terça-feira, 31 de julho de 2007

HERANÇA DO VAZIO


Tal como prometido, aqui segue um post do anterior blog, com algumas alterações, sobre este livro:

“A Herança do Vazio”
Kiran Desai (2005)
Porto Editora (Fevereiro de 2007)
Man Booker Prize 2006

Não é um livro muito fácil de ler, porque o espaço temporal é quase sempre indefinido, parte da acção ocorre em Nova Iorque, mas o centro da questão fica na província de Darjeeling, num local perto da cidade de Kalimpong, junto ao rio Teesta, onde suponho que ainda hoje se desconhecem exactamente as fronteiras. Além de uma cultura muito diferente da europeia, por vezes um pouco incompreensível para o ocidente. Afinal, para a maior parte de nós, Darjeeling é só um tipo de chá...
A história em si, envolve toda a humanidade, em que muitos temas actuais são abordados frontalmente: colonialismo, racismo, emigração, globalização, terrorismo (tanto de bandos, como policial), preconceitos vários. A escritora não fornece juízos de valor sobre as personagens, reservando essa tarefa para os leitores. Entre imagens quase poéticas e alguma crueza da dura realidade, em que muitos sonhos se tornam em autênticos pesadelos, perpassa ainda uma certa ironia, fatalidade e a calma aceitação de destinos humilhantes, previsíveis à partida.

Eis algumas das passagens mais simbólicas:

“O cozinheiro estava desiludido por trabalhar para Jemubhai. Era um grande retrocesso em relação ao seu pai, pensava ele, que só tinha servido homens brancos.”

“No Café Gandhi, pouco mais de três anos depois do dia em que ele tinha recebido o seu visto, o rapaz mais afortunado à face da terra escorregou em espinafres podres na cozinha Harish-Harry, precipitou-se para a frente numa pista verde e viscosa e caíu com um sonoro estalo. Tinha magoado o joelho. Não conseguiu levantar-se.
- Pode chamar um médico? – disse ele a Harish-Harry, depois de Saran e Jeev o terem ajudado a deitar-se no seu colchão, entre os legumes.
- Um médico! Fazes ideia dos custos dos cuidados médicos neste país?”

“Uma mulher tinha-se incendiado junto a um fogão.
Oh, aquele país, exclamavam as pessoas, contentes por caírem nas frases do costume, onde a vida não tinha grande valor, onde os critérios eram variáveis, onde os fogões eram mal fabricados e os saris baratos incendiavam-se tão facilmente...
... como uma mulher que se queria ver morta ou...
... enfim, uma mulher que queria suicidar-se...
... sem uma testemunha, sem um caso...
... tão simples, um singelo movimento com a mão...
... e, para a polícia, um caso tão simples, implicava apenas outro movimento rápido com a mão...
... as rupias faziam um movimento untuoso entre as palmas das mãos...
- Oh, obrigado, meu senhor – disse um agente da polícia.
- Não tem nada que me agradecer – retorquiu o cunhado.
E, num piscar de olhos, tudo isto poderia ter passado despercebido.
O juiz optou por acreditar que foi um acidente.”

“Em vez de inimigos estrangeiros, em vez dos chineses para que andavam a preparar-se, contra quem acumulavam o seu ódio, tinham de combater o seu próprio povo...”

“- Aqueles malditos britânicos são mesmo incompetentes a traçar fronteiras.
A Sra. Sen, intrometendo-se imediatamente na conversa, comentou:
- Falta de prática, ora, estão rodeados de água por todos os lados, ah ah.”

Excelente!

6 comentários:

  1. Excelente sim senhora! Mas não simpatizei com o final. Sou muito adepta de finais felizes. E o unico final feliz que ali vi foi para o cozinheiro e o seu Biju. E a cadelita, tadita, tinham de a meter ao barulho? :-( E aquela história de amor? Não fossem eles personagens e já tinha desatado à estalada com aquele perceptor idiota e baralhadíssimo.

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  2. Pois, mas eles só estavam felizes por estar juntos, tinham passado largos anos sem se ver e a viver em condições miseráveis. Querias o quê, que o emigrante ilegal voltasse multi-milionário dos States?
    A coitadita da cadela teve um triste destino, mas pessoalmente acho que o juiz mereceu o castigo. Que desamor por tudo e todos, que arrogância, que falta de compaixão. Acho que ter ficado sem a cadela, até foi um "castigo" bem ténue...
    Ao Gyan, se pudesse, também o tinha desancado!

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  3. Ah, mas eu tava a dizer que tinha gostado do final para o biju e o cozinheiro. Sim, tb acho que o juiz mereceu, mas quem não merecia era a cadela. Podiam ter levado o juiz em vez da cadela, tadita! LOL.
    O gyan, esse, levava umas lambadas que até saltava! Sacana!! odiei o tipo. Havia de ser comigo!!

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  4. Parece ser interessante! "...estão rodeados por água por todos os lados!"...

    : )

    Aprecio livros cuja temática nos apresente outras realidades que sejam mesmo realidades, mesmo que desconhecidas para nós.

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  5. Vanadis, percebi que gostaste do final do cozinheiro e do biju. Afinal, para se ser feliz é preciso tão pouco...

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  6. Oh Su, tenho a certeza que vais gostar, que tem todos os condimentos...

    Mas essa dos britânicos terem pouca experiência a fazer fronteiras, porque estão rodeados por mar, é só uma ironia a que achei piada!

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Sorri! Estás a ser filmad@ e lid@ atentamente... :)