segunda-feira, 22 de novembro de 2010

MATARAM O SIDÓNIO!

Este romance de ficção de Francisco Moita Flores baseia-se em factos verídicos da História de Portugal, nomeadamente no assassínio de Sidónio Pais a 14 de Dezembro de 1918 na Estação do Rossio, fundamentado  num documento impresso em 1921 e assinado por Asdrúbal d'Aguiar - a autópsia do Presidente e os exames periciais do vestuário e da arma (supostamente) utilizada. Lançando uma nova luz sobre o trágico acontecimento.
Ao longo de 291 páginas, o escritor revela a dura realidade que se vivia na época, numa Lisboa enlutada tanto pela morte de cerca de 7 mil soldados portugueses na batalha de La Lys, durante a I Guerra Mundial, como pela pandemia gripal denominada "espanhola" (antecessora do vírus H1N1), que matou à volta de 100 mil cidadãos no país. "Aquele ano de 1918 fora parido nas entranhas do sofrimento. Nunca tantas lágrimas escorreram pelos rostos de Portugal inteiro. Sidónio quisera dominar com algemas e cárceres os protestos dos opositores, e choravam mulheres e filhos o cativeiro dos seus homens, da Flandres soprava o vento gélido de uma guerra medonha, feita do lamaçal das trincheiras, onde as balas matavam menos do que a sífilis e o tifo, a tuberculose e a pneumónica. La Lys não foi a batalha de todos os prantos."  Ao perfil autoritário do presidente, que incendiava ódios e paixões, aliava-se um povo analfabeto e ignorante - "Disse ao Félix, que lá está, para pôr um aviso em letras grandes na porta: NÃO SE ENCONTRA AQUI O CORPO DO PRESIDENTE DA REPÚBLICA. Mas não teve efeito nenhum. A esmagadora maioria não sabe ler e tem sido uma manhã de doidos!" - e uma polícia que só conhecia um único método de investigação criminal: torturar os suspeitos até eles confessarem! "E aquilo que mais o surpreendia era a indiferença com que os juízes, perante hematomas e equimoses, por vezes ferimentos profundos, decidiam o caso sem que passasse pela cabeça de algum fazer a simples pergunta: «Como é que isso lhe aconteceu?»".

Para não destoar do ambiente explosivo, lanço a BOMBA! (leia-se, divulgação do final!) Portanto, se estão interessados na leitura do livro, PAREM POR AQUI!
A conclusão é simples: ao contrário do que foi divulgado nos jornais da época, baseados em fontes testemunhais e policiais, não foi José Júlio da Costa quem matou Sidónio Pais. O homem encontrava-se presente no local, confessou e negou várias vezes o crime, descobriu-se mais tarde que sofria de esquizofrenia. Nunca foi julgado, embora permanecesse preso durante largos anos, finalizando os seus dias internado no Hospital Miguel Bombarda. E como se prova esta conclusão? Através da autópsia e restantes exames periciais! Aliás, nem o Presidente proferiu a célebre frase: "Morro, mas morro bem. Salvem a Pátria!", como os que o rodearam testemunharam - os ferimentos infligidos não eram de molde a permitir-lhe falar... (Moita Flores também desenvolveu esta temática na sua tese de doutoramento, pelo que a conclusão não é de todo desconhecida nos meios académicos, o que certamente gerará polémica entre historiadores.)
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No Clube de Leitura houve unanimidade - todas gostámos! A próxima sessão está marcada para dia 15 de Janeiro de 2011, com "Marina", de Carlos Ruis Zafón.

14 comentários:

  1. Sabes que o meu bisavô esteve nessa batalha de La Lys? Sobreviveu e foi feito prisioneiro pelos alemães.

    Beijoca!

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  2. Sorte a dele, RAFEIRITO, porque parece que em terras lusas a mortandade era maior... (nem se faziam prisioneiros!) ;x

    Beijocas!

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  3. eu tenho certeza que não fui eu! por mim até podia haver actualmente sidonios netos...

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  4. morreu e morreu bem. ditadorzecos (com estima ou sem estima dos poetas são sempre ditadorzecos) morrem sempre bem. normalmente tarde demais. este foi a tempo.

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  5. Apesar de me parecer interessante com a lista de livros pendentes não sei se terei oportunidade de o ler. Como tal, li o ultimo paragrafo e assim já soube o final da historia ehehheh. Bem é grave quando uma esquizofrenia só detectada depois da morte do individuo…
    Beijos.

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  6. Morro, mas morro bem. Salvem a pátria!
    Está tudo dito, mesmo não tendo a certeza do seu algoz
    Beijinho Tété

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  7. Ainda não li, mas li um outro sobr o mesmo tema do Alberto Franco, de que gostei muito.
    De Carlos Ruiz Zafon sou fã.

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  8. Não foste, VÍCIO? Hummm... acho essa tua atitude muito suspeita, já que não te acusei de nada! =))

    E sim, devem existir prái uma data de Sidónios netinhos, já que ele teve 5 filhos! :D

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  9. Tens razão que os ditadorzecos normalmente morrem tarde demais, MOYLITO! Mas o assassínio de um também não costuma impedir a chegada do seguinte... :s

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  10. Eheheh, PSIMENTO, ainda duvidei se punha aqui o final, mas também sei que muitos passam e dizem "muito interessante, vou ler, etc. e tal", e não lêem coisíssima nenhuma! E o que o livro tem de mais fascinante é precisamente essa reviravolta na história da nossa História, que afinal não foi bem assim... :))

    A esquizofrenia foi coisa que ninguém quis ver na época em que o incriminaram, não sei se posteriormente foi detectada, suponho que sim, por ele ter morrido num hospital psiquiátrico. Embora sem certezas, o escritor inclina-se para que o autor do crime fosse um dos indivíduos mortos a tiro no local (além de Sidónio morreram mais 4 pessoas e ainda houve vários feridos). ;)

    Beijocas!

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  11. Será que está, KIM??? :D

    Do algoz não há certezas, mas pronto!

    Beijocas!

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  12. Tenho de ver se encontro esse de Alberto Franco, CARLOS BARBOSA DE OLIVEIRA, até para verificar se as conclusões coincidem... :)

    Gostei muito da "Sombra e o Vento", o segundo desiludiu-me um bocado. Este é anterior aos dois, mas só recentemente foi publicado em Portugal! Depois conto... :D

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  13. sim, sim. verdade seja dita, tens bastante razão...

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  14. No caso, surgiram vários substitutos, uns mais despóticos que outros, até que se instalou no poder aquele saloio de Santa Comba Dão... ~v

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Sorri! Estás a ser filmad@ e lid@ atentamente... :)