quinta-feira, 17 de março de 2011

CERROMAIOR

Foi por coincidência que peguei em "Cerromaior", de Manuel da Fonseca, logo a seguir ao "Livro" de José Luís Peixoto, já que há muitos anos me piscava o olho da prateleira. Obviamente não vou comparar os dois, nem tenho conhecimentos para tal, mas quase pareceu uma sequela - ambos descrevem terras alentejanas, parcialmente na mesma época, com a realidade das gentes que por lá passaram ou viveram. E  ambos com um leve toque de poesia, em algumas passagens, como esta: 
"Lá fora, a vila despegava-se da planície como uma paisagem de sonho. Decerto, em qualquer lado, algum menino ensonado mexia os dedos e falava coisas sem nexo. Vila quieta, debruçada no sono, adormecida antes de os olhos se fecharem."
Adriano está preso na cadeia da vila, mas tem liberdade de se movimentar durante o dia fora da sua cela, quando percebe que há qualquer coisa de errada com outro prisioneiro, louco, que em mais uma crise de loucura grita espavorido, enquanto os restantes presos protestam pela falta de sossego. O guarda prisional vem quando Adriano o chama - tratando-o respeitosamente por senhor - para ambos encontrarem o corpo de Doninha sem vida. 
Este primeiro capítulo é na verdade o último, porque o escritor volta para trás no tempo, para descobrirmos porque é que o jovem estudante voltou à terra natal, interrompendo os estudos em Lisboa, para ali ficar orfão de pai e mãe, aos cuidados de uma avó velha e lamurienta, enquanto os primos tomam conta das terras de cultivo da família, com mão de ferro. Ainda é menor e o pai deixou dívidas por pagar. "O tio e os primos conservaram sempre a mesma expressão carregada e foram unânimes em afirmar que os tempos iam maus, Adriano que esperasse - logo que as coisas melhorassem voltaria aos estudos". Eram os principais credores.
Mas ao longo das 209 páginas deste livro as histórias desenrolam-se em torno dos ceifeiros do campo, Maltês e Toino Revel, do carteiro Doninha a quem "provisoriamente, meteram na cadeia", da Antoninha "de olhos fixos e tristes", do intriguista Abílio Rocha, do prepotente Carlos Runa, entre tantos outros que rodeiam o taciturno Adriano, na sua vivência monótona entre o largo principal, a taberna e o grémio, à deriva sem nada que fazer, para lá de algumas bebedeiras, caçadas e desejos libidinosos... 
Este primeiro romance de Manuel da Fonseca, publicado em 1943, não precisa de elogios de ninguém. Fala por si! 

12 comentários:

  1. não penses assim!
    não deves acreditar em coincidências porque tudo acontece na vida por algum motivo 8-}

    ResponderEliminar
  2. Tens razão, VÍCIO, às vezes o esoterismo passa-me ao lado, tenho de ser mais crédula nessas explicações iluminadas!!! =))

    ResponderEliminar
  3. Era de facto um grande escritor.

    ResponderEliminar
  4. Bem-vind@, TEONANIZI!

    Era e ainda é, enquanto o lermos com vontade de chegar à última página... :)

    ResponderEliminar
  5. Eu preocupava-me era em chamar um exorcista. É que isso de ter livros na prateleira a piscarem-te o olho...

    Beijocas!

    ResponderEliminar
  6. Será, RAUF?! Até lhes desculpo essas atrevidas piscadelas de olho, quando se seguem momentos prazeirosos... :D

    Beijocas!

    ResponderEliminar
  7. Os meus livros também me têm piscado os olhos mas acho que devem ter glaucoma, ou assim, por isso nem ligo :)

    ResponderEliminar
  8. Continuação de boas leituras Teté :h

    Beijinhos :)

    ResponderEliminar
  9. Pois, se tivessem cataratas não piscavam o olho, MOYLITO: jorravam para cima de ti!!! :))

    ResponderEliminar
  10. Não, ANA! Já te respondi a isso no outro lado... :D

    ResponderEliminar
  11. Obrigada, CAPRICHO, e boas leituras também para ti! :)

    Beijinhos!

    ResponderEliminar

Sorri! Estás a ser filmad@ e lid@ atentamente... :)