Por sinal suponho que temos vários amigos bloguistas comuns, tanto que já o tenho visto comentar nesses blogues... :)

      Obrigada pela simpatia!

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Sorri! Estás a ser filmad@ e lid@ atentamente... :)