quarta-feira, 17 de março de 2010

PARÁBOLA DO CÁGADO VELHO

Recentemente enviaram-me por mail a (longa) palestra da jovem escritora nigeriana Chimamanda Adichie, em Oxford, que descrevia de uma forma algo caricata o que denominou de "o perigo da história única": por ser negra e africana, a maioria das pessoas que encontrou quando estudou nos EUA encaravam-na como uma desprovida da sorte, com um passado recheado de guerras e miséria. Um dos seus professores chegou a afirmar que os seu romance não era autenticamente africano, pois as personagens pareciam-se demasiado com ele próprio - um homem culto, da classe média - que andavam de carro e nem estavam famintas. Como se no enorme continente africano houvesse apenas uma única realidade...

O professor de Chimamanda não teria ficado desiludido com a "Parábola do Cágado Velho" de Pepetela, esse sim, um romance tipicamente africano, onde poderia identificar um "mundo de fogo e de ódio", em que "as palavras eram balas disparadas ao futuro de cada um".

Ulume é um aldeão que viu as filhas morrer e os filhos partir para a guerra, mas permanece junto a Muari que se recusa a abandonar a aldeia, esperando o regresso dos rapazes. Mas o local é alvo de permanente saque e conflitos entre tropas das diferentes facções e, um dia, julgando que ia morrer devido a uma granada que explodiu por perto, lembra-se da jovem Munakazi, cujos pés o fascinaram. Com o apoio da primeira mulher, pede esta em casamento, mas a rapariga está renitente em aceitar, pois sonha com outra vida na cidade próxima de Calpe. Casam, mas têm de fugir da aldeia, pois a soldadesca leva consigo todos os animais e colheitas de que se alimentam. Assim, quase acabam as visitas ao morro próximo, onde Ulume se aconselha com o cágado velho, que acredita ser sapiente...

Uma história de guerra e de confronto de tradições entre presente e passado, com a vantagem de ter saído da caneta de Pepetela, de quem sou fã incondicional!

CITAÇÕES:

"As pessoas se seguiam no uso da fala e Ulume calado e de olhos baixos. Não falaria em nenhuma circunstância, pois todos estavam a repetir o que ele conhecia, embora também soubesse que o importante da fala não era dar a conhecer a alguém algo de novo, mas apenas falar para estar junto com pessoas que têm os mesmos problemas e inquietações. E porque se está ali, e se fala, os problemas parecem menores."

"Até do Lago da Última Esperança veio gente, pois os mujimbos corriam rápido, muito mais que as pessoas, vá-se lá entender porquê."

"Ulume deixou o animal beber e foi à entrada da gruta depositar fuba de milho. Depois foi ele próprio beber a água da sua infância. E uma alegria muito calma começou a preencher todos os seus vazios, com a pureza da água, com a mensagem do cágado, com o mundo voltado ao normal."

15 comentários:

  1. Olá Tété
    Sou um fã incondicional de parábolas ou não tivesse eu aquela costela que tu sabes. E olha que eu acredito na sapiência do cágado.
    Um beijinho

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  2. Eheheh, KIM, não sou muito de crendices, mas pronto, cada um com as suas, não é? :))

    Beijocas e continuação de boas férias!

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  3. Oi! filha. Que nome de livro. Cágado Velho.
    É como me sinto. um CAGADO VELHO...
    jinohs

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  4. que coincidência!
    nunca tinha ouvido falar nesse livro e no domingo passado, em passeio por Caxias, vi-o numa feira de velharias que estava a decorrer no jardim junto à marginal.
    prendeu-me o olhar pelo titulo.

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  5. Estou a lê-lo neste momento.
    Pepetela além de ser da minha terra natal, Benguela, é um escritor que me diz muito, pois muitos dos livros ddele fazem-me voltar ao passado, a m/terra, á m/praia, as m/ruas de menina e moça.

    Beijokitas

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  6. Só conheço o Casal dos Cágados, nos arrabaldes da vila de Alhadas!

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  7. ... os mujimbos correm rápidos!

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  8. Nunca o li, apenas em entrevistas nas revistas e nada mais, um dia quem sabe, gosto e fico leitora, para já, não ando numa de ler, gosto mais do pc... Beijinho da laura

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  9. não gosto de parábolas. por isso mesmo não fui para ciências. era muitos cálculos para uma cabeça já preenchida com letras :)

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  10. Ná, não acredito, ZÉ!!! Qual cágado velho, qual carapuça, aposto que ainda estás aí para as curvas... :))
    Jinhos!

    O título é original e prende a atenção, VÍCIO! Mas este que li saiu recentemente com a revista Visão (a um eurito), duvido que estivesse nessa feira de antiguidades... (a não ser que alguém o quisesse "descartar" como tal!) =))

    Bom, PARISIENSE, duvido que este te faça lembrar esses tempos, que este retrata a guerra pós-25A (de passagem foca guerras anteriores, mas só isso!) Mas também adoro Pepetela, que só conheci recentemente... :D
    Beijokitas!

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  11. Já conheces mais que eu, REIZÃO, que esse Casal não conheço... :D

    Lá isso correm, JONAS!!! ;))

    LAURINHA, ler tem de ser um prazer, senão qual é o sentido?! ;)
    Beijinhos!

    Preencher a cabeça com letras também é bom, MOYLITO, que para estatísticas e números andam cá os nossos governantes! Não é que percebam muito do assunto, mas pronto! (estive quase a acrescentar o S, mas ainda não foi desta... :)))

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  12. Oh, MOYLE, eu tenho a cabeça cheia de letras e sou das Ciências =D.

    TETE, fiquei curiosa. Mas sabes, mais curiosa fiquei com a escritora de que falas no inicio do post... ainda tens esse email? :D

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  13. Convenhamos que nem toda a gente tem jeito para todas as áreas, VANI! :))

    Não sei pôr aqui em link a tal palestra da Chimamanda, que podes encontrar neste endereço (cerca de 20 minutos):

    http://www.ted.com/talks/chimamanda_adichie_the_danger_of_a_single_story.html

    (é tudo pegado, obviamente)

    Também acho que lá chegas só através do nome da escritora. :D

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  14. Ainda não li nada deste autor! Comprei este mesmo livro por essa mesma razão, pois quero conhecer a sua escrita! Se gostar depois tenho de pedir-te mais algumas dicas, uma vez que és fã! :)*

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  15. Para mim, TONS DE AZUL, este não é o livro que mais gostei de Pepetela, embora seja mais sério que os dois da série Jaime Bunda, que me fizeram rir à gargalhada... :))

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Sorri! Estás a ser filmad@ e lid@ atentamente... :)