O romance de estreia do jornalista brasileiro Edney Silvestre prende o leitor da primeira à última página, num relato das aventuras e desventuras de dois rapazes de 12 anos, que no início dos anos 60 fazem uma descoberta que os marcará para toda a vida: o corpo de uma jovem mulher loura, esfaqueado e mutilado, na margem de um lago onde nadavam e brincavam, após terem sido expulsos de uma aula.
Nesse dia, 12 de abril de 1961, Eduardo e Paulo sonhavam vir a ser astronautas como Iuri Gagarin, que fazia o primeiro voo no espaço e de lá informava: "Eu vejo a Terra. Ela é maravilhosa. Ela é azul." Mas a inesperada descoberta leva-os antes a uma esquadra de polícia, onde são recebidos como suspeitos da morte da malograda prostituta, por um deles ter um canivete no bolso. Ambos negam conhecer a mulher, mas as atenções só são desviadas quando o marido dela, o dentista da pequena cidade, confessa o crime. No entanto, os rapazes não acreditam na culpabilidade do homem, e iniciam uma investigação por conta própria, com o precioso auxílio de Ubiratan, um velho que reside no asilo, que "pressionam" (palavra em voga, topam?) para se esquecerem de divulgar as suas múltiplas escapadelas noturnas...
"À medida que a investigação avança, vai-se adensando uma trama que envolve racismo, violência sexual e favores políticos, implicando todos os homens poderosos daquela pequena cidade do interior do Rio de Janeiro e fazendo ecoar o aviso que o velho lançara no início: «Nada neste país é o que parece»", resume a contracapa. Para variar, de alguém que o leu!
Nem só por revelar um novo escritor brasileiro a editora Planeta está de parabéns: o livro foi revisto segundo o novo acordo ortográfico, mas, em nota de rodapé, explicam-se os significados de palavras inexistentes no léxico português (de Portugal), o que facilita a leitura.
Além do enredo bem estruturado e da escrita empolgante, gostei do retrato da ambiência de um Brasil de outras eras, ainda muito subordinado a um forte poder local, moralista e conservador, mas com inúmeros "telhados de vidro"...
Citações:
"Os russos mentem para conquistar o mundo, o padre Tomás sempre avisa, em aula de Latim ele avisa: os comunistas mentem. Mas o professor Lamarca diz que são os americanos que mentem, o garoto lembrou-se. Porque eles querem a riqueza do nosso solo, nosso ouro, nosso petróleo, nossas areias monazíticas..."
"- Acredito que só se deve pensar no passado se isso contribuir para melhorar o presente. Caso contrário é pura nostalgia.
- Não é nostalgia o que sinto. É vergonha. Passei a vida acreditando que eu era... Que fui um, como se dizia entre nós, um lutador incansável pelas causas da liberdade. Do proletariado, dos miseráveis, dos famintos, das mulheres, dos analfabetos... dos oprimidos. Todos os oprimidos. Não fui. Representei o papel. [...] Não existe liberdade verdadeira sem o reconhecimento da liberdade e vontade do outro. Não sei o que é a vontade de uma mulher."
"Em alguns países a abundância e o luxo desenfreado de uns poucos contrastam, de maneira estridente e ofensiva, com as condições de mal-estar da maioria." (passagem da encíclica Mater et Magistra, do papa João XXIII)
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O Moyle acrescentou um novo final às (vossas) restantes conclusões da minha historieta em aberto, que podem ler aqui. Obrigada!
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FORÇA NESSAS CANELAS, RAPAZIADA!