quarta-feira, 27 de junho de 2012

SE EU FECHAR OS OLHOS AGORA

O romance de estreia do jornalista brasileiro Edney Silvestre prende o leitor da primeira à última página, num relato das aventuras e desventuras de dois rapazes de 12 anos, que no início dos anos 60 fazem uma descoberta que os marcará para toda a vida: o corpo de uma jovem mulher loura, esfaqueado e mutilado, na margem de um lago onde nadavam e brincavam, após terem sido expulsos de uma aula.

Nesse dia, 12 de abril de 1961, Eduardo e Paulo sonhavam vir a ser astronautas como Iuri Gagarin, que fazia o primeiro voo no espaço e de lá informava: "Eu vejo a Terra. Ela é maravilhosa. Ela é azul." Mas a inesperada descoberta leva-os antes a uma esquadra de polícia, onde são recebidos como suspeitos da morte da malograda prostituta, por um deles ter um canivete no bolso. Ambos negam conhecer a mulher, mas as atenções só são desviadas quando o marido dela, o dentista da pequena cidade, confessa o crime. No entanto, os rapazes não acreditam na culpabilidade do homem, e iniciam uma investigação por conta própria, com o precioso auxílio de Ubiratan, um velho que reside no asilo, que "pressionam" (palavra em voga, topam?) para se esquecerem de divulgar as suas múltiplas escapadelas noturnas...

"À medida que a investigação avança, vai-se adensando uma trama que envolve racismo, violência sexual e favores políticos, implicando todos os homens poderosos daquela pequena cidade do interior do Rio de Janeiro e fazendo ecoar o aviso que o velho lançara no início: «Nada neste país é o que parece»", resume a contracapa. Para variar, de alguém que o leu!

Nem só por revelar um novo escritor brasileiro a editora Planeta está de parabéns: o livro foi revisto segundo o novo acordo ortográfico, mas, em nota de rodapé, explicam-se os significados de palavras inexistentes no léxico português (de Portugal), o que facilita a leitura.

Além do enredo bem estruturado e da escrita empolgante, gostei do retrato da ambiência de um Brasil de outras eras, ainda muito subordinado a um forte poder local, moralista e conservador, mas com inúmeros "telhados de vidro"...

Citações:
"Os russos mentem para conquistar o mundo, o padre Tomás sempre avisa, em aula de Latim ele avisa: os comunistas mentem. Mas o professor Lamarca diz que são os americanos que mentem, o garoto lembrou-se. Porque eles querem a riqueza do nosso solo, nosso ouro, nosso petróleo, nossas areias monazíticas..."
  
"- Acredito que só se deve pensar no passado se isso contribuir para melhorar o presente. Caso contrário é pura nostalgia.
- Não é nostalgia o que sinto. É vergonha. Passei a vida acreditando que eu era... Que fui um, como se dizia entre nós, um lutador incansável pelas causas da liberdade. Do proletariado, dos miseráveis, dos famintos, das mulheres, dos analfabetos... dos oprimidos. Todos os oprimidos. Não fui. Representei o papel. [...] Não existe liberdade verdadeira sem o reconhecimento da liberdade e vontade do outro. Não sei o que é a vontade de uma mulher."

"Em alguns países a abundância e o luxo desenfreado de uns poucos contrastam, de maneira estridente e ofensiva, com as condições de mal-estar da maioria." (passagem da encíclica Mater et Magistra, do papa João XXIII)

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O Moyle acrescentou um novo final às (vossas) restantes conclusões da minha historieta em aberto, que podem ler aqui. Obrigada!

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FORÇA NESSAS CANELAS, RAPAZIADA!

24 comentários:

  1. Mais um bom resumo , que agradeço.

    Acho bem essas notas de rodapé.

    João XXIII assim como João Paulo I é um Papa que respeito.

    Bom dia para ti, rrss

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  2. E como é que conseguiste ler o livro com os olhos fechados? Beijoca!

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  3. Azul à parte, fica muito apropriado para hoje deixar citações a verde e vermelho... :) Força Portugal!

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  4. A literatura brasileira está em alta, Teté. Já agora, já leste algum livro do Jô Soares?

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  5. Mais um livro?
    Já começa mal este meu comentário pois um livro nunca é demais!
    Mas o que queria mesmo referir é já me vai faltando tempo para ler todos os livros que tenho, os comprados e os oferecidos.
    Tenho que me organizar, mas os dias são tão curtos e mais agora que começam a diminuir...
    Vou ver o que posso fazer por mim!

    Beijokas escritas com sorrisos!

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  6. 50 anos, um oceano e um acordo ortográfico entre nós e os problemas são reconhecíveis por cá também. Força nas canelas dos espanhóis :)

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  7. Também considero que é a melhor solução, porque com ou sem acordo, temos muitas palavras que não são comuns, SÂO! :)

    Claro que delegacia em vez de esquadra e tal toda a gente percebe. Mas há muitas outras que não... ;)

    Bons sonhos para ti!

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  8. O título corresponde à frase de um dos rapazes, muitos anos depois, RAUF! Ainda se lembrava daquele momento decisivo na(s) sua(s) vida(s)... ;)

    Beijocas!

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  9. LUISA, força até tivemos! Faltou sorte... ;)

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  10. Li, sim, VIC - "O Xangô de Baker Street" é hilariante! :))

    Mas já sei que saiu um novo dele, que ainda não encontrei... mas assim que encontrar, é garantido! :D

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  11. Arranja-se sempre tempo, quando se gosta mesmo de ler, KOK! :))

    Não dá é para ler tudo, de modo que o melhor é selecionar o que interessa mesmo... e deixar os restantes para quem interesse! :D

    Beijokas sorridentes para ti! :)

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  12. 50 anos, MOYLITO?!? Na minha contagem são praí quase 200, em que a mesma língua foi divergindo, cada uma da sua maneira... mesmo tendo muito em comum! :))

    O oceano pelo meio, também faz uma enorme diferença... em mais do que a língua! :D

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  13. Gosto de literatura brasileira desde o tempo da faculdade. Há séculos que não leio nada destes autores.
    A propósito da resposta que deste ao Kok, aqui virei, dentro de dias para roubar uns títulos.
    beijocas

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  14. Se fechasses os olhos agora? Terias pedido a montanha de livros que ainda vais ler, pois só assim se vive na plenitude.
    beijinho Teté

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  15. Quase desconhecia a literatura brasileira, NINA, mas nos últimos anos tenho diversificado e conhecido mais do que Jorge Amado e José Mauro de Vasconcelos... :))

    E, salvo raríssimas exceções, tenho gostado do que leio, desde o clássico Machado de Assis, ao Jô ou a Luis Fernando Veríssimo! :)

    Uma grande beijoca para ti!

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  16. Não, KIM, não era eu a fechar os olhos, mas uma das personagens principais do livro, que ao fechar os olhos muitos anos depois ainda via o corpo da jovem junto ao lago... ;)

    Aquelas imagens que nos perseguem toda a vida, queiramos ou não!

    E sim, agora não me dava "jeito" nenhum, que tenho uma séria de livros pendurados na estante a gritarem para eu os ler, além de uns bilhetes à borla no cinema... :))

    Beijocas, amigo!

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  17. Esse foi o primeiro livro do Edney. Ele também foi apresentador do Globo Reporter. Com esse livro ele ganhou o Jabuti e uma saia-justa com Chico Buarque, porque outros escritores queriam que Chico devolvesse o prêmio ganho por "Leite Derramado" em detrimento do livro do Edney, considerado muito mais que uma simples revelação ou iniciante. Tanta confusão que o Edney, um boa praça, agradeceu e declarou encerrado o assunto.
    Gostei muito desse livro e indico ler também "A Felicidade É Fácil".
    Boa semana!! Beijus,

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  18. Se dizes que é bom, eu acredito e anotei, se bem que o último livro que li de uma autora brasileira, e premiada também, não gostei muito :(

    Beijinho :)

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  19. Outro livro que gostava muito de ler; até vou ver, se está traduzido em alemão, porque a literatura brasileira sempre é aqui mais conhecida do que a portuguesa.

    A NOSSA RAPAZIADA TEM SEMPRE GRANDE FORÇA NAS CANELAS!!!

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  20. Sabes que também li sobre essa polémica na net, LUMA? Mas, para dar a minha opinião sobre o livro (e também já li "Leite Derramado"), não me pareceu muito relevante... :)

    Os prémios valem o que valem, por vezes pouco, para a opinião do público em geral! De qualquer das formas, obrigada pela sugestão do novo livro de Edney, que não sei se por cá já foi publicado. Tomara que sim, pela mesma editora... :D

    Beijocas!

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  21. Teve grande força nas canelas, sim, mas não chegou, EMATEJOCA! Nem a da seleção alemã: ficaram as duas entre as melhores das últimas! :))

    Mas há mais vida para além da bola, né?

    Não me admira que a literatura brasileira seja mais conhecida na Alemanha do que a portuguesa...

    Abração (e não fiques muito desiludida)!

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  22. Ai, MARIAZINHA, desculpa lá trocar as respostas, mas ainda tenho umas falhas de croma... :D

    O último livro que não me interessou por aí além, também era de uma brasileira. Mas penso que nestas coisas a nacionalidade não tem muito a ver - a afinidade com o livro cresce à medida que nos identificamos minimamente com a leitura ou, no mínimo, quando entendemos o que a personagem está a passar, viva nos antípodas ou seja nossa vizinha do lado... :)

    Beijocas!

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  23. Este parece-me bastante entusiasmante, amiga! :)
    Gostei da capa e do título. Vou estar atenta nas feiras que se aproximam pelos algarves...

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  24. Gostei bastante, TONS DE AZUL! Se encontrares dá uma folheadela, que vale a pena... :)

    E sim, em Portimão, pelo menos, costuma ser lá para meados de julho, inícios de agosto! Quem sabe não nos encontramos por lá? :D

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Sorri! Estás a ser filmad@ e lid@ atentamente... :)