Mostrar mensagens com a etiqueta Tretas e historietas. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Tretas e historietas. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

IMAGINAÇÃO...

Estava eu um dia destes a lanchar um chazinho com torradas (sem nada, que estou a dieta, vale que gosto deste pão mesmo só assim). distraidamente, quando reparo que a janela da sala estava aberta. "Caramba, quem terá aberto a janela, com este frio?", pensei com os meus botões. Mas assim que a pergunta surgiu, soube imediatamente a resposta: foi a minha imaginação que fugiu!

Ao aproximar-me da janela, uma rajada de vento mais gélida levou-me a fechá-la rapidamente. Não sem antes espreitar lá para fora, mas não vi nada de diferente: nem cordas do parapeito até à rua, nem escadas, nada! "Olha, deve ter usado as suas asas", supus.

Sei que desde então nunca mais a vi, mas ainda tenho esperança que volte em breve... Faz-me tanta falta para escrever qualquer coisinha!

Entretanto vou dar um giro pelos vossos cantinhos para ver onde param as últimas modas... (e imaginações, já agora!)

sexta-feira, 26 de abril de 2013

TEIMOSIA OU PERSISTÊNCIA?

Normalmente, há sempre duas maneiras de ver a mesma questão. Ou mais. E o mais certo é nós próprios mudarmos de opinião em várias questões, à medida que a vida vai avançando - estranho era se tivéssemos sempre a mentalidade dos 10 ou 15 anos de idade!

Contudo, algumas características são inerentes à própria personalidade e essa raramente muda muito. Se é teimosia ou persistência, não sei ao certo. Empenho, será, mas só para algumas coisas. Mas se não afeta ninguém, who cares? Foi assim que esta primavera tirei 10 mil fotos à mesma árvore, como se não houvesse amanhã. (OK, 10 mil é exagero, que a máquina ainda mal passou das mil fotos e estão longe de ser todas à olaia, mas que piada tem se não exagerar um bocado?)

- Já chega! - exclamei, por fim. E a coitada, que é vaidosa, chorou copiosamente, derramando pétalas cor-de-rosa pelo chão. Abracei-a carinhosamente e prometi voltar. E lá sorriu, satisfeita, num fim de tarde de abril, quando cliquei mais uma foto de despedida...


BOM FIM DE SEMANA! 

quinta-feira, 21 de março de 2013

JÁ PLANTARAM UMA ÁRVORE?

Eu já! Há muitos anos, com a ajuda do meu pai, eu e a minha tornámo-nos "jovens agricultoras" e semeámos uns pinhões num vaso do jardim da minha avó. Todos os domingos íamos visitar os meus avós e regávamos o vaso, não sei se ela também o fazia ocasionalmente quando o tempo estava mais seco. Certo é que três germinaram e foram crescendo no vasinho, até ser necessário passá-los para a terra. Essa foi decisão do meu pai, porque obviamente duas catraias de 7, 8 ou 9 anos de idade não percebiam patavina do assunto. 

A casa e o jardim eram arrendados ao ano, primeiro para passar as férias de verão e alguns fins de semana - desde que a minha mãe era miúda - depois do meu avô se reformar passou a ser residência definitiva de ambos. Mesmo após a enorme aflição das cheias de 1967, pois a casa situava-se na região mais afetada e nesse fim de semana eles estavam lá - para quem não sabe ou se lembra do dramático acontecimento, podem ler uma breve resenha neste post da São. (desculpa não ter pedido autorização atempadamente para  linkar)

Facto é que eles adoravam viver no campo e prevendo a possibilidade de algum dia a senhoria precisar da casa para outros fins, o meu avô comprou um pequeno terreno ao lado, na intenção de um dia mandar construir a sua própria moradia, igualmente com jardim. Como este país sempre teve os mesmos problemas de burocracia e planos diretores municipais pouco transparentes e incompreensíveis, a câmara de Loures não permitiu a edificação, porque o terreno era considerado rural. Como é que a outra paredes meias foi construída? Mistério! (ou talvez não, que autarcas pouco escrupulosos também não são só os atuais!)

Entretanto, para não desaproveitar de todo o terreno, mandaram plantar lá umas oliveiras, umas poucas árvores de frutos e umas vinhas, ainda sobrava espaço para o meu pai se dedicar a uma pequena horta onde plantava batatas, abóboras, morangos, couves, enfim, o que ele lá ia tentando ver se dava (nada a ver com a sua profissão, mas suponho que servia de escape ao seu dia a dia de escritório, reuniões e tal). E claro que foi nesse terreno que os ainda incipientes pinheiros foram plantados, mais ou menos distantes uns dos outros, porque na sua modesta auto-aprendizagem de agricultura já percebera que as plantas não se desenvolvem igualmente no mesmo solo.

O resultado foi espantoso: o pinheirinho mais desenvolvido cresceu bastante até certo ponto, mas estava num local bastante soalheiro, às tantas as carumas começaram a ficar queimadas e acabou por fenecer; o que já tinha acontecido ao segundo, parcialmente à sombra de uma das oliveiras; o terceiro, aquele que à partida nos parecera o menos resistente, plantado lá mais para o meio do terreno semi-baldio, sem sombra e com o mesmo Sol, resistiu e cresceu, sendo mais tarde replantado no jardim da minha avó, até se tornar uma árvore possante e frondosa, que deu pinhões durante muitos anos e bons. (chato era parti-los um a um, evidentemente!) 

Moral da história? Não tem nenhuma, a história é verídica, tanto quanto me recordo. Mas como na altura ainda ia à missa, sempre que o padre contava a parábola das sementes lançadas à terra, lembrava-me dos nossos pinheirinhos...

§ - Não sei o que aconteceu ao pinheiro, à casa ou ao jardim (só que mudaram de proprietário), o terreno sei que foi vendido por "tuta e meia" depois da morte dos meus avós. Como a urbanização (clandestina) em redor cresceu brutalmente, a câmara de Loures posteriormente requalificou a zona e decidiu que afinal era urbanizável, mas seria destinado a um parque infantil. O que creio que nunca se chegou a verificar...

Imagem do facebook.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

É OU NÃO É PRECISO LATA?

Ontem, numa brincadeira de troca de comentários com a Maria, lembrei-me de uma história antiga, que me faz sempre sorrir. Logo no primeiro ano do liceu fiz amizade com a Alex (chamemos-lhe assim!), que se prolongou durante vários anos após a adolescência, mantendo várias amizades comuns. Entretanto a minha amiga casou com um português emigrante na Suiça e viveu lá alguns meses, quando regressou não disse nada a ninguém. O casamento não resultou - acontece a muito boa gente - mas além disso regressou grávida de outro fulano, também ele casado e com filhos pequenos. Talvez por isso não tenha desejado relatar as aventuras algo rocambolescas que vivenciou.

Mas já se sabe que o mundo é pequeno e logo se soube a historieta toda através dos amigos comuns que de algum modo a viram ou encontraram. Não sou de amuar, mas confesso que fiquei ofendida por ela não me ter sequer telefonado. Um dia lá telefonou e fui beber café com ela, já gravidérrima dos seus 7 ou 8 meses, para me dar uma valente descasca por não lhe ter dado apoio naquele período que mais necessitava. E que, por isso, já não seria madrinha da sua filha, tal como tínhamos combinado outrora. Nem houve discussão, porque o meu ponto de vista era completamente o oposto - cabia-lhe a ela ter ligado, que sempre era melhor ouvir a versão dela e tentar dar a ajuda possível, do que ouvir os boatos e a má-língua alheia que aquelas cenas "da vida conjugal" geraram. E óbvio que a amizade esfriou até a um ponto sem retorno.

Mesmo assim encontrámo-nos várias vezes, quando a minha mãe precisou de ajuda para tratar de umas papeladas em notários, falei-lhe na Alex, que para além de ter o curso de notariado, estava a trabalhar por conta própria e em início de carreira, o que é sempre complicado em termos monetários. E ela que sim, que tratava de tudo e tal. E supostamente estava a tratar, de vez em quando ia pedir dinheiro à minha mãe para custas, papeladas necessárias e horas de serviço dela. E um dia desapareceu do mapa: disse aos pais que lhe surgira uma boa oportunidade de trabalho no Algarve e lá foi ela e a filha, sem deixar contato nenhum. Já foi sem surpresa que, uns tempos depois, a minha mãe veio a descobrir que nenhum dos seus assuntos pendentes fora resolvido... E contratou outro fulano que tratou de tudo em cerca de 2 ou 3 meses! Topam a laia da "companheira" de percurso?

Claro que fomos tendo notícias através de alguns amigos, que os "negócios" dela iam de vento em popa, vivia num enorme palacete e uma vida de estadão. A minha mãe, que mantinha amizade com os pais dela, chegou a encontrá-la em festas e a Alex perguntava-lhe sempre "porque é que a Teté e a mana não me vão visitar?". Simples: porque nunca tinham sido convidadas, nem tinham contatos telefónicos ou outros! E mesmo que tivessem, na altura já estavam suficientemente de pé atrás...

13 anos depois da sua súbita partida para o Algarve, aparece no aniversário de um amigo comum, com o qual nunca perdeu contato. Com todo o à-vontade de sempre e fazendo um grande alarido festivo quando me viu. Durante o ameno convívio monologou românticamente sobre o filme "Os amigos de Alex" e como estava feliz por nos reencontrar a todos, mas que infelizmente nunca íamos aos anos dela (sem convite?). E aí alguém lhe relembrou que outra amiga presente fazia anos no mesmo dia, era impossível comparecer aos dois aniversários, a uma distância de cerca de 240 quilómetros. E aí a iluminada criatura teve um vaipe e decidiu na hora: então este ano juntamos as duas festas! E virando-se para a outra, que igualmente não via há 13 anos, explicou a sua ideia: 
"- Eu venho do Algarve, trago os meus amigos para animar a tua festa e a empregada doméstica para ajudar nos preparativos e comemoramos na tua casa!"

Só não rebolei a rir, porque a outra minha amiga - a verdadeira - estava de boca aberta e queixo caído perante a "sugestão" da Alex...

BOM E SERENO FIM DE SEMANA PARA TODOS!

Imagem da net.  

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

DE VOLTA AO ENTULHO...

"Entulho" era a designação carinhosa da leitaria de bairro, com pretensões a pastelaria fina, que foi palco de sessões de estudo, convívios, namoros e ponto de encontro constante de um vasto grupo de amigos durante quase duas décadas da minha vida... Imagino que, se não tivesse encerrado portas, atualmente estaria a fervilhar de discussões políticas, tal como nesses tempos. Adiante!

Os dois patrões do estaminé trabalhavam por turnos ao balcão - acompanhados por um ou dois empregados de mesa, consoante a hora e também eles em rotatividade - professavam ideais socialistas, mas a tendência de bajular os clientes e de tratar os subordinados como negreiros ninguém lhes tirava. Daí que estes não parassem lá muito tempo, com algumas honrosas exceções. Claro que os frequentadores habituais, sempre que viam surgir uma cara nova, aguardavam com alguma curiosidade o rápido epílogo...

Uma certa tarde surgiu lá um rapaz alto e magro, recém saído da adolescência e, para lhe acalmar qualquer ímpeto, o patrão de serviço (por sinal, o baixinho e gordinho, que o outro era o oposto) resolveu que ele devia começar por limpar a vidraça da única montra. Explicou-lhe como se fazia, em movimentos circulares e chegando lá bem acima, sem deixar nada embaciado. E o moço, novato, que obviamente nunca devia ter limpo um vidro, lá iniciou a sua tarefa. O ritmo e as conversas entre os clientes das diversas mesas continuou rotineiro, um riso aqui, uma piada ali, uma voz grossa acoli,  mais um café ou uma imperial, gente que saía ou entrava, no vai e vem de todos os dias.

Até que, na minha mesa, alguém reparou nos esforços do novo empregado, que continuava a limpar a vidraça, sem grande sucesso: quanto mais passava as folhas do jornal e o produto, mais sujo e embaciado o vidro ficava. Alguém olhou o relógio e notou, em voz baixa: "Mas ele está ali há quase meia-hora." As conversas diversificaram, mas agora estávamos todos mais atentos aos progressos na limpeza. E, de vez em quando, lá escapava uma risada e alguém apostava que o moço não iria ter ali grande futuro...

Nunca soube ao certo se foi a nossa atenção que alertou o patrão (já tínhamos contabilizado mais de uma hora de trabalho infrutífero) e lá saiu ele detrás do balcão, baixote mas impante, com todo o ar de lhe ir pregar um valente raspanete, enquanto o outro empregado mais antigo ria, sádico, à socapa. Genicoso, resolveu demonstrar ao rapaz como se limpava um vidro. Mas, surpresa das surpresas, o resultado não melhorou em nada! As gargalhadas estenderam-se a quase todas as mesas, até que, frustrado mas mais experiente, encostou as narinas ao garrafão do produto, desvendando o "mistério": afinal, alguém tinha trocado o suposto limpa-vidros por detergente de loiça! 

Muito rimos naquela tarde! (mas o rapaz, já nessa época contratado a prazo, ainda trabalhou lá durante uns anos, nos intervalos da outra profissão que desempenhava, de carteiro substituto...)

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

O ESPERTO E O PARVO

A conversa surgiu por acaso, no final de um almoço familiar, quando nos deslocámos para o varandim com vista para o mar... noutros tempos! Situado numa encosta, o apartamento que o casal anfitrião aluga todos os anos durante as férias, tem agora a visão de ramagens de pinheiros, que um vizinho de um piso inferior resolveu plantar. 

O fulano foi avisado que as árvores plantadas estavam a prejudicar a vizinhança, mas provavelmente por querer sombra no quintal e pinhões no Natal, não ligou nenhuma...

- Se fosse com o Esperto, isso era limpinho: pegava numa serra e durante a noite resolvia a questão dos pinheiros! - comentou um primo. Rimos daquela solução radical, longe de ser viável para o comum dos mortais. Para além de implicar descer e trepar por muros alheios e de serrar umas árvores à socapa, sem que se desse por nada nas redondezas, não pareceu tarefa fácil (ou legal) a ninguém.

Mas ele insistiu que o Esperto era mesmo assim e que tinha aprendido muito com o seu antigo companheiro de trabalho, que basicamente sabia resolver os problemas da forma mais prática, efcaz e de vez. Só não gostava que o chamassem de Esperto, sendo esse o seu verdadeiro apelido (e não alcunha), apresentando-se a toda a gente com os seus nomes próprios. Acontece que outro colega da empresa respondia pelos mesmos nomes e, por vezes, telefonavam-lhe à procura do seu homónimo:
- Zé Manel?
- Sim!
- O Esperto?
- Não, eu sou o parvo! (o que até podia ser, mas sentido de humor não lhe faltava...)

Dentro em breve até a paisagem no piso superior - onde fica a piscina comum a todos os residentes ou veraneantes - vai ser alterada... como já se nota! Fazer o quê contra vizinhos insensatos (é sabido que as árvores crescem, né?), que algum dia podem levar com um esperto pela frente?


domingo, 15 de julho de 2012

REINTEGRAÇÃO

Fotografia de Ian Britton

Parabéns, é um menino!” – disse o médico sorridente aos pais da Lurdinhas, que a tinham levado de urgência ao hospital, aflitos, por acreditarem que a filha de 16 anos estava com uma apendicite. A mulher cambaleou e agarrou-se ao braço do marido, enquanto o ouviu pronunciar, quase num sussurro: “Desculpe, senhor doutor, mas está enganado, a nossa filha chama-se Maria de Lurdes...” O médico acenou com a cabeça e atalhou: “Sim! E acabou de ter um rapaz, ainda estão ambos no recobro da sala de partos, mas está tudo bem!” Fez uma pausa e acrescentou: “Daqui a um bocadinho já os chamam para os verem, durante uns breves minutinhos, quando forem transferidos para o quarto e berçário!” Como o casal não retorquiu, deu meia volta e afastou-se, que tinha outros partos a efetuar. Noites de lua cheia, já se sabia que eram assim!

Sentaram-se novamente nas desconfortáveis cadeiras da sala de espera, desorientados, sem coragem sequer para verbalizar os pensamentos que os atingiam à velocidade de um raio. Como é que iam ser agora as suas vidas, num meio tão pequeno, onde toda a gente conhecia a vida de toda a gente, quando a notícia se espalhasse? Na cidade provinciana onde viviam existia uma casta de banidos, com quem ninguém falava, a não ser num eventual atendimento clientelar - mulheres divorciadas, as que trabalhavam no bar noturno, bêbados e mais uns quantos a quem ninguém passava cartão. Definitivamente, Lurdinhas ia entrar diretamente para este grupo e eles com ela. Uma rapariga adolescente e solteira, a ter um filho? Não havia memória de tal ter acontecido entre aqueles com quem conviviam. Dez anos após a revolução de abril e a mentalidade das pessoas da terra pouco ou nada tinha evoluído. Nem a deles, para dizer a verdade...

Apenas tiveram oportunidade de acenar à filha da porta do quarto, pois já passava das duas da manhã e as restantes parturientes estavam a dormir. O neto dormitava serenamente nos braços de uma enfermeira, antes desta o deitar e aconchegar no  respetivo berço. Embora feliz com o nascimento do filho, Lurdinhas também demorou para adormecer. Sabia que para os pais era uma grande desilusão, como para Luis, quando soubesse. Por isso não tinha dito nada a ninguém, durante todos aqueles meses, evitando o desgosto e o receio de propostas de aborto. “Para não estragares a tua vida”, parecia que os estava a ouvir. Eram todos muito católicos, mas às vezes faziam 'vista grossa' nessas questões de princípio, quando lhes tocava por perto. Mas e agora, como iria ser?

A notícia caíu como uma bomba na cidade, logo no dia seguinte: não se falava noutra coisa nos cafés, na rua e em cada esquina, as beatas benziam-se, as más-línguas costumeiras acrescentavam à história dichotes como “aquela sonsa nunca me enganou!” ou “quis apanhar o coitado do rapaz, é o que é!” Nessa mesma tarde, Luis partiu desterrado para casa de uns tios de Braga, por imposição paterna – afinal de contas, também tinha apenas 16 anos. À exceção dos pais e da madrinha - que veio de propósito de Lisboa, assim que soube da novidade – mais nenhum dos amigos de Lurdinhas a visitou no hospital. E foi a madrinha que, mais friamente, apontou uma solução temporária para o problema.  Com as aulas e os exames do 11º ano finalizados, nada impedia Lurdinhas e o bebé de irem passar uma temporada com ela à capital, pelo menos até os ânimos acalmarem. Ela própria tivera de abandonar a sua terra natal em tempos idos, pois a alternativa de ficar acarretava aturar um marido doidivanas, que gastava tudo o que ganhava com as suas múltiplas aventuras e ainda lhe ia à carteira ou à conta bancária, quando o dinheiro faltava.

A família aceitou a oferta, agradecida. Mas a solução temporária tornou-se definitiva, durante os anos seguintes – Lurdinhas conseguiu encontrar um emprego em part-time e continuou a estudar em Lisboa, até acabar o curso universitário. Visitava os pais esporadicamente, mas estes eram mais assíduos nas viagens à capital, para reencontrarem a filha, o neto e aquela boa amiga, que tanto os ajudara.

Lurdinhas criou o rapaz e atualmente trabalha como professora efetiva numa escola lisboeta. Entretanto casou e teve mais duas filhas, vivendo com a família nos arredores da cidade. O filho viajou para Paris, onde realiza um estágio profissional. Este nunca chegou a conhecer o pai biológico, nem Lurdinhas voltou a encontrar Luis...

A 5ª fase da blogagem coletiva promovida pelos blogues da Luma Rosa, da Rute e da Rosélia, na série de "Amor aos Pedaços", desta vez com o tema "Reintegração". A história em si é baseada em factos verídicos, a partir de duas ou três do mesmo género que conheci. Casos mais comuns do que se supõe...

domingo, 24 de junho de 2012

OS VÁRIOS FINAIS...

Lembram-se deste texto, onde se convidavam os comentadores a tirar as suas próprias conclusões e, se assim o entendessem, a contribuir com um final? Então, aqui estão eles, pela ordem de chegada:

Maria:
"Ela descobriu no computador do marido que ele tinha organizado umas férias surpresa para toda a família, umas férias que seriam do agrado de todos, até do dela...sentiu-se traída, não só por ele ter escondido isto dela, como também pelo 3 meses que perdeu a organizar as férias desse ano, ao mais pequeno pormenor, como fazia todos os anos, desde que casaram..."

"Se a traição é a que imagino, a estória acaba com ruptura completa e assumida."

"Pois se antes os fantasmas do passado a assombravam, não mais! Amanhã novo dia, mais livre e solta, poderia rever seus planos e agir conforme sempre quis."

"De alguma forma, a vida sempre segue, e todos viveram felizes para todo o sempreeeeeeeeee!!"


Moyle:
"Quando ele voltou, o confronto. A desilusão dela cortavam-lhe a palavra a ele. Antes de explicações o cisão absoluta, inabalável e unilateral.

Talvez ele não devesse ter mantido segredo. Uma relação constrói-se na confiança e na franqueza. Mas também descobrira que tinha aquela filha, de uma noite de maluqueira na última semana das férias grandes antes do ano de caloiro, havia poucos meses.

O despeito da esposa, a quem jurara amor eterno, não lhe permitiu ver naquelas fotografias de uma rapariga de 20 anos e, sobretudo, naquelas mensagens de e-mail mais do que luxúria, quando de amor paterno se tratava."

A maioria prefere um final feliz! Mas isso não quer dizer que, com as voltas que a vida dá e os enganos e tropeções de caminho, não se possa começar de novo e até ser mais feliz, seguindo um outro rumo... (era para colocar aqui a música da Simone, tema da série "Malú Mulher", mas hoje é o YouTube que está de birra... fica para outra ocasião!)

Obrigada a todos pela participação!

Imagem do facebook.

sexta-feira, 15 de junho de 2012

QUESTIONAMENTO


Naquele sábado, pôs fim a todas as hesitações que se agigantavam na sua cabeça há muito tempo... talvez até demais! Mas já não conseguia controlar os pesadelos constantes que lhe atormentavam as noites e lhe ensombravam os dias, sem nenhuma certeza do que era sonho ou realidade!

Aquilo que se preparava para fazer parecia-lhe uma traição. Contudo, a ocasião era única, com a ausência dos filhos e do marido: os rapazes de férias com tios e primos, ele numa viagem a Paris, para uma reunião de negócios importante e inadiável. O silêncio ecoava entre as paredes da casa vazia, também não haveria lugar a surpresas de última hora...

Pôs uma música suave a tocar na aparelhagem e abriu uma garrafa de vinho branco, que pusera previamente a refrescar no congelador. Bebeu um pequeno gole da bebida, num travo fresco e frutado, embora ligeiramente amargo. Sabia de antemão que não ia resistir àqueles olhos negros que cintilavam de longe, como se chamassem os seus braços na sua direção, sopesando a força dos verdadeiros sentimentos.

Timída, tocou-lhe de leve na capa escura, retirando-a dos seus ombros. Insaciáveis, os seus dedos procuravam tocar na tecla exata, sem perder tempo com pormenores desnecessários, mas desvendando cada segredo daquele corpo...

Três horas depois, fechou a tampa negra e brilhante do computador portátil, que o marido esquecera em casa durante aquela reunião de fim de semana. E teve a certeza que a maior traição... não era a dela!

Deitou-se e adormeceu de seguida, sem sombra de qualquer pesadelo!

§ único – Esta estória acaba aqui? Depende de quererem (ou não) dar-lhe um outro final, que poderão acrescentar na caixa de comentários...  Escolha múltipla, topam?
 
Trata-se  da quarta e última blogagem coletiva da série "Amor aos Pedaços", iniciativa conjunta dos blogues da  Luma Rosa, da Rute e da Rosélia. Parabéns a elas, por motivarem tanta gente a escrever sobre amor... ainda que aos pedaços! 

BOM FIM DE SEMANA!
Imagem do facebook.

terça-feira, 15 de maio de 2012

ESPERANÇA


Fotografia de Ian Britton

Tantos anos vividos na demanda de um “príncipe encantado”, para chegar à conclusão que afinal tal personagem não existia? Eram apenas rapazes e homens de carne e osso, com as suas qualidades e defeitos, como ela própria, muito longe de qualquer magia ou fidalguia...

No dia e hora em que percebeu que esses heróis estavam reservados para os contos de fadas, sentiu-se livre! Esqueceu deceções, ciúmes, mentiras, deslealdades e traições, passou a viver a vida como cada momento fosse o último. Talvez a inesperada morte do pai e a da avó, poucos meses depois, tivessem contribuído para esse modo de estar. Certo é que as noites eram tão longas quanto os dias, em danças, contradanças e copanadas, até o sol raiar! O cometa Halley teve influência nesse comportamento estranhamente desvairado? Ainda está por apurar, mas loucura era, de certeza!

A irmã e a maior parte dos amigos mais antigos casaram, alguns tiveram filhos, ainda os encontrava de vez em quando. Já não tinham a mesma pedalada para as noitadas, nem as conversas sobre fraldas e afins lhe interessavam por aí além, mas gostava de os rever, embora já a considerassem como a “solteirona” de serviço...

Os convites para casamentos não faltavam e, no de uma dessas amigas de longa data, ali para os lados de Azeitão, reencontrou quase todos. A cerimónia religiosa (em que o padre proibiu os noivos de se beijarem no final, porque “na minha Igreja, não!”) e o copo d'água que se seguiu proporcionaram-lhe momentos de agradável convívio. Até que a páginas tantas, um ex-namorado (já casado) a arrastou pela sala, para ir passar a mão na careca de um tio da noiva que, segundo rezava a lenda, era prodigiosa para arranjar casamento rapidamente. Recusou, mas o tio garantia que sim, que resultava e não se importava nada, e incentivada por outros amigos em redor, lá fez o papelão mais humilhante da sua vida. (perdoou tudo a esse ex, menos essa humilhação!)

O cometa já tinha desaparecido do horizonte, as noites já não eram tão longas e também serviam para dormir, o trabalho obrigava a esse descanso. As férias eram passadas em Caminha, num pequeno apartamento familiar. Nesse mesmo ano, em que decidira cultivar mais a amizade do que qualquer perspetiva amorosa, rumou ao norte conjuntamente com outra amiga solteira. Nem se lembram como, mas tiveram conhecimento de uma tradição local, em que bastava pôr uma velinha numa capela específica, para o casório estar à vista. Riram e gostaram da ideia: mal não fazia, de certeza! E lá foram as duas depositar uma velinha nesse altar, apesar da fé diminuta...

E não é que resultou... para ambas?

"Esperança" é o terceiro tema da blogagem coletiva da série "Amor aos Pedaços", numa iniciativa conjunta dos blogues da Luma Rosa, da Rute e da Rosélia.

domingo, 15 de abril de 2012

DESENCANTO


Fotografia de Ian Britton
Saiu do tribunal apressada, mas, apesar da sensação de alívio, sentia uma pedra dura dentro do seu peito. O advogado do processo de divórcio acompanhou-a ao carro, numa lengalenga sobre recursos, trâmites em julgado e mais uma parafernália de termos jurídicos complicados que nem sequer entendia. Como pudera ser tão enganada?! Despediu-se do jurista com um aperto de mão, prometendo telefonar em breve, entrou no veículo cinzento metalizado e ligou a ignição. Rumo à planície alentejana, a terra que a vira nascer e crescer...

Apaixonara-se pelo marido (agora ex) logo no primeiro encontro, após alguns meses de troca de mensagens via Internet. Como professora do primeiro ciclo, a sua vivência era essencialmente casa e trabalho, mais rodeada de crianças e mulheres que outra coisa. Alberto era alguns anos mais velho, mas possuía todos os predicados que sempre desejara no seu “príncipe”: bonito, inteligente, simpático e agradável, além de empresário de sucesso, só tinha pontos a favor. Excetuando o pouco tempo disponível para namorar, com negócios que desenvolvia em vários países e múltiplas viagens, parecera-lhe perfeito, sorte fora encontrá-lo. Casaram!

Os primeiros anos de vida em comum tinham sido de paixão - ou assim ainda o julgava - apesar de ele não estar sempre presente. Como não estivera no nascimento do primeiro filho. Nessa altura resolveram que ela deixaria de trabalhar durante uns tempos, para acompanhar o desenvolvimento do bebé. Dois anos depois nascia o segundo e ela continuou em casa, um apartamento de luxo numa torre das melhores zonas de Lisboa, com todas as mordomias de uma empregada diária, que tratava das lides domésticas. Porém, o marido ausentava-se cada vez mais, passavam semanas em que nem sequer o via, incluindo sábados e domingos. Ele repetia que era a crise que o obrigava a uma maior competitividade e ela não tinha razões para duvidar. Mas notou o facto de ele já não a procurar na cama, invariavelmente tinha dores de cabeça ou adormecia. Apesar das suas várias tentativas de tornar o ambiente mais romântico, com jantares à luz das velas ou uma lingerie mais diáfana e sedutora na hora do deitar...

Estacionou frente à vivenda do pai, onde agora vivia, e entrou. O silêncio ecoava naquelas quatro paredes - o pai certamente ainda estaria no emprego, os filhos talvez já tivessem saído da escola, pois a tia Eunice ficara de os ir buscar, só a esperavam depois do jantar. Tomou um duche rápido, mudou para uma roupa mais leve e informal e decidiu ir até à cidade, onde comeria qualquer coisa numa esplanada. Afinal até estava com fome, não tinha conseguido almoçar com o nervosismo da audiência que a esperava. Lágrimas já gastara todas nos últimos anos, decidira que jamais voltaria a deitar uma por Alberto!

- Emília, és mesmo TU?! - exclamou uma voz entusiasmada à frente dela, o que a fez levantar os olhos do livro que estava a ler. Reconheceu a antiga amiga e colega de escola e, tímida como sempre, sorriu. Mas Filomena não era dada à timidez e, assim que percebeu estar certa, quase a içou da cadeira da esplanada num enorme abraço, enquanto lhe pespegava sonoras beijocas nas bochechas. Depois desabou na cadeira ao lado e, em ritmo ininterrupto, foi exclamando: “Que caloraça, quase me esquecia como junho é quente aqui em Portugal! Vou pedir uma imperial, também queres? Conta-me tudo, tudo o que tens feito! Ó faxavor, queremos duas imperiais e um pires de tremoços! Então, quais são as últimas novidades?”

Ligeiramente atrapalhada, Emília só conseguiu murmurar: “Divorciei-me hoje!” A amiga olhou-a espantada durante alguns segundos e acrescentou: “Quem foi o traste que se quis divorciar de ti? Conheço?” Acenou que não e, comovida com a confiança daquela amiga do passado, foi desenrolando a sua história, em traços largos. Partira para a capital para estudar e tornar-se professora primária, que tinha sido feliz no exercício da sua profissão, mas que se sentira muito só e com poucos amigos... E aí conhecera Alberto, mas ao fim de poucos anos de casamento o desencanto e a desilusão foram ganhando espaço e crescendo intimamente. Já não era possível ignorar a indiferença dele, para com ela e para com os filhos, que estava a criar sozinha. Mas,  dependente dele para todos os efeitos, não quisera prejudicar as crianças. Vivia praticamente isolada lá no alto da sua torre luxuosa, em redor dos filhos pequenos, sem a cabeleira da Rapunzel que lhe desse alguma esperança de ser salva – o seu príncipe estava desencantado!

Tímida e submissa como era, nunca antes tinha pensado resistir às vontades do marido, mas naquele dia disse-lhe que não, que tinha outro programa diferente do que ele estipulara – tinha marcado um lanche com antigas colegas da escola em que lecionara, pois era o aniversário de uma delas. Ele zangou-se, mas ela saiu à mesma. Quando já estava na garagem e se preparava para entrar no carro, ele surgiu por trás dela, agarrou-a por um braço e gritou aos seus ouvidos: “Tu não vais a lado nenhum! Mas afinal quem manda aqui?” Tentou livrar-se daquela mão que a estava a magoar, o que só serviu para ele a apertar ainda mais. E, de repente, ele estava a arrastá-la na direção da arrecadação, empurrou-a lá para dentro e trancou a porta à chave do lado de fora. Gritou, esmurrou a porta, mas nada: ele tinha ido embora! A sua mala tinha caído no chão durante a refrega, não tinha sequer o telemóvel para pedir ajuda a alguém. Duas horas depois ainda lá estava, até que começou a ouvir alguns ruídos inusitados e a lâmpada da arrecadação apagou-se. Assustada, gritou a plenos pulmões por socorro, e, por fim, ouviu uma voz: “Está aí alguém?” “Tirem-me daqui, tirem-me daqui”, gritava completamente em pânico! A porta foi arrombada e ela saiu do seu cativeiro tão trémula, que teve de ser amparada pelos bombeiros até à rua. Não tinha notado o cheiro a queimado, mas facto é que um incêndio no primeiro andar do prédio motivara o aparecimento destes, que tinham desligado a eletricidade do edifício e apagado o fogo rapidamente. Mas um deles ouvira os seus gritos, através das saídas de ventilação da garagem, e resolvera indagar.

Era impossível saber quanto tempo o marido tencionara deixá-la trancada de “castigo”, mas estava longe de lhe dar nova oportunidade para tal. Chamou a polícia, relatou o ocorrido, os agentes tomaram nota do testemunho do bombeiro e ainda a escoltaram até casa, onde apressadamente encheu duas malas de roupa dela e das crianças – felizmente, o marido estava ausente! Depois de apanhar os filhos que brincavam com um amigo que residia na vizinhança, partira rumo à sua terra natal, onde sabia que o seu pai os receberia de braços abertos...

- Bolas! - exclamou Filomena – Esse gajo era um autêntico psicopata! E agora, que vais fazer?

Sorriu. "Vou criar os meus filhos e trabalhar! Mas casamento... nunca mais!"

Trata-se de mais uma blogagem coletiva - na segunda fase da série "Amor aos Pedaços", subordinada ao tema "Desencanto"- numa promoção conjunta dos blogues da Luma Rosa, da Rute e da Rosélia. Ah, e a história em si não é verídica, é um apanhado de várias histórias cruzadas, que infelizmente acontecem por aí...

quinta-feira, 15 de março de 2012

ENCANTAMENTO

Fotografia de Ian Britton

Tal como já tinha sabido da existência em múltiplos romances lidos e centenas de filmes visionados, aos 15 anos também eu sonhava com o meu cavaleiro andante, aquele que seria o amor da minha vida para todo o sempre... Não sendo eu princesa nem vivendo na era medieval, cedo concluí como provável que o meu “príncipe encantado” não fosse um nobre de sangue azul ou que me surgisse montado num alazão branco. Já se sabe que, não sendo ele possuidor dessas características, tornava-se muito mais difícil encontrá-lo!

Um dia, julguei saber quem ele era: tinha 15 anos como eu, era meu colega de turma no liceu e, desenganem-se desde já, não era lindo de morrer, nem o palhaço que as meninas tanto adoram, nem sequer um puto que se evidenciasse pela sua inteligência, cultura ou personalidade. De modo que não foi tiro e queda, não caí para o lado subitamente apaixonada à primeira vista! Na verdade, já nos conhecíamos desde os 13 anos de idade, altura em que entráramos na mesma turma e era igual aos outros, embora fosse dos mais baixotes e sardentos, alinhando no clube dos que preferiam jogar à bola do que conversar com as meninas. E nem aí se evidenciava por aí além...

À medida que ele foi crescendo e as suas preferências pelas futeboladas diminuindo, aconteceram dois ou três factos que nos aproximaram. Primeiro, calhou nas carteiras da sala de aula, enquanto tinhamos como professora de Ciências uma-parva-todos-os-dias, que embirrava com “aquele grupinho do fundo da sala junto à janela”, o seu candidato dileto à expulsão quase diária das suas aulas. O recreio maior até era motivo de alegria, mas já devido a um segundo facto importante– tinha acontecido o 25 de Abril! 

Outra coisa que tínhamos em comum era o caminho para casa, que percorríamos quase diariamente, a pé - para poupar o dinheiro do autocarro (nesse tempo ainda não existiam passes da carris) – com alguns colegas, pelo menos se não chovesse muito. As aulas terminavam às 7 da tarde e a balbúrdia da "hora de ponta" em Sete-Rios era enorme, com longas filas de espera nas paragens de autocarros. Vir a pé compensava também pela possibilidade de, no final, gastarmos o dinheiro num chocolate ou gelado, consoante o apetite de momento. 

Claro que durante esses recreios e caminhadas conversávamos muito e, no ano seguinte, ainda inventaram umas greves intermitentes na escola, pelo que os jardins da Gulbenkian passaram também a fazer parte dos nossos circuitos, onde conversávamos ou jogávamos às cartas com outros amigos. Nos dias de chuva recorríamos a uns matrecos manhosos na Calçada da Palma de Baixo ou a outro salão de jogos lá para os lados da Rua da Beneficência.

Não tinhamos os mesmo pontos de vista políticos – ele era militante da UEC- mas isso só contribuía para termos mais assuntos de que falar e até discutir. Sem nunca nos zangarmos, mesmo cada um ficando na sua. Era o amigo, o companheiro de todas as horas, divertido, simpático e brincalhão, sem deixar de ser cativante e sedutor – em suma, tinha descoberto o meu “príncipe"...  estava encantada!

Blogagem coletiva proposta por Luma Rosa, do blogue “Luz de Luma, yes party!”, subordinado ao primeiro tema “Encantamento” – de um conjunto de quatro a enquadrar em “Amor os pedaços”. Imagem de Luma Rosa.

sexta-feira, 2 de março de 2012

NO SKYPE COM...

... o representante dos Peixes de Todos os Oceanos (PTO), Felismino Águas Frias:

Felismino Águas Frias - Temos aqui um grande quiproquó a resolver, Teté!
Teté - Então, que se passa?
F.Á.F. - Como autêntica pisciana, a tua obrigação era escrever sobre março, o mês de todos os peixes, os mares mais calmos nesse hemisfério, a primavera que está a chegar... Já te esqueceste das palavras do poeta e que também é mês da poesia? "Março que ri, apesar das chuvadas, prepara em segredo a primavera"...
T. - Hei, calma aí! Nem tem chovido e pisciana só no signo do zodíaco: e todos sabem que não acredito nesses "esoterismos"! A que propósito é que devia cingir o que escrevo só a esses assuntos? Gosto de variar os temas, isso não faz de mim uma louca...
F.Á.F. - Achas bem dar relevo aos trapinhos daquelas mulheres, que só tentam imitar o charme piscinano,  o brilho da nudez das nossas escamas e a ondulação natural das nossas barbatanas? - para que não restassem dúvidas, ondulava nas águas azuis esverdeadas, como que ao sabor da música das marés.
T. - OK, elas são vaidosas! Mas olha que tu...
Parou a dança ritmada, repentinamente, e lançou a barbatana peitoral direita da direção da webcam:
F.Á.F. - Eu tenho razões, elas não! E aquela vergonha de confundires ordem decrescente com crescente, hein?! Qualquer peixe-miúdo aprende isso no aquarius básico... pfff! - as bolhas de ar saiam da sua boca com desprezo.
T. - Foi um erro, mainada! E de qualquer das formas escrevo sobre o que me apetece, não preciso da tua censura...
F.Á.F. - E como te apetece, já sei! Fui...

E não é que foi mesmo?! Mas pronto, mesmo lamentando qualquer erro de percurso, a vida segue em frente e desejo a todos um...

FELIZ FIM DE SEMANA!!!

Imagem da net.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

FAÇO MINHAS AS VOSSAS PALAVRAS!

No silêncio da noite, saiu uma mulher do botequim abraçada a um marinheiro, enquanto o homem de chapéu preto se desviou, para não esbarrar com ambos. "Puta de vida!" - exclamou ela, visivelmente embriagada. Filhos de ninguém, tal e qual como bonecos em ondas de desperdício, pareciam cruzar-se sempre naquelas calçadas portuguesas, sem que os pobres de espírito lhes vislumbrassem destino. Ismael - o homem do chapéu - tinha outra visão das estratégias de atração, a explicação do real parecia-lhe saída de uma página de Dickens...

Passara grande parte da sua vida a estudar e a ensinar, enfiado em bibliotecas, dançando com livros, onde aprendera banalidades... e coisas sérias! Gente era gente, ainda que desconhecida - havia que ter tanto respeitinho com o sr. arrumador como com o sr. administrador. Das longas cruzadas nos livros e das decisões inopinadas que nos fazem correr riscos desnecessários, descobrira pequenos truques para não julgar apenas pelas aparências. Contudo, tinha dificuldade em transmitir essa mensagem aos seus alunos. "Ser professor é, também, sentirmo-nos impotentes!" - sossegara-o um amigo.

Caminhava em direção à sua casa vazia, recordando ser aquele o primeiro aniversário da sua neta. Lamentava não lhe poder contar histórias de vampiros versus fadas, tal como fizera com a filha, mas viviam num país distante. E a banda desenhada - puro deleite! - quem a ensinaria a gostar? Mas não podia partir em viagens ao sabor da vontade, o ordenado e os horários de professor não o permitiam. Lembrava que a sua mulher murmurara "que coisa mais fofa" ao embalar a neta pela primeira vez. Naquela tarde chovia suavemente, mas o mundo parecia gritar: "Sei ser feliz!". Parou por uns momentos junto ao miradouro, como se na voz do Tejo reencontrasse as palavras simples da mulher que tanto amara. O último minuto, antes de qualquer partida, era doloroso, mais ainda quando não tinha regresso. "Vai ser complicado", constatavam os amigos, com solidariedade q.b. E fora! Ainda estava longe de alcançar a praia do esquecimento...

Retomara o passo, mas abrandou ao passar pela montra da livraria. No escaparate, um título prendeu a sua atenção: "Queria rever o teu rosto ao entardecer". Como era verdade! Porém, retomou o seu rumo, não sem se relembrar da frase de outro escritor,"na hora de pôr a mesa, éramos cinco", sendo o número irrelevante - a solidão tem o dom de ecoar em todas as paredes.

Ao contornar a esquina da sua rua, movimentada pelos turistas e pela taberna local, erroneamente apelidada de "Bom Garfo", discerniu o ronco da discussão entre os clientes habituais: "Piegas, a tua tia!" - reclamava um - "Olha aí a palhaçada!" - vociferava outro. O circo estava montado, para gaúdio da turista inglesa que comentara para o acompanhante "I'm lovin it! Very typical!" . Só acontece a quem anda... distraído! - concluíu.

Abriu a porta do prédio, subiu os vários lanços de escada e entrou na casa fria. Vestiu o pijama e, antes de descer a persiana, admirou a lua cheia refletida nas águas do Tejo. "No te digo adiós... te digo hasta siempre!" - sussurrou, fazendo suas as palavras de outros...

*******
Este selinho, que me foi atribuído pela Landa, será para todos aqueles que descobrirem neste pequeno texto os seus próprios títulos, já deste ano (regras para distinguir os blogues que mais lemos? não quero, nem gosto!):
 

*******

BOM FIM DE SEMANA E DIVIRTAM-SE!

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

UMA PROFISSÃO DE FUTURO...

Sentada à sua secretária, ela esboçava as primeiras linhas em traços largos, depois vincava os contornos e delineava os pormenores, colorindo os modelos de vestidos, saias, calças, blusas, casacos e jaquetas numa multiplicidade de tons garridos. À medida que ia avançando no trabalho, ia apreciando os seus progressos. Sabia que os seus esboços ainda não estavam perfeitos, teria de se empenhar cada vez mais.
A decisão de vir a ser uma grande estilista tinha sido a mais importante da sua vida: agora não podia desistir! Ao dar os últimos retoques àquele longo vestido vermelho, o seu preferido da coleção, imaginava-o envergado por uma elegante mulher de carne osso, a desfilar numa passerelle, enquanto o público aplaudia entusiástico e os flashs dos repórteres fotográficos disparavam incessantemente. No final, evidentemente, todas as modelos voltavam ao desfile e iriam trazê-la dos bastidores para a boca de cena, onde lhe entregariam um enorme ramo de flores e ela agradeceria emocionada a todos os presentes, no meio de uma nova saraivada de palmas e de flashs.
Nos dias seguintes todos os jornais e revistas - em particular, as de moda - divulgariam o enorme sucesso do acontecimento, suceder-se-ia uma chuva de convites para entrevistas ou apresentações televisivas, possivelmente até para algumas festas, onde muitos famosos do jet-set nacional e até estrangeiro marcariam presença...
A mãe entrou no quarto nesse preciso momento e interrompeu-lhe o devaneio. Ao mirar os desenhos espalhados em cima da secretária, perguntou, de sobrolho franzido: "Joaninha, não tens teste de matemática amanhã?"
Ela resolveu ignorar a pergunta e declarou: "Eu vou ser estilista!"
- Ah!!! Então vou-te inscrever num curso de costura...
- Costura?! Para quê?
A mãe sorriu à filha de 11 anos e rematou: "Sim, minha querida, porque tu nunca coseste sequer um botão! Ou julgas que não é preciso?"
(história vagamente baseada num episódio verídico)
.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

NO PALCO OU NO ESTENDAL?

Elizabeth não nascera em berço de ouro, mas sempre fora tratada como uma princesa pela mãe, Ernestina, que almejava para ela um futuro de rainha. Aliás, o próprio nome da bebé, de caracol loiro e olho azul, fora escolhido tendo em conta o da soberana inglesa. Para dar sorte!
Conheci-a na escola primária, onde ela se evidenciava pela sua longa cabeleira loira no meio de tantas crianças morenas, mas também pela sua inteligência, pelo seu porte e voz melódica. A escola era pública - possivelmente porque os pais não tinham posses para mais - mas já frequentava aulas de ballet e de canto. Possuía também um grande sentido de humor, por vezes maldoso. E os vestidinhos que usava? Cada um mais bonito que o outro, carinhosamente costurados pelas mãos de Ernestina, modista de profissão. E qual é a professora que não simpatiza com uma aluna que aprende rápido o que lhe ensina? Fomos amigas, nesses tempos, defendi-a sempre perante algumas invejosas...
Certo é que a vida dá muitas voltas e cada uma de nós seguiu rumos diferentes. Os pais mudaram de casa, perderam-se os contactos no bairro e os números de telefone. Tropeçámos uma na outra, já adolescentes e em plena época natalícia, na baixa lisboeta. Elizabeth ia carregada de sacos de compras. Resolveu descansar uns minutinhos e convidou-me para tomar um chá, numa cafetaria próxima do elevador de Santa Justa. Eram quase 5 da tarde! Escolhi um bolo com chantilly para o lanche, ela uma torrada sem manteiga. Preservar a elegância já custava naqueles tempos! A conversa decorreu amena e sem intervalos, a família dela estava boa e a minha também, contou que tinha entrado para o teatro, com um pequeno papel inicial, mas tinha esperança de melhor no futuro. Felicitei-a e prometi ir ver a peça, com os bilhetes que me ofereceu na altura, que nem me recordo como se chamava, sei que vi e não achei grande piada - os musicais revisteiros nunca me entusiasmaram... No entanto, constatei que também ali ela era a verdadeira estrela: secundária que fosse, o acesso ao camarim estava entupido de homens maduros. O meu pai, que me acompanhara ao espectáculo, é que não estava disposto a esperar na fila, ensonado q.b., após um longo dia de trabalho e uma noite de cantoria. Assim, limitei-me a rabiscar num papelucho uma mensagem de "gostei de te ver em palco e felicidades", que pedi a um funcionário dos bastidores para lhe entregar!
Apesar da sua fugaz carreira teatral, Lizzy, o seu apelido artístico, tinha chamado atenções suficientes e era convidada assídua de programas de televisão, onde apresentava, representava, dançava e cantava, consoante o mote. Continuava bonita, até mais deslumbrante do que na juventude, com curvas de mulher, uma voz mais maviosa, uma postura sinuosa, elegante e um pouco sobranceira. Simultaneamente, os convites para as festas frequentadas pelo jet set nacional multiplicaram-se, as revistas cor de rosa publicavam tudo o que lhe dissesse respeito - Lizzy nas festas, na praia, de férias, nas compras e todas as indumentárias que usara em cada ocasião.Até cair a bomba: ia casar! O noivo tinha o dobro da sua idade, sangue azul a correr-lhe nas veias, além de possuir vastas propriedades rurais no Alentejo. Por amor, repetiam ambos embevecidos diante das câmaras fotográficas! O casamento foi memorável, entre grandes destaques nas revistas ou a pequenas notas na imprensa dita mais séria - a aliança entre a elegância e a distinção aristocrática...
Entretanto, os anos passaram, nunca mais se soube nada da Lizzy ou da Elisabeth. Certo dia, numa breve visita ao bairro da minha infância, pensei que a via a uma janela, a estender roupa no estendal. Ainda me ria com a confusão, quando ela começou a cantarolar. Parei. Olhei melhor. Não queria acreditar! Especada no passeio do outro lado da rua, ela notou a minha presença. Acenei-lhe de longe, timidamente, e ainda na dúvida. E não é que ela me sorriu e acenou de volta?!

Fotografia de Vitor Fernandes, amigo bloguista e facebookiano,  e grande fotógrafo amador. Obrigada pela permissão, Vitor!
ps - para quem não sabe, vim verificar se a fauna e a a flora algarvia permanecem no mesmo lugar... por um curto período! Em descanso do estendal lá de casa, que nunca me faz cantarolar...

quarta-feira, 8 de junho de 2011

DO PONTO DE VISTA DOS PEIXES...

Artur, jovem e alegre conquistador, regressou de mais uma expedição, anunciando no seu mais alto gorgolejar: "Ei, malta, nem sabem o que se está a passar por estas marés!"

O grande cardume dos riscadinhos foram os primeiros a aproximar-se, sempre desejosos de conhecer e comentar as últimas novidades, com a curiosidade que lhes era tão característica: "Conta, conta!", pediram em uníssono.
Enchendo as guelras de ar, Artur não se fez rogado:  "Começou uma nova época balnear, os humanos estão de volta, até já avistei alguns por aí..."

Temerosa como sempre, a sua prima Vanda empalideceu brutalmente, parecendo prestes a desmaiar, mas pronta e delicadamente socorrida pelas suas amigas, ligeiramente estrábicas, sem saberem para que lado se virar...

O ancião lá do bairro dos Rochedos, franziu o sobrolho e vociferou com a raiva que lhe provinha da profundeza das suas tripas: "Mas é sempre a mesma coisa?! Estes humanos nunca mais aprendem que o seu território  é em terra e continuam a invadir o nosso?!"

"Bandidos, que nos atiram estrelas à nossa cara, fingem dar-nos de comer para nos esfolar e matar e ainda colocam armadilhas de rede nos nossos caminhos, para peixicídios nunca vistos antes do seu aparecimento! E ainda conspurcam as águas aos sobreviventes, como seres desprezíveis e vingativos que são!", continuava, exaltado, num discurso muito politizado...

"Ai, e ainda nos levam para aquários, aqueles espaços pequenos de rochas invisíveis, para ficarem a olhar para nós todo o dia, contou o meu avô. E depois ficamos cheios de saudades...", lamuriou um dos netos de Nemo. "Vamos mas é esconder-nos, mano!", decidiu o outro. "Pois, mas sabes o que o avô disse...", soou ainda audível através das bolhas que deixara para trás, enquanto os dois se afundavam nos ondulantes tentáculos da anémona.

"Esconder-me para quê? Basta encostar-me à rocha ou ao coral, que ninguém dará pela minha presença. Aposto que nem vocês todos!" Se o momento não fosse tão grave, haveriam certamente alguns dichotes acerca do filho de um coral, mas assim poucos lhe prestaram atenção...

Rei, assim se auto-denonimava aquela fera (sem que ninguém ousasse contrariá-lo), esticou as suas longas e coloridas barbatanas pejadas de espigões venenosos e mortais e avisou guturalmente: "Eles que venham, que estou preparado para os receber de barbatanas abertas..." Apesar do tom ameaçador, alguns risinhos nervosos foram inevitáveis!

Romeu e Julieta, apaixonados como sempre, não concordaram com nenhuma das decisões dos seus vizinhos de bairro, porque de lutas e contendas já estavam fartos, desejavam apenas viver o seu amor e partir para mares mais pacíficos. Com toda a serenidade foi isso que comunicaram aos habitantes dos Rochedos - que partiriam de férias para alto mar, zona muito aprazível e sossegada para passar a temporada. "E quando voltam?" indagou um dos riscadinhos. Entreolharam-se e responderam sorridentes e em coro: "Nas próximas marés vivas!"

ps - não sendo versada em ictiologia, as fotografias dos peixes foram escolhidas pelas suas formas e cores espantosas, das imensas imagens que existem no Google, sem qualquer pretensão de tentar verificar de que oceanos ou aquários são oriundos...

quinta-feira, 26 de maio de 2011

CARACOLADA!

Certo dia, lá para os finais dos anos 60 do século passado, uma vizinha resolveu organizar uma caracolada na casa dela e convidou alguns inquilinos do prédio. Como companheiras de muitas brincadeiras de rua, e não só, do seu segundo filho - o mais velho estava num colégio interno, não tenho a certeza se o último já era nascido - eu e a minha irmã lá fomos muito satisfeitas para a festa! Suponho que nunca tínhamos provado caracóis, mas não éramos muito esquisitas, comemos e gostámos. Apesar de super salgados e picantérrimos, para o nosso paladar da época.
Problema é que a acompanhar só havia cerveja. A minha mãe tinha-se desculpado do convite, porque o meu pai não gostava de caracóis (nem da vizinha, mas isso ela não disse!), e lá estivemos nós com cerca de 9/10 anos de idade, sem água ou sumos por perto, a compensar a sede provocada pelo picante com umas cervejolas. E não, não foram às dúzias ou sequer meia dúzia, certo é que às tantas já via a sala a andar à roda. A televisão emitia também um jogo do Benfica, o nosso amigo Zezinho mais interessado na bola que nas minhas tonturas, a minha irmã a achar que me estava  a armar aos cucos...
A sensação de bebedeira não passou - embora ninguém tivesse acreditado, com tanta agitação em simultâneo - e assim, foi com surpresa, que me viram cair para o lado quando a vizinha nos foi devolver à proveniência. Não desmaiei, só falhei no encosto da ombreira da porta! Levaram-me de imediato para a cama, chorava porque me doía o braço com que aterrara no chão, ria, em simultâneo, com todas aquelas caras incrédulas, a olhar para mim. Como é que era possível uma catraia de 10 anos embebedar-se? O meu pai estava alheado desta movimentação, sossegado a ver televisão e a ler o jornal na sala. Depois de me acalmarem de risos e choros, lá me fui despedir dele, avisada para não "dar bandeira", antes de adormecer, profundamente.
Certo é que nos tempos que se seguiram nem podia ouvir falar em caracóis, que o enjoo (ou a culpa) desse dia voltava para me assombrar. Voltei a comer alguns, poucos, com o meu primeiro namorado e com a minha amiga Ana. 
Agora, assim que abre a época, não falho! Felizmente, também já não caio para o lado com o cervejame. Como os tempos mudam, não é?

segunda-feira, 2 de maio de 2011

PEREGRINAÇÃO

Católicas fervorosas, as duas vizinhas combinaram ir a Fátima em Maio desse ano, em peregrinação. Uma já ultrapassara os 70, a outra andava lá perto. Raramente se ausentavam das redondezas do bairro lisboeta onde moravam, excepto em curtas férias à terra que as vira nascer. O calor apertava naquela Primavera, mas mesmo assim não desistiram do projecto, arrancaram de casa quase de madrugada. e puseram-se a caminho: seguiam movidas pela fé!
Após uma longa caminhada, chegaram a um restaurante famoso pela boa comida caseira, onde resolveram almoçar e retemperar as forças. Assim que entraram, afogueadas, suadas e já com os pés a reclamar do esforço, deram de caras com a nora de uma delas! Não tinham avisado ninguém das suas ideias peregrinas, de modo que a incredulidade e a surpresa do encontro foi simultânea. Esta saudou-as, mas  não se conteve e perguntou:
- O que é que estão aqui a fazer?
- Estamos a caminho de Fátima - respondeu a sogra, um pouco hesitante, perante o evidente espanto da nora, patente nos seus olhos arregalados. "Já viémos a pé desde Lisboa", acrescentou a amiga, com uma ponta de orgulho. O silêncio durou apenas alguns segundos.
- E o seu filho sabe disso? - as mulheres engasgaram e não deram resposta imediata, pelo que opinou - Certamente não vai gostar nada. Ainda por cima com esta caloraça, já viram?!
Apesar de preocupada com esta peregrinação, com vários compromissos profissionais agendados para aquela mesma tarde, não teve outro remédio senão despedir-se das senhoras, alertando-as para eventuais perigos (leia-se, dando-lhes uma ligeira "descasca").
Nunca se soube ao certo a conversa que se seguiu entre as duas crentes! Mas, depois do lauto almoço, apanharam a camioneta, em Vila Franca de Xira,  de volta a casa...

quinta-feira, 31 de março de 2011

MOMENTOS COR-DE-ROSA

"Há uns segundos breves, na vida de todos os dias que não padeçam de nevoeiro ou chuva, em que o Sol, no seu poente, como que acenando um derradeiro adeus em beleza, matiza céu e terra de cor-de-rosa.
É um instante fugaz, indeterminado, alheio ao mecanismo monótono dos ponteiros do relógio; mas, para aquele homem, que talvez fosse poeta, conquanto não soubesse fazer versos, esse momento cor-de-rosa na vida do mundo ocupava todas as horas do dia, antes na expectativa, depois na recordação."
António Victorino d'Almeida,  no conto "Um Caso de Bibliofagia", in "Os Devoradores de Livros"
Andava triste. Desalentada, sem saber porquê. Ou melhor, até sabia. Era aquela rotina, aqueles gestos diários e repetitivos, aquela mecanização do quotidiano em que se movia como um autómato. Um dia, outro e outro, todos em fila indiana, já eram tantos que lhes perdera a conta. Cumpria as suas tarefas sem ímpeto e sem garra, no final chegava à janela, indiferente, apenas para constatar que lá fora também  as tonalidades  pardacentas tomavam conta da rua, de quando em vez caía uma morrinha acinzentada. Sentava-se no sofá e abria um livro, para desistir da leitura poucas páginas volvidas. Ligava a televisão, mas no ecrã só desfilavam desgraças alheias até à exaustão, tanto reais como ficcionais. Fechava o aparelho e os olhos, apetecia-lhe dormir e só acordar noutra era planetária. Não adormecia.
Naquele fim de tarde folheava um álbum de fotografias à toa, quase sem reparar nas imagens. E foi nesse exacto instante que decidiu sair do remanso do sofá e agir. Dirigiu-se ao armário e tirou de lá a caixa escondida no fundo da prateleira. Hesitou ainda uma fracção de segundo, antes de levar o primeiro aos lábios. Voltou para o sofá, onde se estendeu, indolente, cerrando novamente os olhos. E, com a embalagem ainda firme na mão, foi colocando um a um na boca, como se fosse um ritual...
Adormeceu, finalmente! Pairava-lhe um leve sorriso nos lábios entreabertos, de onde pendia um fio de baba castanha que pingava no tapete, exactamente em cima dos bombons "mon chérie" que tinham sobrado...