Um dia de Verão, enquanto procurava um livro na marquise em casa da minha mãe, encontrei um bibelot extremamente original: um mocho! Tão bonito e perfeito, que estranhei que ela o tivesse colocado lá no topo de uma prateleira. Ainda a admirar a peça, vi-a piscar os olhos... Que susto!
O cenório que se seguiu foi indescritível, mas por fim lá se conseguiu agarrar o bicho, que ficou temporariamente alojado na gaiola da porteira, conhecida por ser grande amiga da bicharada, em geral, e de aves, em particular. A mulher avisou logo que o mocho ali não sobreviveria muito tempo, tinha de se encontrar uma melhor solução. Na época, os poucos contactos possíveis eram via telefone, mas não resolveram!
Entretanto, lembrei-me de uns jovens ligados à ecologia que paravam no mesmo café de bairro onde costumava ir (o “entulho”, pois claro!), que perdiam horas a fio a falar entusiasmados da raposa do rabo prateado, do lince da Malcata ou dos lobos não sei donde, para tédio de todos os habituais frequentadores, que pretendiam estudar sossegados.
Enchi-me de coragem e abordei um deles:
“- Não és tu que gostas muito de animais?”
“- Sou! E tu, não?!”
“- Sim...”
Apesar da introdução não ter decorrido particularmente bem, desenrolei a história toda. Entusiasmo é pouco, para relatar a reacção do indivíduo! Vi-me dentro da carripana dele, a guiar esgroviado até ao meu prédio, depois de um sucinto xau aos restantes ambientalistas, para gáudio das minhas amigas, que riam que nem perdidas...
Afinal o mocho era uma coruja juvenil, a precisar de tratamento veterinário por ter uma asa magoada, que o ecologista se encarregou de proporcionar.
Uns meses depois, disse-me que a ave já tinha sido liberta num habitat natural daquela espécie. As piadolas continuaram, mas aí já me estava nas tintas...