terça-feira, 23 de agosto de 2011

O ENCANTO QUE SE PERDEU...

Claro que para uma criança dos anos 60 ir ao cinema constituía uma enorme novidade, mas na verdade guardo apenas uma vaga recordação de uma primeira ida ao cinema Rex, num carnaval, em que no propositadamente longo intervalo os miúdos eram convidados a participar num atelier de pintura: depois de vestirem um bibe, podiam dar largas à sua criatividade com tintas e pincéis. Uma emoção!
Outras experiências se seguiram e o primeiro impacto surgia logo com a imponente fachada exterior dos cinemas desses tempos. Ao entrar sobressaía a decoração sóbria e clássica, por vezes luxuosa, de amplas escadarias, enormes lustres carregados de pingentes, alcatifas espessas, talhas douradas, espelhos e vidros, cadeiras forradas a veludo, a tela branca gigante escondida até se abrirem os pesados reposteiros, que um sonoro ding-dong anunciava - a aventura cinéfila ia começar...

O Monumental e o Tivoli eram das maiores salas lisboetas, mas o Império, o Roma, o São Jorge, o Éden, o Condes ou até o Alvalade ou o Politeama não lhes ficavam muito atrás. Assisti a "Mary Poppins", "Música no Coração" ou "Chitty Chitty Bang Bang" no Tivoli, que nos períodos de férias punha em cartaz filmes vocacionados para um público infantil - que na época eram muito poucos - mas era no carnaval e em várias dessas salas que a programação cedia à criançada, entre desenhos animados antigos ou aquela série do Herbie, que se iniciou com "Se o Meu Carro Falasse". Todos estes espaços eram divididos em plateia, 1º e 2º balcão, alguns ofereciam mais de 1000 lugares que, por estranho que hoje possa parecer, esgotavam!
A par desses grandes cinemas existiam outros ditos de bairro, como o Europa, o Lys (mais tarde transformado em Roxy) ou o Avis (quem dessa geração não se lembra do "Trinitá, Cowboy Insolente"?), entre tantos outros, mais modestos e com menos lugares, mas que, tal como os anteriores, mantinham o cartaz durante semanas ou meses. No dealbar dos anos 70, o Berna ou o moderníssimo Londres, também se poderiam incluir nessa categoria - este último, o único que "sobreviveu" até aos nossos dias, cujas cadeiras articuladas que baixam ao sentar o tornaram numa novidade bem sucedida. Foi lá que vi "Melody", já dedicado a um público juvenil, com música dos Bee Gees, talvez a minha primeira grande paixão cinéfila.
À medida que a idade foi avançando (e como estava desejosa que isso acontecesse, até porque as classificações etárias eram bastante rígidas!), tive oportunidade de ver grandes produções, quase todas americanas, ainda nessas salas grandiosas - "E Tudo o Vento Levou", "Doutor Jivago", "My Fair Lady", "Ben-hur", "Os 10 Mandamentos", "A Queda do Império Romano" e por aí fora. Acreditem ou não, eram classificados para maiores de 12 anos...

Entretanto, o 25 de Abril e a proliferação dos centros comerciais originaram uma série de novos cinemas, a maioria dos quais também já desapareceu "em combate". Foram tantos, que nem vale a pena enumerar! De todos eles, guardo boas recordações de dois, por motivos diferentes: o Quarteto, com 4 salas e 4 filmes em simultâneo, acanhado e muito pouco confortável, mas que dava a conhecer películas até então ignoradas nos circuitos cinematográficos, tão ao gosto dos cinéfilos mais sofisticados; e o Star, não tão hollywoodesco como os seus antecessores, mas com uns cadeirões de napa castanha super confortáveis, onde visionei "O Segredo de Fedora" ou "Les Uns et Les Autres", ambos apaixonantes, a par de muitos outros!

Quatro décadas depois da minha primeira incursão nesse mundo mágico é inevitável verificar que o panorama mudou radicalmente: todos os grandes cinemas foram demolidos, remodelados, vocacionados para novos destinos; os de bairro eclipsaram-se; e os de muitos shoppings transformados em mais lojas. "Sinais dos tempos!", dirão e com razão. Mas não é uma questão de saudosismo - revolta-me que alguns edifícios estejam literalmente a cair de podres, em que o antigo Odeon é um mero exemplo, sem que ninguém tente minimamente salvá-los da ruína; e também me inquieta  e entristece que actualmente existam apenas cerca de 10 aglomerados de saletas distribuídos pela capital, muitas vezes "às moscas", onde as pipocas e as coca-colas parecem ser as grandes estrelas da sessão. Pior, não me parece que o problema se limite a Lisboa ou às  restantes cidades ou vilas do país! Onde pára o encanto, o sonho e o glamour de outras eras?!

Imagens da net, a primeira do estúdio Horácio Novais.

20 comentários:

  1. Não falaste do Paris que ficava, creio, na calçada da Estrela. Um cinema de reprise. E o Vox. Não havia um com esse nome?
    Ir ao cinema era uma “saída” especial. Com lugar reservado. As pessoas “vestiam-se” para ir ao cinema. Prefiro o à vontade dos canadianos/americanos. Chegar e escolher o meu lugar e comer pipocas quando vejo filmes de ação. : )

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  2. CATARINA, contei pelo menos 26 salas desaparecidas, mas é impossível lembrar-me de todas, se incluir as de bairro (para já nem falar nos "piolhos").

    O Monumental(+ Satélite) tem lá umas saletas num edifício comercial e de escritórios, onde poucas vezes entrei. O Alvalade, reabriu também com umas pequenas salas há dois anos ou coisa, por sinal bem agradável. O Tivoli e o Nimas ainda têm esporádicas sessões de cinema e o Politeama virou teatro. Ou seja, não entram nos tais 26 cinemas desaparecidos (alguns com 4 ou mais salas)!

    O Paris é outro que está a cair aos pedaços, o Vox mudou de nome e ainda existe como King!

    E sim, lembro-me que em miúda ir ao cinema (e também ao médico ou à missa!) passava por uma indumentária mais aprimorada. Mas isso já não passava na cabeça de ninguém na minha adolescência, hoje ainda menos. Felizmente! :)

    Também gosto de um maior à vontade no cinema, das pipocas nem por isso! Mais pelo cheiro enjoativo do que pelo barulho... :p

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  3. Como eu moro na outra banda ou seja nesta banda de cá, os meus cinemas não eram os de Lisboa (o império, o estúdio, o londres, o monumental, o vox eram exceção e correspondiam a baldas às aulas no Técnico) mas sim os de Almada onde já fecharam as salas da Incrível, do Clube e principalmente da Academia. Agora é o Almada Forum "que está a dar" com uma mão cheia de salas com cheirinho a pipocas.

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  4. Anónimo8/23/2011

    Também me deixa triste a perda dessas salas e de tantas outras pelo país. Mais precisamente as salas de cinema dos algarves, que se foram perdendo com a abertura dos dois centros comerciais mais populares. A última mesmo foi a do Vilamouracine. :( A minha sala de cinema preferida deu lugar a um supermercado. IUPI! Que bom! Agora o meu concelho deixou de ter cinema! Para ir assistir a um filme tenho de me deslocar aos concelhos de Faro ou de Albufeira. É lamentável...
    Beijinhos da tonsdeazul

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  5. Que tristeza, não é Teté?
    Pois, agora com pipocas e cerca de l5 minutos de publicidade e com uma programação para "bruta-montes" de difícil escolha - o que deu origem aos gostos uniformes e de ida ao cinema só por divertimento.

    Bem, o que lamento é o desaparecimento de salas e programação tipo "Quarteto".
    Mas também hoje para que é que é preciso criar gente com cultura cinéfica?

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  6. No Porto aconteceu a mesma coisa.

    Em Düsseldorf fechou ainda há muito pouco tempo o meu cinema preferido, abriu outro mais pequeno com o mesmo nome e também na mesma avenida, que fechou pouco depois.

    Se não me engano, em Lisboa, conheci o São Jorge e o Alvalade.

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  7. Bem, quando cheguei a Bee Gees parei de ler...

    ;)

    Saudinha!

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  8. Há uns dois anos, no meu Rochedo das Memórias, fiz uma viagem pelo cinema português e recordei o cerimonial das idas ao Coliseu do Porto,ao sábado à noite, no início dos anos 60.
    Depois, já em Lisboa, o Monumental, o S.Jorge, o Tivoli, o Alvalade e as manhãs de domingo no Império.
    Agora, as pipocas afastam-me cada vez mais das salas de cinema. Resiste o King que por sinal, leva normalmente filmes do meu agrado.
    Gostei desta viagem pela memóriado cinema, Teté

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  9. Pois, tal como suspeitava, VITOR, Lisboa não é a única cidade do país em que cinemas antigos e mais tradicionais foram substituídos por um aglomerado de saletas em centros comerciais, quase todos com essa pivetaça a pipocas... :(

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  10. Vivendo tu num concelho mais pequeno, TONS DE AZUL, a situação piora um pouco! Melhor dizendo, bastante! Para além dos custos do bilhete, ainda haverá o das viagens! E creio que isso ainda diminuirá mais o público do cinema... e aumentará a pirataria!

    Detesto ver filmes no PC, mas sem clubes de vídeo e com os cinemas a ficarem cada vez mais longe de casa e nem sempre com os filmes que queríamos ver, tenho impressão que, mais tarde ou mais cedo, vou ter de me habituar... :P

    Beijinhos!

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  11. É triste, mesmo, CARLOS! E sim, estes aglomerados de saletas passam essencialmente os filmes da "moda". E não é que tenha nada contra o cinema como divertimento, muitas vezes vou só por isso, mas quer dizer, até as próprias escolhas ficam limitadas. Ou uniformizadas ao gosto da maioria!

    Sim, salas como o Quarteto ou o Nimas (este tem uma sessão diária às 9 da noite, mas o filme muda diariamente, portanto é preciso estar a par), fazem imensa falta, para dar a tal programação alternativa... O King (antigo Vox) parece-me que é o único que ainda mantém um pouco esse estatuto! Enfim, pior é que não me parece que haja volta a dar à situação... :((

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  12. * Vox

    O "fenómeno" não é local, suponho que nem só nacional, EMATEJOCA! Mas que é muito triste ver desaparecerem salas que nos proporcionaram tantas e boas horas de cinema, lá isso é! :((

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  13. Porquê? Não gostas dos Bee Gees, SISNANDO?! ~xf

    Saudinha!

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  14. Esse ritual da ida ao cinema há muito que se perdeu, CARLOS BARBOSA DE OLIVEIRA, com as famílias todas pinocas como se fossem para a Ópera. Disso não tenho muita pena, que eram mesmo outros tempos! :)

    Mas o desaparecimento destes grandes cinemas, de outros mais pequenos e que eram tão agradáveis ou com filmes para gostos mais diferenciados, tenho muita! Ao fazer a pesquisa necessária para escrever este post ia entristecendo, à medida que encontrava as portas "encerradas" de tantos, para já não falar do estado decrépito de alguns destes edifícios, outrora tão glamorosos!

    E sim, também prefiro ir a salas sem pipocas! Mas aí a escolha já reduziu substancialmente! Por acaso no King também vi o melhor filme do ano passado, "O Segredo dos seus Olhos"!

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  15. Lembro-me bem de uma das minhas visitas a Lisboa com os meus pais, deveria ter uns 14 anos, eu e o meu irmão fomos assistir ao Herbie no Tivoli. Outro cinema alfacinha que entrei foi o Londres mas já não me recordo qual foi a película que fui ver. Esses sinais dos tempos, de velhas e belas salas de cinema que foram sendo encerradas e esquecidas, cá no Porto infelizmente temos vários exemplos. E tudo o tempo levou. O Águia d'Ouro está a ser transformado num hotel e o Batalha, como costumamos dizer, "vai no Batalha"!

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  16. Suspeitava que o mal não fosse só lisboeta, PAULOFSKI, mas em termos de memórias só escrevo sobre o que conheci (e já não reconheço). Podes crer que não estou apenas triste pela minha cidade, do encerramento do cinema A, B ou C, mas por todas estas perdas que denotam um grande desinteresse da população pela 7ª arte. Cá e lá fora! ;x

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  17. Ao continuar a ler os comentários sobre o teu post, faltou referir, no meu, o Monumental. A decisão de o demolir revoltou-me profundamente. Não me lembro da razão indicada tal decisão irresponsável mas ficou-me um nome bem gravado na memória: Abecasis (com um “s” ou dois – não me apetece confirmar no goolge). Chiado – Abecasis; Monumental – Abecasis.

    Teté, sabes porque demoliram aquele monumental monumento?! Sim, porque era considerado um marco da cidade.

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  18. Revoltou-te a ti e a quase toda a população lisboeta, CATARINA! O edifício nem era assim tão antigo (33 anos), mas suponho que foram negociatas entre a câmara e privados que determinaram a sua demolição.

    O Abecassis (que já morreu) contribuiu bastante para descaracterizar zonas inteiras da cidade, até aí emblemáticas, como a avenida da Liberdade, da República e o próprio Saldanha, permitindo a construção de prédios modernos que não se enquadravam minimamente com os mais antigos aí existentes! Resultado: ainda hoje está uma salganhada! :P

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  19. acho que as pessoas entenderam mal a democratização. viram-na como vulgarização e generalização fácil. o problema é que quem reclama arrisca-se a passar por saudosista e reaccionário quando, na verdade, a maior parte das vezes só reclama aumento do nível médio. a expressão sinal dos tempos nunca é usada para descrever qualquer coisa que melhorou.

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  20. Estou-me bem nas tintas para quem achar que é saudosismo, MOYLITO, certo é que se perderam grandes salas, para serem substituídas por saletas a cheirarem a pipocas, num roda bota fora apressado de sessões... :P

    E certamente existiriam outras soluções, que não demolirem edifícios ou deixá-los a apodrecer!

    E sim, não entendo democratização como vulgarização! :)

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Sorri! Estás a ser filmad@ e lid@ atentamente... :)