quarta-feira, 24 de abril de 2013

DEPOIS DO ADEUS

A série televisiva - não a música, que foi senha para as Forças Armadas avançarem na noite de 24 para 25 de abril de 1974 (que ganhou o festival da canção nacional nesse ano, na voz de Paulo de Carvalho) - tem muito que se lhe diga. As diversas opiniões que li ou ouvi sobre a série são muito díspares, não tanto devido ao conteúdo ficcional, mas mais do ponto de vista histórico...

"Conta-me como foi" retratou o dia a dia de um povo, centrado numa humilde família citadina, entre 1968 e 1974. Segundo creio, a série foi baseada numa congénere espanhola e devidamente adaptada à realidade portuguesa. A melhor série portuguesa que vi nos últimos anos! Já "Depois do adeus" teve de ser escrita de raiz, pois não existe paralelo com Espanha nos anos de 74/75. Ora traçar as linhas gerais da História de um país em pleno processo revolucionário não é tarefa fácil para ninguém, muito menos quando ainda há tanta gente com memórias bem vivas desses dias e de caminho ainda se pretendem realçar uns romances.

Facto é que o país da época não tinha capacidade para acolher o meio milhão de pessoas que regressaram das ex-colónias, nesse curto espaço de tempo. "Descolonização exemplar" não foi de certeza, por muito que alguns políticos insistissem nessa designação - bastava ter olhos para ver a quantidade de gente (homens, mulheres e crianças de todas as idades), que praticamente só com a roupa que trazia no corpo e pouco mais, pernoitou dias a fio no chão dos aeroportos, sem ter para onde ir. Por sinal, cenas bem documentadas e integradas na série. 

Soluções tomadas em cima do joelho, recambiaram parte dessas pessoas para pensões, onde famílias inteiras foram alojadas em quartos exíguos. Provisoriamente, afirmavam as entidades oficiais (mas neste país já todos sabemos que o provisório pode ser muito definitivo). Até aqui está tudo certo, com a percepção que tive desse período.

Contudo, nem todos os ditos retornados eram assim tão coitadinhos, nem os tugas se cingiam a uma cambada de revolucionários de punho em riste ou a uns cobardolas preconceituosos, intriguistas e mesquinhos, sem um pingo de compreensão por todo aquele drama. Acresce a isso outro facto que a série não menciona: muitos dos ex-colonos foram recolocados nas empresas e serviços (congéneres) que ocupavam anteriormente - devido às suas habilitações, experiência ou vínculo laboral (quem contesta?) -, com prioridade sobre os restantes trabalhadores nacionais, o que determinou a perda ou a falta de oportunidade de emprego para os que cá estavam. O que está longe de ser um mero pormenor...  

Assim, o argumento tem falhas no contexto e mentalidade da época (para não dizer que é faccioso!), mas a interpretação das personagens é boa (fora um ou outro over-acting, especialmente em cenas violentas),  os cenários e figurinos de roupa e maquilhagem apropriados e as sequências reais valem a pena (re)lembrar.  Ou seja, apesar de opiniões tão contraditórias, vou seguindo com algum interesse. E as músicas... continuo a gostar de ouvir! Como esta "A Noite Passada", de Sérgio Godinho


Imagem da net.

24 comentários:

  1. A descolonização não foi exemplar, foi a possível.Com todos os tremendos custos que a permanência de Portugal nas colónias, depois províncias, acarretou tanto antes como depois do 25 de ABRIL 1974.

    Um abraço

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    1. SÃO, talvez tenha sido a possível, mas exemplar não foi de certeza. Daí não entender que alguns políticos tentassem passar essa imagem, quando era visível a olho nu o descambar das suas politiquices.

      Abraço

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    2. Minha querida, há uma coisa que se não pode negar numa descolonização que, concordo, não foi exemplar: o continente conseguiu integrar - sem problemas de maior - toda a gente que veio das colónias.

      Na altura fui com o G.(meu marido na altura) levar roupa aoa aeroporto de Lisboa e ainda hoje tenho nos olhos a cena da sala de espera no piso superior repleta de genta sentada e deitada no chão.

      Quanto às politiquices, é uma praga que , pelos vistos, não se consegue erradicar, pois ainda hije somos suas vítimas.

      Beijinhos

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    3. Eu não fui ao aeroporto, SÃO, mas a televisão mostrava as imagens, algumas delas que também mostraram na série - aterradoras, quando pensamos que aquelas pessoas tinham perdido tudo o que tinham e não tinham para onde ir!

      Mas olha que anos depois ainda havia pensões que alojavam algumas dessas famílias. Claro que a maioria acabou por se readaptar e organizar, suponho que foi mais fácil para os mais novos. No liceu não dei por qualquer discriminação. Uma amiga minha que veio de Moçambique, só dois anos depois arranjou vaga no banco para o qual trabalhava - felizmente para ela, já tinha arranjado outro emprego, porque obviamente ninguém aguenta dois anos sem vencimento...

      Enfim, não foram tempos nada fáceis para ninguém!

      Beijocas!

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  2. Li o "Retorno" de Dulce Maria Cardoso, vi lá muito do que de negativo se passou mas também apagamentos da solidariedade dos que cá estavam e que receberam familiares em suas casas, ajudando-os a superar tanta perda.
    Também me lembro do aproveitamento de muito dinheiro do IARNE por parte de alguns...
    Mas enfim! Num processo tão complexo há sempre os dois lados da medalha!
    Não vejo a série...
    Acho que, apesar dos pesares, conseguimos um feito histórico - absorver os tais quinhentos mil à custa de muitos sacrifícios ( os sacrifícios não foram só da parte dos que regressaram e vieram pela 1ª vez ) e sem grandes convulsões sociais.
    Quanto à música do Paulo de Carvalho já a coloquei hoje no facebook! :-))

    ABRAÇO

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    1. O que mais gostei no livro que referes, ROSA, foi o ponto de vista de alguém que realmente viveu na pele aqueles momentos dramáticos. A escritora era miúda, na época, a perceção é pessoal e não abrange problemáticas alheias.

      Mas numa série televisiva, escrita a várias mãos, devia ser dado o outro lado da medalha. Mas não: a família principal é recebida por uns familiares, mas de má catadura. E isso está longe de corresponder à verdade - como dizes, muita gente recolheu familiares, durante meses, até eles organizarem a sua vida.

      Agora que o processo foi complexo, tenho a certeza. E em todos estes processos há gente que se aproveita da miséria alheia e outra que é espoliada...

      Também considero que, apesar de tudo, a fase foi ultrapassada.

      Da música de Paulo de Carvalho também continuo a gostar! :)

      Abraço

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  3. Tenho seguido essa série, e até estou a gostar mas de facto já me tinha perguntado se teria sido bem assim. Há sempre algo para aprender, mas nada como falar com quem viveu esse altura no local.

    Beijocas Teté

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    1. Vivi essa altura, POPPY, mas não sendo retornada muita coisa me passou ao lado. Lembro-me que apareceram novos colegas no liceu, fui amiga de alguns e doutras pessoas que conheci mais tarde. Não me lembro dos meus pais ou nós, adolescentes, termos preconceitos em relação aos retornados (a expressão é desse tempo).

      Mas há cenas na série que são mais de quem só leu meia dúzia de relatos...

      Beijocas

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    2. Essa foi uma das coisas que me fez alguma confusão, os meus pais também eram adolescentes na altura e eu nunca os ouvi falar nos retornados em tom depreciativo. Como somos do interior também foi um processo onde não se notaram tantas mudanças mas também houve, também houve novos colegas e assim. Mas a série passa a ideia que toda a gente era preconceituosa e assim.

      Beijinhos e um bom feriado :) Viva a Liberdade*

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    3. Pois é, POPPY, a série nesse aspeto é muito tendenciosa. Claro que havia gente que antipatizava com os retornados, por várias razões entre elas o medo de perder o emprego ou preconceito por outra forma de estar, mas não era toda a gente. E entre os adolescentes, pelo menos, não se notava. Mas pronto, os argumentistas da série preferem dar essa ideia, não sei porque cargas d'água, devem de considerar que assim fica mais dramático ou coisa... ;)

      Beijocas! VIVA A LIBERDADE, SEMPRE!

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  4. A História tem muitas histórias e os factos mudam, para melhor ou para pior,depende de quem a conta...

    Nunca vi a série.

    A música do Paulo de Carvalho é sempre linda e esta também :)

    Beijinho :)

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    1. É verdade, MARIA, a História depende de quem a narra, mais objetiva ou subjetivamente... ;)

      Também continuo a gostar das duas músicas!

      Beijocas!

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  5. Logo no início de "E Depois do Adeus" teci várias críticas que vão no mesmo sentido. Com sua licença, reproduzo apenas este parágrafo:
    "O guião parece ter sido escrito pela dupla Relvas/Coelho: portugueses calaceiros contra portugueses empreendedores. Comunistas malandros que põem o país à beira do caos. Jovens mandriões esquerdistas contra jovens fascistas bêbados. A salvação do país na Fonte Luminosa. A vitória dos bons sobre os maus."
    Quanto a "Conta-me como foi" também concordo consigo. Do melhor que vi nos últimos tempos em termos de ficção nacional.
    Beijinhos e bom feriado

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    1. E reproduziu muito bem, CARLOS! O que me irrita mais na série é esse maniqueísmo e a falta de rigor histórico, como se só houvesse um lado da questão.

      Ao contrário de "Conta-me como foi", que também usava alguns filmes reais, mas não tão obsessivamente, nem sendo o tema central. Se era para ser uma espécie de sequência, falharam... ;)

      Beijinhos e bom feriado

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  6. Gostei muito do "Conta-me...", de esta série ainda não tenho opinião formada porque só vi um episódio.
    xx

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    1. Também eu, PAPOILA! Esta já vai, salvo erro, no 14º episódio, mas não tem comparação possível... ;)

      xxx

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  7. Também não sigo a série, mas já vi uns dois ou três episódios. A História poderá não ser bem assim, mas até gosto das histórias.

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    1. Como digo, LUISA, até vou seguindo com algum interesse. A parte histórica é que me parece tendenciosa... ;)

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  8. Excessos que senti na pele e que comentei há uns anos no blogue.
    O lá vai, lá vai.
    Beijocas!

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    1. Excessos houve muitos durante o PREC, PEDRO COIMBRA, mas não de sentido único: vinham de todos os lados!

      E sim, felizmente passaram. Quer dizer, se descontarmos os políticos e a troika que nos governa... :P

      Beijocas!

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  9. A pesar de gostar do tema, não sou capaz de ver. Em parte devido ao que bem retratas: a incapacidade de abordar o tema sem ser pelas ideias preconcebidas de "coitados" dos retornados VERSUS os impiedosos portugueses nacionais... Nem é preciso ter vivido nessa época para se saber que as coisas não são assim.
    Mas gostei muito do Conta-se. Estava bem retrata e sempre mexeu muito comigo, não sei entender porquê.

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    1. Bem-vind@, CINE!

      É óbvio que as coisas nunca são assim tão preto no branco, sempre detestei estes maniqueismos. E numa série que retrata uma época que muitos ainda guardam na memória, piora um pouco!

      O "Conta-me como foi..." era um retrato muito mais fiel da época! :)

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  10. ah, e falas das pensões provisórias e mencionas o quão permanente o provisório em Portugal pode ser. Pois faz 20 anos estudava eu numa escola provisória de barracões há já uns 20 anos que ainda hoje se mantém de pé. É este tipo de provisório que temos... um com 40 anos para cima.

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    1. Essa é a pura da verdade, CINE! Também conheço escolas que tiveram os mesmos barracões durante 20 anos ou mais. E quando o Sócrates pôs em andamento a remodelação das escolas mais deterioradas, com o programa Parque Escolar (antes da crise) começaram todos os partidos a "chiar" que era despesismo, que era para dar trabalho aos amigalhaços, etc. e tal. Quer dizer, o homem pode ter feito muitas asneiras, mas essa até foi uma boa medida, uma vez que existiam escolas onde até chovia lá dentro... Mas políticos, é o que se sabe! :P

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Sorri! Estás a ser filmad@ e lid@ atentamente... :)