segunda-feira, 5 de setembro de 2011

NO PALCO OU NO ESTENDAL?

Elizabeth não nascera em berço de ouro, mas sempre fora tratada como uma princesa pela mãe, Ernestina, que almejava para ela um futuro de rainha. Aliás, o próprio nome da bebé, de caracol loiro e olho azul, fora escolhido tendo em conta o da soberana inglesa. Para dar sorte!
Conheci-a na escola primária, onde ela se evidenciava pela sua longa cabeleira loira no meio de tantas crianças morenas, mas também pela sua inteligência, pelo seu porte e voz melódica. A escola era pública - possivelmente porque os pais não tinham posses para mais - mas já frequentava aulas de ballet e de canto. Possuía também um grande sentido de humor, por vezes maldoso. E os vestidinhos que usava? Cada um mais bonito que o outro, carinhosamente costurados pelas mãos de Ernestina, modista de profissão. E qual é a professora que não simpatiza com uma aluna que aprende rápido o que lhe ensina? Fomos amigas, nesses tempos, defendi-a sempre perante algumas invejosas...
Certo é que a vida dá muitas voltas e cada uma de nós seguiu rumos diferentes. Os pais mudaram de casa, perderam-se os contactos no bairro e os números de telefone. Tropeçámos uma na outra, já adolescentes e em plena época natalícia, na baixa lisboeta. Elizabeth ia carregada de sacos de compras. Resolveu descansar uns minutinhos e convidou-me para tomar um chá, numa cafetaria próxima do elevador de Santa Justa. Eram quase 5 da tarde! Escolhi um bolo com chantilly para o lanche, ela uma torrada sem manteiga. Preservar a elegância já custava naqueles tempos! A conversa decorreu amena e sem intervalos, a família dela estava boa e a minha também, contou que tinha entrado para o teatro, com um pequeno papel inicial, mas tinha esperança de melhor no futuro. Felicitei-a e prometi ir ver a peça, com os bilhetes que me ofereceu na altura, que nem me recordo como se chamava, sei que vi e não achei grande piada - os musicais revisteiros nunca me entusiasmaram... No entanto, constatei que também ali ela era a verdadeira estrela: secundária que fosse, o acesso ao camarim estava entupido de homens maduros. O meu pai, que me acompanhara ao espectáculo, é que não estava disposto a esperar na fila, ensonado q.b., após um longo dia de trabalho e uma noite de cantoria. Assim, limitei-me a rabiscar num papelucho uma mensagem de "gostei de te ver em palco e felicidades", que pedi a um funcionário dos bastidores para lhe entregar!
Apesar da sua fugaz carreira teatral, Lizzy, o seu apelido artístico, tinha chamado atenções suficientes e era convidada assídua de programas de televisão, onde apresentava, representava, dançava e cantava, consoante o mote. Continuava bonita, até mais deslumbrante do que na juventude, com curvas de mulher, uma voz mais maviosa, uma postura sinuosa, elegante e um pouco sobranceira. Simultaneamente, os convites para as festas frequentadas pelo jet set nacional multiplicaram-se, as revistas cor de rosa publicavam tudo o que lhe dissesse respeito - Lizzy nas festas, na praia, de férias, nas compras e todas as indumentárias que usara em cada ocasião.Até cair a bomba: ia casar! O noivo tinha o dobro da sua idade, sangue azul a correr-lhe nas veias, além de possuir vastas propriedades rurais no Alentejo. Por amor, repetiam ambos embevecidos diante das câmaras fotográficas! O casamento foi memorável, entre grandes destaques nas revistas ou a pequenas notas na imprensa dita mais séria - a aliança entre a elegância e a distinção aristocrática...
Entretanto, os anos passaram, nunca mais se soube nada da Lizzy ou da Elisabeth. Certo dia, numa breve visita ao bairro da minha infância, pensei que a via a uma janela, a estender roupa no estendal. Ainda me ria com a confusão, quando ela começou a cantarolar. Parei. Olhei melhor. Não queria acreditar! Especada no passeio do outro lado da rua, ela notou a minha presença. Acenei-lhe de longe, timidamente, e ainda na dúvida. E não é que ela me sorriu e acenou de volta?!

Fotografia de Vitor Fernandes, amigo bloguista e facebookiano,  e grande fotógrafo amador. Obrigada pela permissão, Vitor!
ps - para quem não sabe, vim verificar se a fauna e a a flora algarvia permanecem no mesmo lugar... por um curto período! Em descanso do estendal lá de casa, que nunca me faz cantarolar...

20 comentários:

  1. será que entendi bem o significado da foto?
    ela deixou de preservar a elegância nesse tempo em que estiveram sem se falarem?

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  2. Grato pela foto. Gostei da forma como contaste a história da Lizzy. Pelo regime acredito que as cuequinhas dela não sejam assim tão grandes :)

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  3. Excelente narrativa.:)

    Esta tua história fez-me lembrar as vezes que encontro ex-alunos a exercerem cargos que não os preenche. Envergonhados, mal me dirigem a palavra...mas lá acenam.
    Oxalá a tua Lizzy esteja de bem com a vida e consigo.:)

    beijocas

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  4. Anónimo9/05/2011

    Bem, a foto é sugestiva e pode ter muitos significados, mas palpita-me que a Lizzy voltou ao tempo do sangue vermelho já que o sangue azul se terá finado por divórcio do abastado marido.
    E quando algo corre mal, também o estrelato se apaga e a noite chega mais depressa.
    Beijinhos Tété
    KIM

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  5. (Agradeço esta oportunidade de ser mostrada roupa interior)

    ;)

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  6. A vida dá tantas voltas... Obrigado pelos parabéns e boa continuação de mini-férias.

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  7. Não sei, VÍCIO! Cada um entende como quiser... :))

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  8. Nunca se sabe, VITOR, uns anos depois... :D

    Se há alguém que tem de agradecer, sou eu! ;)

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  9. Não é bem narrativa, NINA, mas um mini-conto ficcional. Na base, sim, pode cruzar várias historietas reais... porque só sei escrever sobre o que conheço! :)

    Mas, se queres que te diga, também já encontrei antigas explicandas "envergonhadas", que nem aceno fizeram. Enfim, nem entendo o porquê, que afinal a vida não está fácil para ninguém... ~xf

    Beijocas!

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  10. Também suponho que sangue vermelho e azul têm alguma incompatibilidade, KIM, que não será dos dias de hoje... :))

    E sim, o final cada um construirá à medida da sua imaginação... :D

    Beijocas!

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  11. Ah, ainda bem que gostaste da roupa interior, OOPS! =))

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  12. Ah, se dá, CARLOS BARBOSA DE OLIVEIRA! Mais uma vez, parabéns e obrigada! :)

    ps - os blogues também servem para termos direito à indignação, certo? daí, não ter sugestões de "melhorias"... ;)

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  13. Estou a ver que as herdades do Alentejo foram trocadas por estendais cheias de cuecas... beijocas!

    PS: de férias outra vez? Vamos ter de nos chatear...

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  14. Devo dizer que este foi dos teus posts que mais gostei. As historias do quotidiano por vezes podem ser tão interessantes e agradáveis de se ver. Espero que te voltes a cruzar com Lizzy nem que seja mais uma vez e quem sabe não podem por novamente a conversa em dia. O teu texto também me fez recordar alguns colegas de escola que há muito não vejo e que perdi o contacto. Quem sabe não me cruzo com eles um dia, nem que seja no facebook.
    Beijos

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  15. Nunca se sabe que trocas e baldrocas a vida dá, RAFEIRITO! :))

    Beijocas!

    ps - as férias "nascem" para todos... :-L

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  16. A história é ficcional, PSIMENTO, embora cruze várias que conhecemos de vez em quando... :D

    E sim, quem não "perdeu" de vista amig@s porque mudaram de residência, de terra, de país, etc. e tal? Então no tempo em que ainda os telemóveis não eram comuns, podes imaginar... ;)

    Beijocas e obrigada!

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  17. A fama é fugaz e um estendal não tem como fugir à realidade. :))

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  18. É isso aí, LUISA, a fama é efémera... a realidade nem por isso! :)

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  19. roupa interior? eu a pensar que ela tinha arranjado emprego na força aérea a lavar pára-quedas :D

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  20. Pois, se calhar visualmente os pára-quedas não são muito diferentes, MOYLITO... =))

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Sorri! Estás a ser filmad@ e lid@ atentamente... :)