sexta-feira, 5 de novembro de 2010

CAMINHAR ENTRE GENTE

Fotografia de Ian Britton

Então ontem, após mais um banho de gel, resolvi regressar a pé para casa - sim, porque com as enormes chuvadas a carripana meteu água, não me apeteceu conduzir um lago ambulante. O percurso não é longo, nos tempos de liceu (até mais distante) fazia-o diariamente, conhecia cada estabelecimento comercial como a palma da minha mão. Como o Natal está a chegar, dar uma espreitadela às montras não me pareceu má ideia, inclusivamente antevendo os presentinhos da época.
A tarde fantástica de céu azul e temperatura amena convidava ao passeio, mas do dito comércio tradicional reconheci muito pouco: o bazar do senhor Jorge (será?) cheio de flores artificiais à porta e uma vitrina com tampos de sanita baratos - que rica prenda, hein?; uma sapataria que permanece incólume, com um aspecto limpo arejado; a de electrodomésticos idem; três mercearias que exibem maçãs vermelhas, dióspiros laranjas e uvas verdes (brancas onde?) em escaparates à porta, que prendem a atenção dos transeuntes pelo colorido e pelo ténue aroma - numa delas, o empregado cumprimentou-me; as farmácias modernizaram-se e as padarias têm um ar mais asseado do que antigamente. 
Mas tudo o resto?  As lojas que sobreviveram ao tempo parecem escuras, feias ou até sujas, com as montras atravancadas de objectos de gosto muito duvidoso, que nunca viram um espanador em cima. No pronto a vestir, por exemplo, impera uma moda do género que a minha mãe seria capaz de usar há 30 anos. As que desapareceram deram lugar a estabelecimentos de comes e bebes, algumas com pomposos nomes de pastelaria ou cervejaria, mas que tresandam às tascas antigas - cheiram a vinho e a fritos gordurentos quando se passa por perto, com poucas excepções! Evidentemente também não faltam lojas de chineses ou indianos, sendo que essas são indefinidas em relação ao ramo de comércio. A escapar à "regra" só uma de bicicletas, mesmo que a maioria dos residentes na zona já tenha pouca pedalada para essas andanças!
Fica sempre a dúvida de como o comércio tradicional quer competir com a enorme e poderosa concorrência se não faz nada por se modernizar. O que resta e agrada é aquela convivência rotineira, de pessoas que se conhecem e param para cumprimentar ou trocar algumas palavras, tratando-se pelos nomes próprios, como reminiscência de uma velha aldeia perdida no mapa do tempo...

BOM FIM DE SEMANA!

16 comentários:

  1. Claro que se o comercio tradicional se modernizasse um pouco ganhariam muito mais.
    Mas como acham que tradição significa estagnação.....eles vão ficando parados .... e depois reclamam.
    Mas diga-se de passagem ( e para mim que detesto centros comerciais) o comercio tradicional deixa neste momento muito a desejar...nem o atendimento personalizado já é o que era.....
    Bom fim de semana para ti também.

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  2. esqueceste-te da parte em que tiraste uma maçã e fugiste ou não o fizeste? :D

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  3. Comentarei depois.

    Agora passo apenas para te dizer que vai haver algo para ti no "ematejoca azul".
    Passa por lá, por favor, mas SÓ amanhã!!!

    Abraço e bom fim de semana.

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  4. Pego num exemplo aqui bem perto, a Rua de Cedofeita. É uma das mais tradicionais ruas comerciais do Porto onde se misturam lojas seculares, pequenos negócios de família, outras de exploração multinacional, pronto a vestir, pronto a comer, pronta a servir. A rua tem sempre movimento, os comerciantes mantêm as montras apelativas, há de tudo um pouco, só que está sujeita ao senhor tempo, os popós têm que ficar longe, à noite a calçada é quase deserta e porquê? Porque foram todos passear para o shope!

    Saio a pedalar. Bom fim-de-semana.

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  5. Casos há em que até se pode conjugar o antigo com o moderno, mas isso implica uma obra de engenharia pensadora que muitos não alcançam.
    Mas olha que, às vezes, esse tipo de passeio que fizeste, desperta-nos para uma realidade que já não lembrávamos.
    O Natal breve, vai tudo fazer esquecer.
    beijinho

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  6. O comércio tradicional efectivamente não foi morto pelos centros comerciais. Decidiu fazer Hara-Kiri recusando modernizar-se e recorrer aos fundos de apoio que foram postos à sua disposição a juros baixíssimos. Sendo assim, têm a sorte que merecem.

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  7. Não há nenhuma que venda tordos fritinhos com alho, no pão? Bolas que já não há tascas como antigamente. Eu já nem as mesmas ruas, que calcorreava muitas vezes, quando o tempo estava bom e preferia guardar o dinheiro das passagens para berlindes, piões e outras consolas de jogos do meu tempo, como o arco e gancheta ou, ena ena, a bola de catchú, dizai, as ruas não são as mesmas, as lojas não são as mesmas, as pessoas não são as mesmas, os perigos não são os mesmo e nem tudo, obviamente para pior, mas que causa nostalgia, isso causa. Um beijinho.

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  8. Tens razão, PARISIENSE! Até no atendimento alguns comerciantes ficaram estagnados e parece que estão a fazer um frete... mas muitos ainda fazem a diferença para os centros comerciais! :)

    Beijokitas!

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  9. Ná, VÍCIO, felizmente o alheio não se me cola aos dedos... :D

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  10. Já passei por lá HOJE, EMATEJOCA, mas possivelmente só sairá mais tarde! Fico a aguardar... :-/

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  11. Bom, o estacionamento por aqui também não será o melhor, PAULOFSKI, mas não estou a falar das ruas da Baixa, mas sim da Estrada de Benfica, que não é propriamente no centro de Lisboa. Mas que continua a ter imenso movimento, até porque é lá que passam e param a maioria dos autocarros da zona...

    O Centro Comercial Colombo fica relativamente perto (bem como outros centros comerciais mais pequenos), mas acredito que muitos raramente lá punham os pés, se a oferta do comércio tradicional fosse mais atraente. ~s

    Boas pedaladas para ti!

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  12. Em parte é mesmo esse o problema, KIM! Os comerciantes envelheceram, não sabem e nem querem fazer as coisas de outra maneira, com aquela sensação de que por estarem no local há muitos anos têm de ter a preferência dos clientes. Acontece que estes também morrem e mudam, nestas coisas não há lugares cativos... :)

    E com o Natal até a diferença se nota mais nas montras, ainda há quem cole algodão nos vidros a dizer FELIZ NATAL com letras estranhas e tortas... :))

    Beijinhos para ti!

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  13. Por acaso também acho que foi mesmo um hara-kiri, CARLOS BARBOSA DE OLIVEIRA! Mas, quer dizer, para melhorar o 'look' das montras bastava dar uma volta pelos centros comerciais, apanhar algumas ideias, e adaptar ao local - talvez não tão bem conseguido como os profissionais, mas já dava para cativar um pouco mais... :))

    Nada! Ficam à espera que já nem dê para manter a porta aberta... ~xf

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  14. Eheheh, com essa fizeste-me lembrar o meu cunhado, PREDATADO, que em adolescente também comia umas sandes de molho de carne assada, que eram mais baratas! :D

    Mas sim, também vinha a pé, porque o bilhete do eléctrico ou do autocarro dava para comprar um gelado ou chocolate, consoante as estações do ano e o que apetecesse mais... :z

    A nostalgia existe, é certo, mas ao mesmo tempo uma ligeira irritação por esses comerciantes não terem sabido defender o seu negócio, limitando-se a lamuriar e a cruzar os braços... :n

    Beijinhos!

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  15. alguns comerciantes agarraram-se a uma ideia cristalizada, embora muitas vezes errada, de que o comércio tradicional era mais próximo das pessoas. na realidade, os centros comerciais apostam mesmo nisso, com funcionários a oferecerem ajuda e a acompanharem os clientes - rai's partam os chatos - ao contrário de alguma antipatia de muitos donos destas lojas pequenas.

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  16. Pois, MOYLITO, também tenho a vaga sensação que alguns não se souberam renovar, atirando as culpas aos centros comerciais e aos hipermercados em tom de lamúria, e como estão aborrecidos com a situação também atendem os clientes de cara feia... e ainda se admiram que eles não voltem! Pescadinha de rabo na boca... :[

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Sorri! Estás a ser filmad@ e lid@ atentamente... :)