
Há dias difíceis e aquele foi um dos que nunca dará para esquecer: acordaram de madrugada e ainda meio ensonados entraram no autocarro que os levaria a uma aldeia típica no meio do deserto do Saara. O guia explicara-lhes num inglês macarrónico: "Chegou a Primavera, já aquece muito durante a tarde." Apesar da hora matinal, já havia gente muito ocupada a carregar embrulhos mistério, num jogo de cores e volumes, que alguns mais despertos aproveitaram para fotografar no átrio e à entrada do hotel. "Vá lá, um sorriso bonito para a câmara!", pedia uma das fotógrafas mais activas. "Este Sábado vai ser inesquecível e o passeio fantástico", exclamou outra das excursionistas, com optimismo. Nem ela sabia quanto!
Mas... de repente, ao fim de quase duas horas de viagem, o autocarro parou. Alguns passageiros viram o motorista sair, mas só quando este abriu o motor e gritou, se aperceberam das chamas. O alvoroço foi grande, andaram todos definitivamente aos papéis, até pegarem nas suas mochilas e sair porta fora, para verem o veículo arder de longe, enquanto o árabe continuava a gritar palavras imperceptíveis. "Sigam-me... ao meu lado... ficam bem" assegurou o guia, embora em voz insegura, quando no horizonte só restava a carcaça carcomida e ainda fumarenta. Estavam no meio do imenso areal, com todas a bagagens e tralhas que conseguiram salvar, com telemóveis imprestáveis e sem rede. O momento não permitia cair na tentação das indecisões! Quando não dá para mais...
Caminharam durante muito tempo, sobre um sol abrasador, seguindo o esbraçejamento do velho motorista, com o qual não havia diálogo possível. A cara morena e enfarruscada, onde os traços das lágrimas ainda eram visíveis, como um ecrã gigante de desespero, contrastava com o indicador direito que apontava uma direcção precisa. Se dúvida existencial existisse, a felicidade de vislumbrar um oásis à distância deu novo alento ao grupo. "A terra prometida!" murmurou uma das viajantes, cansada. Sentados à sombra das enormes palmeiras, depois de se terem refrescado nas águas azul-esverdeadas do lago insuspeito de nascer naquele chão, alguém declarou que era uma questão de tempo até os encontrarem. "Sim", atalhou outro, "não vamos ficar aqui 10 anos"... "ni para siempre", acrescentou o galego. Comeram os lanches que tinham levado para a viagem, conversaram, mas as horas passavam lentas e o sol começou a pôr-se sem que mais ninguém aparecesse. Sentados ao redor da enorme fogueira que acenderam, pois a temperatura descera brutalmente, uma reclamava: "O meu horóscopo egípcio bem dizia para não me meter em aventuras!" "Que bom que era andar agora a passear pelas ruas da Lisboa antiga...", sonhava outra. "Ou a comer um sushi naquele famoso restaurante do Bairro Alto?" babou-se um que tinha fama de comilão. "Pois eu preferia dar uma volta na Feira do Livro", lembrou uma terceira. "Eu nem queria ter vindo, que acho estes povos feios, porcos e maus, enfim, gente estúpida!", resmungou um. "Quietinha na sala... com os gatos e poesia", suspirou alguém... As vozes foram esmorecendo e enrolados em mantas e sacos-cama que levavam nas bagagens para a noite que pensavam passar na aldeia, em casas da população local, alguns foram adormecendo, enquanto os restantes se limitavam a observar as labaredas da fogueira. "This is THE END?" interrogou alguém, num sussurro desalentado, mas ninguém respondeu. "O maior drama é o das consciências", falou alto um filósofo que dormia, em plena madrugada.
Quando a manhã raiou, os ânimos pareceram recuperar-se com a frase do guia: "Hoje virão reforços procurar-nos!" Trocaram-se conversas diversificadas, sobre o 1º encontro do círculo literário, sobre artesanato e bonecos das Caldas, perguntas de futebol, o Dia Internacional da Família que estava para breve, alguém declamava a célebre poesia "Última Flor do Lácio", outra cantarolava "Love of My Life" dos Queen, outro ria de um amigo que ainda dormia, apesar da algazarra: "Olha, ele hoje dormiu com uma ninfa", ouviam-se algumas rezas de permeio. Mas as horas foram passando... e o alvoroço foi descendo de tom!
Já a tarde ia a meio, quando um jornalista tomava apontamentos sobre o imprevisto decurso da viagem num pequeno bloco, falando baixo com os seus botões: "Nem sei que título devo dar a este..." "Milagre!", gritou uma voz rouca, acrescentando a meia voz "amanhã, vou-me confessar!". E todos observaram aquela nuvem de poeira no horizonte, que se aproximava cada vez mais do oásis. Uma voz comovida proclamou "anseio estar contigo, meu filho!" e os homens que lideravam aquela equipa de salvamento foram recebidos de braços abertos - como heróis - entre risos e abraços de gratidão. Nada na onda do anterior autocarro, a frota era constituída por veículos todo o terreno, especialmente concebidos para esse fim e dotados de equipamento sofisticado. De volta a casa, alguém exclamou: "Lar, doce lar!" E o suspiro de alívio foi audível como um eco em pleno deserto...
Mas... de repente, ao fim de quase duas horas de viagem, o autocarro parou. Alguns passageiros viram o motorista sair, mas só quando este abriu o motor e gritou, se aperceberam das chamas. O alvoroço foi grande, andaram todos definitivamente aos papéis, até pegarem nas suas mochilas e sair porta fora, para verem o veículo arder de longe, enquanto o árabe continuava a gritar palavras imperceptíveis. "Sigam-me... ao meu lado... ficam bem" assegurou o guia, embora em voz insegura, quando no horizonte só restava a carcaça carcomida e ainda fumarenta. Estavam no meio do imenso areal, com todas a bagagens e tralhas que conseguiram salvar, com telemóveis imprestáveis e sem rede. O momento não permitia cair na tentação das indecisões! Quando não dá para mais...
Caminharam durante muito tempo, sobre um sol abrasador, seguindo o esbraçejamento do velho motorista, com o qual não havia diálogo possível. A cara morena e enfarruscada, onde os traços das lágrimas ainda eram visíveis, como um ecrã gigante de desespero, contrastava com o indicador direito que apontava uma direcção precisa. Se dúvida existencial existisse, a felicidade de vislumbrar um oásis à distância deu novo alento ao grupo. "A terra prometida!" murmurou uma das viajantes, cansada. Sentados à sombra das enormes palmeiras, depois de se terem refrescado nas águas azul-esverdeadas do lago insuspeito de nascer naquele chão, alguém declarou que era uma questão de tempo até os encontrarem. "Sim", atalhou outro, "não vamos ficar aqui 10 anos"... "ni para siempre", acrescentou o galego. Comeram os lanches que tinham levado para a viagem, conversaram, mas as horas passavam lentas e o sol começou a pôr-se sem que mais ninguém aparecesse. Sentados ao redor da enorme fogueira que acenderam, pois a temperatura descera brutalmente, uma reclamava: "O meu horóscopo egípcio bem dizia para não me meter em aventuras!" "Que bom que era andar agora a passear pelas ruas da Lisboa antiga...", sonhava outra. "Ou a comer um sushi naquele famoso restaurante do Bairro Alto?" babou-se um que tinha fama de comilão. "Pois eu preferia dar uma volta na Feira do Livro", lembrou uma terceira. "Eu nem queria ter vindo, que acho estes povos feios, porcos e maus, enfim, gente estúpida!", resmungou um. "Quietinha na sala... com os gatos e poesia", suspirou alguém... As vozes foram esmorecendo e enrolados em mantas e sacos-cama que levavam nas bagagens para a noite que pensavam passar na aldeia, em casas da população local, alguns foram adormecendo, enquanto os restantes se limitavam a observar as labaredas da fogueira. "This is THE END?" interrogou alguém, num sussurro desalentado, mas ninguém respondeu. "O maior drama é o das consciências", falou alto um filósofo que dormia, em plena madrugada.
Quando a manhã raiou, os ânimos pareceram recuperar-se com a frase do guia: "Hoje virão reforços procurar-nos!" Trocaram-se conversas diversificadas, sobre o 1º encontro do círculo literário, sobre artesanato e bonecos das Caldas, perguntas de futebol, o Dia Internacional da Família que estava para breve, alguém declamava a célebre poesia "Última Flor do Lácio", outra cantarolava "Love of My Life" dos Queen, outro ria de um amigo que ainda dormia, apesar da algazarra: "Olha, ele hoje dormiu com uma ninfa", ouviam-se algumas rezas de permeio. Mas as horas foram passando... e o alvoroço foi descendo de tom!
Já a tarde ia a meio, quando um jornalista tomava apontamentos sobre o imprevisto decurso da viagem num pequeno bloco, falando baixo com os seus botões: "Nem sei que título devo dar a este..." "Milagre!", gritou uma voz rouca, acrescentando a meia voz "amanhã, vou-me confessar!". E todos observaram aquela nuvem de poeira no horizonte, que se aproximava cada vez mais do oásis. Uma voz comovida proclamou "anseio estar contigo, meu filho!" e os homens que lideravam aquela equipa de salvamento foram recebidos de braços abertos - como heróis - entre risos e abraços de gratidão. Nada na onda do anterior autocarro, a frota era constituída por veículos todo o terreno, especialmente concebidos para esse fim e dotados de equipamento sofisticado. De volta a casa, alguém exclamou: "Lar, doce lar!" E o suspiro de alívio foi audível como um eco em pleno deserto...
The end
(agora só resta adivinhar qual é o título próprio e/ou alheio, dos meus/vossos favoritos... sendo todos eles relativamente recentes!)
Fotografia daqui.
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PARABÉNS, BRUNO! Com dias muito felizes hoje, amanhã e... nos anos vindouros!
Alucinado este texto...delicioso! :)
ResponderEliminarIsto parece uma resposta a um desafio de se pegar em dez títulos de livros e construir um texto à volta deles, com destaque para os mesmos! Até é uma grande ideia! ;) Posso levar para a Teia?
Fez-me lembrar o Babel (o filme) em algumas circunstâncias...e depois, noutros momentos, fez-me lembrar, também, uma experiência pessoal, no meio das montanhas (por isso não direi no meio do nada!) perto de Tetouan, em pleno quente do Agosto marroquino, duas pessoas sozinhas (uma delas era eu!) num carro que se avariara...e extensões de "deserto", montanhas e calor e solidão agreste...não me vinha nada à cabeça...aliás, lembro-me de só querer estar em casa...afinal...
Bem...vou esperar pelos títulos.
Ainda que breve, chegou a primavera, sem dúvida, embora passasse a ocupar um segundo lugar por decisão de última hora de quem domina os elementos... do blogue. Hehehe!
ResponderEliminarDe fábula o texto, Teté. Já não digamos a escolha da música e da palmeira no deserto. (`_^)
E parabéns ao Bruno!
É minha música preferida de sempre:)
ResponderEliminarO texto tá fabuloso...
Criatvidade em pessoa..
Bom domingo
Boa musica e o texto está muito interessante :)
ResponderEliminarEste texto deixou-me mais abalada do que o filme polícial que acabei de ver.
ResponderEliminarPenso que é um acidente que aconteceu no deserto, só alguns
títulos como "o primeiro encontro do círculo literário" me fazem suspeitar, que seja uma história tua. Excelente! Fiquei arrepiada!
Boa noite, Teté!
Se podes levar para a Teia, SU??? Qual é a dúvida? Óbvio que sim! Mas a ideia nem é muito original que já fizeste posts parecidos, mas apelando à participação e noutros contextos... :)
ResponderEliminarE sim, um amigo meu também passeava no deserto com dois amigos, quando o carro avariou, essa cena impressiona-me até hoje! Aliás, o pensamento dele não devia ter sido muito diferente do teu, só que foi na Líbia...
Beijocas, amiga!
É verdade, SUN, mesmo que de cara pouco alegre "Chegou a Primavera" (não a música, entenda-se!), a substituição é da exclusiva responsabilidade da administradora desse blogue... (*_*)
Passear no deserto, pois, só por experiência alheia!
Gracias!
E reconheces-te a tua frase, MYLLANA? Acho que sim, que essa é fácil... :)
Boa semana para ti!
Músicas boas não fazem um blogue, LOPESCA! Bons comentadores é que sim... :)))
ResponderEliminarUi, EMATEJOCA, não era para arrepiar ninguém, só uma brincadeirinha! :)
E sim, também acertas-te n tua frase, embora resumida! - "O 1º encontro do círculo literário".
Boa semana para ti!
Bem, só de ler que se perderam pelo deserto e como eu já conheço o deserto da namíbia, só á entrada ahhh, e por cima, de avioneta, ah, nina, perdermo-nos ali quando a areia é arrastada pelo vento e os caminhos desaparecem, ah, nanja, nanja, mas que filme deve ser..v ouvir amusica a ver se soa bem..Beijinhos.
ResponderEliminarexcelente texto!
ResponderEliminarexcelente história!
ResponderEliminarapesar de eu estar incluído por causa dum momento de fraqueza que tu não hesitaste em aproveitar...
nunca mais falo em confissões ;)
UI ui ui, mas que nível. parabéns
ResponderEliminar(gente estúpida só pode ser comigo:))
Adorei o texto!
ResponderEliminarEstá muito bom mesmo... Por mim, podes escrever textos destes todos os dias! Lol!
Beijinhos!
vá, gostei de re-ouvir a música...
ResponderEliminarHistoria interessante...
ResponderEliminarSó em momentos dificeis damos valor ao que realmnente temos " Lar, doce Lar"....
Quanto á musica adoro-a.
Beijokitas
Ahhhh... brilhante, e não folo só da música. A certa altura recordei-me de textos que levavamos para a escola com textos onde se jogavam frases com nomes de filmes. Definitivamente deixaste-me aos papeis!
ResponderEliminarPois, LAURINHA, graça não deve ter nenhuma, esta historieta é pura ficção, embora um amigo meu tivesse ficado com o jeep empanado no meio do deserto já há largos anos, com dois companheiros de viagem, todos a deitarem contas à vida... Tiveram sorte, que entretanto passou gente por lá! :)
ResponderEliminarJinhos, nina!
Obrigada, TERESA DURÃES! :D
Sou assim, VÍCIO, má como as cobras, não deixo escapar momentos de fraqueza... :D
Acertaste na frase, mas gente estúpida não é contigo, MOYLITO! :))) Não ia meter aqui a velha carcaça, não é? ;)
Posso eu, tu e qualquer um, MATCHBOX32! Mais trabalhito do que inspiração, diga-se de passagem... :)
ResponderEliminarBeijinhos!
Ora ainda bem que gostaste de alguma coisa, INTRUSO! :D
Eh, eh, eh, ainda me lembrei de ti, PARISIENSE, mais a tua caminhada pelos montes... :D
Diz lá se às tantas não te apetecia estar sossegadinha em caselas?!
Beijokitas, nina!
Ah, PAULOFSKI, uma vez enviei um postal de férias para as minhas colegas de emprego só com títulos de filmes. Este post é um bocado a mesma onda... :)
Claro que acertaste na frase! (tinha o intuito de comentar todos os posts mencionados no texto, mas ontem a vidinha complicou... :()
E, já agora, "Os Deuses Devem Estar Loucos" era (e é) título bom demais, para se perder num postalzinho de férias! :D
Por momentos pensei que ias falar do filme Babel :D. A música é fantástica, gosto imenso e não a conhecia (ou não a lembrava...).
ResponderEliminarÉ incrivel como consegues pegar nos titulos das postadas do pessoal e TAU, criar uma história fenomenal! :D
Reconheci a Terra Prometida (aiaiaiaiai ups ihihih, esse título é pra esquecer ;-p) e a duvida existencial lol...
E o teu, dias dificeis, heheheheh. Não podia faltar, também, o sushi ihiihih. E ali o galego cheira-me a Sun eheheh.
Ah e temos o the end do Matchito.:D
ResponderEliminarPARABÉNS BRUNO!!! :)))
Eh, eh, eh, acertaste em quase todas, VANI! Excepto na da Sun, que a do galego é do Condado, a dela é "Chegou a Primavera" (que por acaso não era post, mas a música que ela pôs no ar) :)))
ResponderEliminarE por Bruno, deves saber de quem estou a falar... :)
(não linkei, porque alguns não gostam de muita publicidade ao assunto...)
Na "onda do anterior" será?. Olha vou dizer uma coisa que pode ser mal interpretada, mas como este teu texto já passou, ninguem vai voltar atrás para lêr....Eu gostei muito do texto e da forma como o escreveste, de tal forma que á primeira nem reparei nas palavras a negrito e sabes porquê?....porque acontecer uma cena dessas a uma pessoa é melhor do que andar 20 ou 30 anos a sair de casa para o emprego sempre á mesma hora e a fazer todos os dias a mesma coisa sem qualquer inspiração.È verdade que eu escrevo isto sem nunca ter passado por uma situação dessas, mas não será tão bom ficarmos a saber de que tipo de massa somos feitos,espetacular lição de vida!.
ResponderEliminarÉ, foi mesmo essa a tua "onda", CONDE! :)))
ResponderEliminarBom, mesmo também nunca tendo vivenciado uma situação do género (um amigo meu viveu uma ligeiramente parecida) - em abono da verdade, não iria achar piada nenhuma - também compreendo o que estás dizer. As rotinas não matam, mas moem. Às tantas, parece que a vida nos passou ao lado... ;)