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sábado, 25 de abril de 2015

MULHERES DE ABRIL

A RTP voltou a exibir a série "Mulheres de Abril" esta semana, um pouco a desoras como vem sendo hábito nestas repetições. Como o programa "Inesquecível" do Júlio Isidro, inicialmente transmitido no canal Memória, agora a entrar-nos pela casa dentro lá para as duas e tal da matina. Mas adiante!

Não costumo seguir a ficção nacional, quer em telenovelas ou séries, por me parecer sempre a parente pobretona da brasileira: argumentos menos que medíocres, atores fracos (e mesmo que sejam bons, como dar credibilidade a papéis sem pés nem cabeça?) e erros crassos a vários níveis. Históricos e psicológicos, por exemplo, mas não só. Por isso, quando surge uma série que se destaca pela sua qualidade e rigor, não posso deixar de elogiar. Como é o caso destas "Mulheres de Abril", que tive o prazer de rever agora.

Mais do que da revolução, a série é uma espécie de memória do papel da mulher desde os anos 20 do século passado até aos nossos dias. A ação decorre durante um jantar de aniversário, onde só estão mulheres (de várias gerações), que em conversa amigável relatam alguns episódios marcantes vivenciados no passado. E visto assim em perspetiva, o progresso é enorme...

BOM FERIADO
e
BOM FIM DE SEMANA!

§ - note-se que a ficção brasileira não é perfeita, também tem telenovelas e séries beruchas. Mas não é em vão que lá se dá destaque ao líder do grupo de argumentistas (normalmente constituído por uma boa meia dúzia de escrevinhadores, no mínimo); cá, tenho reparado que muito do que se faz pretende ser "ideia original" de José Eduardo Moniz - que, obviamente, nunca deve ter escrito uma linha para qualquer dessas ficções televisivas!

sexta-feira, 24 de abril de 2015

ÓDIO DE PERDIÇÃO

Esta crónica foi publicada no "Diário de Notícias" a 17 de abril de 2015, faz hoje exatamente uma semana. Mas porque se mantém atual e de algum modo relembra e resume as leis que vigoravam antes do 25 de abril de 1974, no que diz respeito aos direitos das mulheres, faz todo o sentido dar-lhe hoje o devido destaque. Para quem não leu, evidentemente, e para as desmemoriadas do "antigamente é que era bom".

ÓDIO DE PERDIÇÃO
Por Fernanda Câncio.

"Marta Nogueira, 21 anos, Joana Nogueira, 23. Primas. Anteontem de manhã, na pastelaria onde trabalhavam, no Pinhão, Trás--os-Montes, um homem entrou e apontou a arma para matar, para apagar, para desfigurar: cara, pescoço, cabeça. Joana morreu, Marta está em coma. Os jornais - este jornal - titulam: "Ciúme levou Manuel a disparar." Manuel, parece, tivera namoro com Marta. O crime passa logo, então, à categoria "passional". Como quem diz de amor, de sentimento, "que levam a".
É sempre assim: homem mata mulher? Coitado, gostava demasiado dela, e ela ou o "deixou", ou ele tinha medo que ela o "deixasse", ou ela "portava-se mal", ou ele tinha medo que ela se "portasse mal". Mesmo, note-se, quando uma das mortas é prima do alegado objeto de amor; estamos perante o crime passional por afinidade. Porque será, então, que o homicídio do bebé de 5 meses que o pai esfaqueou há uma semana depois, diz-se, de ligar à mãe da criança a ameaçá-la, não é "de paixão"? Será porque a desculpabilização implícita, a "naturalização" e "contextualização" que induz, não é aceitável na morte de crianças? Porque nada pode justificar que se mate uma criança enquanto uma mulher, tantas mulheres, é outra coisa?
É para contextualizar? Contextualizemos. Até 1975, o Código Penal português incluía aquilo que nos países muçulmanos o Ocidente reputa de bárbaro: crimes de honra. Permitia-se ao marido enganado matar a mulher e o respetivo amante sem mais castigo que uns meses fora da comarca; o mesmo para o pai que matasse as filhas "desonradas" se menores de 21 e a viver "sob o pátrio poder". O Código Civil autorizava repudiar a mulher que fosse não virgem para o casamento, no qual estava submetida ao "chefe de família", que podia abrir-lhe a correspondência, dar--lhe ou não autorização para ter emprego e decidia tudo sobre os filhos (a mãe tinha "o direito de ser ouvida"). A mulher era ainda obrigada a viver com o marido, que podia exigir à polícia a sua devolução caso fugisse. Isto tudo era lei, há 40 anos. Era lei a submissão da mulher, era legal este desprezo que a tratava como menos que pessoa inteira, a nomeava e manietava como propriedade masculina.
A lei mudou mas o sentimento que esta consagrava e propagava não se vai tão rápido. A desculpabilização "passional" substituiu a da "honra"; subsiste a ideia de que "elas dão motivos" - como diziam os que à porta do tribunal aplaudiam Palito, o homem que há exatamente um ano, a 17 de abril de 2014, matou a ex-sogra e a irmã desta e feriu a ex-mulher e a própria filha: "Lá teve as suas razões." A própria justiça o admite, em acórdãos vergonhosos nos quais nunca se invoca isso que o Brasil no mês passado tipificou no Código Penal como feminicídio - o ódio às mulheres que mata. Cá não, é por amor. Em 15 semanas de 2015, já foram, de tão amadas, mortas onze. Somos assim românticos."

quarta-feira, 11 de março de 2015

OLHOS GRANDES

Margaret (Amy Adams) é divorciada, mãe de uma menina com 8/10 anos de idade e tenta ganhar a vida como pintora - além dos seus quadros, também faz retratos em feiras. Nos finais dos anos 50 do século passado estava longe de ser o modo de vida mais usual para uma mulher. Precisamente numa feira conhece Walter Keane (Christoph Waltz), que alegadamente estudou pintura em Paris e que vende quadros das paisagens que pintou por lá. Os dois iniciam um ligeiro romance, mas quando o ex-marido de Margaret exige a custódia da filha por a mãe não lhe dar condições de vida "adequadas", Walter surpreende-a com um pedido de casamento, resolução de todos os problemas - ele é um bem sucedido vendedor imobiliário. Durante cerca de 3 anos o casamento parece decorrer sem grandes problemas, o novo marido da pintora é até bastante empenhado em vender os quadros dela, que têm uma característica especial - todas as crianças são retratadas com uns olhos excessivamente grandes, desproporcionais. Mas como não há bela sem senão, um dia Margaret descobre que o marido se faz passar pelo pintor dos quadros dela: dono de uma grande lábia e vendedor exímio, consegue preços fabulosos e faz negócio até com posters, postais, etc.

Tímida e ingénua, inicialmente ela deixa-se levar, até porque conseguem uma vida bastante mais confortável, para não dizer luxuosa. Mas o marido impede-a de contactar ou de dizer a verdade a quem quer que seja, de modo que ela é quase uma prisioneira na própria casa. Quando ele acrescenta ameaças, ela acaba por fugir com a filha para outro país, mas entretanto já passaram quase 10 anos. Bom e então, o que é a história tem de mais? Ora, foi baseada num caso verídico que deu grande celeuma na época e é sempre bom que as jovens que hoje arrebitam o nariz e com ar enjoado afirmam não ser feministas, saibam como as mulheres eram tratadas há 50/60 anos. E que se não fossem elas lutarem pelos direitos de todas nós - ainda longe de serem iguais, como já referi no post anterior, mas a anos-luz destas discriminações - bem que as mulheres atuais ainda estariam a sujeitar-se a maridos prepotentes em toda a linha.

O filme de Tim Burton obtém um modesto 7/10 na IMDb, mas vale a pena tanto pelas atuações dos dois excelentes atores, como pela caricata história em si. Às vezes a realidade suplanta a ficção mais imaginativa...

Imagem de cena do filme da net.

domingo, 8 de março de 2015

NÓS, AS MULHERES...

... temos um dia no calendário - 8 de março. Um pouco por toda a parte, maridos, namorados, filhos, pais, amigos e até comerciantes nos enchem de flores, bombons, quiçá até algum presente mais significativo. Mas depois, quando se vai ver, a igualdade de direitos ainda é uma miragem: profissional ou politicamente, é preciso trabalhar o dobro ou o triplo do que eles costumam, para se chegar ao topo de carreira. Isto se não houver um outro workaholic masculino, que certamente se adiantará a ocupar o cargo. Às vezes, até fazem o "favor" de nos conceder umas quotas, para os lugares nos parlamentos, por exemplo, não serem exclusivamente ocupados por machos. Enfim, aqui e ali a representação feminina até tem melhorado, mas, pessoalmente, detesto essa "condescendência" das quotas - dá ideia que as mulheres lá estão por especial favor, não pela sua competência, o que está longe de ser verdade.

Pior, ainda há por aí muito macho latino com a veleidade de pensar (estes fulanos pensam?!?) que são donos e senhores das suas mulheres... ou até namoradas. E se elas se desviam do caminho que eles traçaram para elas nas suas mentes conturbadas, a coisa termina invariavelmente à pancada. Infelizmente, as estatísticas demonstram que, em Portugal, os casos mortais devidos a violência doméstica têm vindo a aumentar. Inadmissível, em pleno século XXI, e tendo em conta que o problema afeta a sociedade transversalmente: não são só os pobres e ignorantes que espancam as mulheres, há professores, juízes, polícias, empresários, políticos, etc. e tal. Daí, às vezes admirarmos-nos de ver publicadas nos jornais afirmações descabidas de celsos doutores...

Resumindo: não sendo exatamente um dia para "inglês ver", ainda há um longo caminho a percorrer no sentido da igualdade de género! 

Consta que a canção que se segue - "Woman" - foi uma espécie de pedido de desculpas de John Lennon a Yoko Ono, no seguimento de um desentendimento do casal. Era assim que devia ser sempre, quando o amor existe - uma reconciliação pacífica e (preferencialmente) amorosa:


Bom, mas se hoje é o dia da mulher, também é o dia do meu aniversário. E como primeira prenda da natureza, não podia ter tido melhor: algumas árvores aqui da zona já começaram a florir, dando assim sinal que a primavera está com vontade de chegar mais cedo...

FELIZ DIA DAS MULHERES PARA TODAS AS MINHAS AMIGAS!
[e que também seja feliz, para os homens que (as) sabem amar]

segunda-feira, 26 de maio de 2014

REFLEXÃO... PARA QUÊ?


Já me tinha perguntado para que serviriam os dois dias de reflexão. Depois de ver e ouvir umas dezenas de tipos a aplaudirem Manuel "Palito" Baltazar - à porta do tribunal de São João da Pesqueira, onde compareceu, após ter sido capturado pela polícia, e para ser acusado de 4 homicídios (2 na forma tentada) - concluí que há gente que não faz a mínima ideia do significado de pensar, quanto mais pedirem-lhes para refletir.

OK, a atuação policial foi no mínimo caricata: como o assassino não se foi entregar após os dois homicídios consumados, cerca de uma semana depois resolveram ir à procura dele. E quase todos os dias apareciam na TV, no que mais parecia um passeio a cavalo, concluindo que existiam indícios que o homem continuava a cirandar por aqueles montes e vales e que os conhecia melhor que os próprios polícias. Mais, que teve ajuda de alguns populares, que o viram e lhe forneceram comida. E a captura demorou mais de um mês, o que, no mínimo, é ridículo. Mas nada disso invalida que o homem é um assassino da pior espécie - daqueles que quando casam julgam que a mulher vira propriedade deles e, simultaneamente,  saco de pancada. Daí não se entender como em São João da Pesqueira haja quem o aplauda como herói. Ou, havendo, o que se espera que essa gente reflita...

Assim, foi sem grande espanto que soube das primeiras projeções eleitorais: a abstenção foi a grande vencedora; que Seguro se proclamou vitorioso (?!?) com uma escassa diferença de 4% da coligação governamental; que esta apesar do ar pesaroso esfregou as mãos de contente (com tanta austeridade e disparate junto era de esperar um resultado muito pior); que Marinho Pinto com o seu estilo trauliteiro colocou no mapa um partido até aqui inexistente; que a CDU subiu notoriamente e o BE despencou; e que uma série de partidos pequenos receberam votos de descontentes.

Se juntarmos a este quadro os resultados eleitorais europeus já conhecidos, onde a extrema direita e a extrema esquerda estão a ganhar terreno, algo me diz que o futuro não augura nada de auspicioso. Nem para Portugal, nem para a Europa!

Portanto, por mais que as pessoas bem intencionadas ponderem sobre o que é melhor para o seu país, com tanta gente indiferente às eleições, o que acaba por ganhar é o "clubismo" agudo de alguns e o extremismo de outros...

quarta-feira, 27 de março de 2013

ÀS GRANDES MULHERES...

... de todos os tempos, e a todos os homens que as apoiaram, não há palavras que traduzam o meu enorme agradecimento e reconhecimento. Por vezes acusam-me de feminista, o que não me rala minimamente, até porque não está muito longe da verdade:  tenho orgulho em ser mulher, mas mais ainda em todas as mulheres que lutaram pela igualdade dos géneros, contra preconceitos enraizados, em condições bastante mais adversas que as minhas!

Assim, em jeito de comemoração do 1500º post do Quiproquó, tal como anteriormente homenageei noutros "centenários" o romance "Orgulho e Preconceito" de Jane Austen, Agatha Christie, Alfred Hitchcok ou Charlie Chaplin, hoje o tributo é inteiramente destinado a todas essas grandes mulheres e  em especial às duas portuguesas da foto - Ana de Castro Osório e Carolina Beatriz Ângelo, as "perigosas" sufragistas, sendo a última a primeira eleitora a votar nas urnas em Portugal, em 1911. Sol de pouca dura, note-se, que depressa os "democratas" republicanos consideraram o voto  feminino uma barbaridade... e alteraram a lei eleitoral, de modo a ser feudo exclusivo de homens.  

Mais de um século depois, a igualdade entre homens e mulheres está consagrada no 13º artigo da Constituição da República Portuguesa (desde 1976), que igualmente estipula o fim de outras discriminações: raciais, religiosas, políticas, ideológicas, de orientação sexual e por aí adiante. Na prática, já se sabe que de boas intenções está o papel cheio e não é por aí que as mentalidades mudam. Embora um longo e proveitoso caminho já tenha sido percorrido nesse sentido, ainda há muito a calcorrear, para essa conquista ser inteiramente alcançada. Resumindo... 

A LUTA CONTINUA!
(e a tod@s que lutam, lutaram e lutarão pela igualdade entre as pessoas de todo o mundo, OBRIGADA!)

Imagem da wikipédia.

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Continua o passatempo "Sol de inverno", amanhã serão divulgados os autores de cada fotografia. Para já, a Nina, o Rui da Bica, a Maria, a Rosa dos Ventos, a Papoila e a Poppy parecem os mais próximos de identificar todas as fotografias, mas até amanhã... nunca se sabe! Divirtam-se! 

terça-feira, 27 de novembro de 2012

ATÉ QUE A MORTE NOS SEPARE?

O ano ainda não acabou e não há palavras para exprimir a indignação, perante a divulgação do mais recente relatório do Observatório de Mulheres Assassinadas, que podem ler na íntegra aqui.

O relatório é extenso, mas resumidamente revela o seguinte: 36 portuguesas perderam a vida até ao dia 21 de novembro de 2012, maioritariamente às mãos (ou armas) dos seus maridos, companheiros, namorados ou ex-qualquer-situação-análoga; outras 49 foram alvo de tentativas de homicídio; há registo de mais 3 homicídios e 1 tentativa, em relações homossexuais; e ainda há a assinalar outras 76 vítimas - 4 delas mortais - resultantes deste autêntico banho de sangue.

A violência doméstica, o ciúme, conflitos familiares e aquela ideia troglodita de que o "macho" é dono e senhor da sua mulher, estão na origem da maioria destes casos. Um total de 165 vítimas, sem contabilizar filhos ou netos que certamente assistiram a cenas que os vão traumatizar e marcar pela vida inteira?

"Até que a morte nos separe" significa um compromisso, mas apenas enquanto os restantes votos de amor, carinho, apoio e respeito se mantiverem recíprocos... 


Imagem da campanha da APAV, via facebook.

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

UM TIRO FAZ A DIFERENÇA?

Esta notícia correu mundo o mês passado: uma adolescente paquistanesa foi baleada na cabeça dentro do autocarro escolar onde seguia, após um grupo talibã o ter assaltado com o propósito de a assassinar, ferindo também duas das suas companheiras. Malala Yousafzai, assim se chama a rapariga de 15 anos, sobreviveu e está a recuperar num hospital inglês, onde a sua família já a pôde visitar no final de outubro. O "hediondo crime" que a jovem cometeu foi o de manter um blogue e de ter defendido publicamente o direito à educação das mulheres, num território parcialmente ocupado pelos talibãs.

Apesar do alegado apoio do governo paquistanês, os talibãs - que confessaram a autoria do crime - afirmam que vão voltar a tentar matá-la, bem como ao pai, um professor e poeta muçulmano, mas não tão fundamentalista como eles entendem "dever ser". A casa da família foi igualmente vandalizada e a televisão doméstica destruída. Mas as minhas perguntas são: se (ou quando) a rapariga recuperar convenientemente, vão mandá-los de volta para o Paquistão? E com que cara ficam se forem atacados novamente? Já agora, porque é que não voltou a ser notícia nacional ou internacional?

Os cartoons até estão bem apanhados, mas certo é que fundamentalistas não se acanham tão facilmente, especialmente quando têm armas nas mãos.

Nem se diga que por cá (em Portugal ou na Europa) o acesso das mulheres à educação foi tarefa fácil. Não foi! Essa "luta" teve início no dealbar do século XX e prolongou-se por algumas décadas, fora raríssimas exceções nas elites sociais. Não consta é que baleassem miúdas com vontade de estudar. Memórias curtas não resolvem, solidariedade... precisa-se!

Viva Malala e o seu espírito!

Cartoons do facebook.

domingo, 15 de abril de 2012

DESENCANTO


Fotografia de Ian Britton
Saiu do tribunal apressada, mas, apesar da sensação de alívio, sentia uma pedra dura dentro do seu peito. O advogado do processo de divórcio acompanhou-a ao carro, numa lengalenga sobre recursos, trâmites em julgado e mais uma parafernália de termos jurídicos complicados que nem sequer entendia. Como pudera ser tão enganada?! Despediu-se do jurista com um aperto de mão, prometendo telefonar em breve, entrou no veículo cinzento metalizado e ligou a ignição. Rumo à planície alentejana, a terra que a vira nascer e crescer...

Apaixonara-se pelo marido (agora ex) logo no primeiro encontro, após alguns meses de troca de mensagens via Internet. Como professora do primeiro ciclo, a sua vivência era essencialmente casa e trabalho, mais rodeada de crianças e mulheres que outra coisa. Alberto era alguns anos mais velho, mas possuía todos os predicados que sempre desejara no seu “príncipe”: bonito, inteligente, simpático e agradável, além de empresário de sucesso, só tinha pontos a favor. Excetuando o pouco tempo disponível para namorar, com negócios que desenvolvia em vários países e múltiplas viagens, parecera-lhe perfeito, sorte fora encontrá-lo. Casaram!

Os primeiros anos de vida em comum tinham sido de paixão - ou assim ainda o julgava - apesar de ele não estar sempre presente. Como não estivera no nascimento do primeiro filho. Nessa altura resolveram que ela deixaria de trabalhar durante uns tempos, para acompanhar o desenvolvimento do bebé. Dois anos depois nascia o segundo e ela continuou em casa, um apartamento de luxo numa torre das melhores zonas de Lisboa, com todas as mordomias de uma empregada diária, que tratava das lides domésticas. Porém, o marido ausentava-se cada vez mais, passavam semanas em que nem sequer o via, incluindo sábados e domingos. Ele repetia que era a crise que o obrigava a uma maior competitividade e ela não tinha razões para duvidar. Mas notou o facto de ele já não a procurar na cama, invariavelmente tinha dores de cabeça ou adormecia. Apesar das suas várias tentativas de tornar o ambiente mais romântico, com jantares à luz das velas ou uma lingerie mais diáfana e sedutora na hora do deitar...

Estacionou frente à vivenda do pai, onde agora vivia, e entrou. O silêncio ecoava naquelas quatro paredes - o pai certamente ainda estaria no emprego, os filhos talvez já tivessem saído da escola, pois a tia Eunice ficara de os ir buscar, só a esperavam depois do jantar. Tomou um duche rápido, mudou para uma roupa mais leve e informal e decidiu ir até à cidade, onde comeria qualquer coisa numa esplanada. Afinal até estava com fome, não tinha conseguido almoçar com o nervosismo da audiência que a esperava. Lágrimas já gastara todas nos últimos anos, decidira que jamais voltaria a deitar uma por Alberto!

- Emília, és mesmo TU?! - exclamou uma voz entusiasmada à frente dela, o que a fez levantar os olhos do livro que estava a ler. Reconheceu a antiga amiga e colega de escola e, tímida como sempre, sorriu. Mas Filomena não era dada à timidez e, assim que percebeu estar certa, quase a içou da cadeira da esplanada num enorme abraço, enquanto lhe pespegava sonoras beijocas nas bochechas. Depois desabou na cadeira ao lado e, em ritmo ininterrupto, foi exclamando: “Que caloraça, quase me esquecia como junho é quente aqui em Portugal! Vou pedir uma imperial, também queres? Conta-me tudo, tudo o que tens feito! Ó faxavor, queremos duas imperiais e um pires de tremoços! Então, quais são as últimas novidades?”

Ligeiramente atrapalhada, Emília só conseguiu murmurar: “Divorciei-me hoje!” A amiga olhou-a espantada durante alguns segundos e acrescentou: “Quem foi o traste que se quis divorciar de ti? Conheço?” Acenou que não e, comovida com a confiança daquela amiga do passado, foi desenrolando a sua história, em traços largos. Partira para a capital para estudar e tornar-se professora primária, que tinha sido feliz no exercício da sua profissão, mas que se sentira muito só e com poucos amigos... E aí conhecera Alberto, mas ao fim de poucos anos de casamento o desencanto e a desilusão foram ganhando espaço e crescendo intimamente. Já não era possível ignorar a indiferença dele, para com ela e para com os filhos, que estava a criar sozinha. Mas,  dependente dele para todos os efeitos, não quisera prejudicar as crianças. Vivia praticamente isolada lá no alto da sua torre luxuosa, em redor dos filhos pequenos, sem a cabeleira da Rapunzel que lhe desse alguma esperança de ser salva – o seu príncipe estava desencantado!

Tímida e submissa como era, nunca antes tinha pensado resistir às vontades do marido, mas naquele dia disse-lhe que não, que tinha outro programa diferente do que ele estipulara – tinha marcado um lanche com antigas colegas da escola em que lecionara, pois era o aniversário de uma delas. Ele zangou-se, mas ela saiu à mesma. Quando já estava na garagem e se preparava para entrar no carro, ele surgiu por trás dela, agarrou-a por um braço e gritou aos seus ouvidos: “Tu não vais a lado nenhum! Mas afinal quem manda aqui?” Tentou livrar-se daquela mão que a estava a magoar, o que só serviu para ele a apertar ainda mais. E, de repente, ele estava a arrastá-la na direção da arrecadação, empurrou-a lá para dentro e trancou a porta à chave do lado de fora. Gritou, esmurrou a porta, mas nada: ele tinha ido embora! A sua mala tinha caído no chão durante a refrega, não tinha sequer o telemóvel para pedir ajuda a alguém. Duas horas depois ainda lá estava, até que começou a ouvir alguns ruídos inusitados e a lâmpada da arrecadação apagou-se. Assustada, gritou a plenos pulmões por socorro, e, por fim, ouviu uma voz: “Está aí alguém?” “Tirem-me daqui, tirem-me daqui”, gritava completamente em pânico! A porta foi arrombada e ela saiu do seu cativeiro tão trémula, que teve de ser amparada pelos bombeiros até à rua. Não tinha notado o cheiro a queimado, mas facto é que um incêndio no primeiro andar do prédio motivara o aparecimento destes, que tinham desligado a eletricidade do edifício e apagado o fogo rapidamente. Mas um deles ouvira os seus gritos, através das saídas de ventilação da garagem, e resolvera indagar.

Era impossível saber quanto tempo o marido tencionara deixá-la trancada de “castigo”, mas estava longe de lhe dar nova oportunidade para tal. Chamou a polícia, relatou o ocorrido, os agentes tomaram nota do testemunho do bombeiro e ainda a escoltaram até casa, onde apressadamente encheu duas malas de roupa dela e das crianças – felizmente, o marido estava ausente! Depois de apanhar os filhos que brincavam com um amigo que residia na vizinhança, partira rumo à sua terra natal, onde sabia que o seu pai os receberia de braços abertos...

- Bolas! - exclamou Filomena – Esse gajo era um autêntico psicopata! E agora, que vais fazer?

Sorriu. "Vou criar os meus filhos e trabalhar! Mas casamento... nunca mais!"

Trata-se de mais uma blogagem coletiva - na segunda fase da série "Amor aos Pedaços", subordinada ao tema "Desencanto"- numa promoção conjunta dos blogues da Luma Rosa, da Rute e da Rosélia. Ah, e a história em si não é verídica, é um apanhado de várias histórias cruzadas, que infelizmente acontecem por aí...

sexta-feira, 23 de março de 2012

HUMOR, NO FACEBOOK!

Bom, a coleção de imagens humorísticas retiradas do FB já vai longa e serve de contraponto a outras imagens confrangedoras publicadas ontem por lá, dando conta da violência da ação policial sobre manifestantes e jornalistas em pleno Chiado, em dia de greve. Nada que se deva omitir ou esquecer, mas tenho a certeza que outros bloguistas o farão. Tal como o Paulofski ou a São já o fizeram, dando espaço e voz à indignação de todos nós.

Mas começando pelo princípio, já viram que bons exemplos tivemos?

(até admira que sejamos todos tão bonzinhos...)

E esta figura mítica, numa posição tão infeliz, hein?! Não há direito que nos tirem assim as ilusões de sermos tão bonzinhos todos os dias...

Ui, que brejeirice!

Credo! Esta ainda é pior: além de brejeira ainda é machista! Hummm... mas se calhar na Idade da Pedra era mesmo assim, com os mais fortes e armados a maltratarem as mais fracas. Claro que hoje em dia já não acontece. Quer dizer... raramente... só às vezes... ou vezes demais?!? (e não, não vou voltar às cargas policiais!)

Ah, OK, esta é mais familiar e ingénua! Cobarde e traiçoeira, mas mesmo assim mais soft...

E a Mafaldinha não podia faltar, com uma frase castelhana, mas lapidar! Bem hajam todas as mentes imaginativas e criativas, que nos fazem sorrir ou rir apesar dos pesares... E todos os amigos que partilham essa boa disposição.

BOM FIM DE SEMANA PARA TODOS!!!

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

CADA VEZ MAIS BELAS?

Num passado não muito longínquo, as mulheres portuguesas quando atingiam a meia-idade faziam questão de não se distinguir umas das outras: trajavam uma escuridão quase enlutada, em peças disformes que não lhes contornavam o corpo, encarrapitavam o cabelo num chinó ou cortavam-o curto, maquilhagem pouca ou nenhuma, como jóias apenas a(s) aliança(s) e porventura aqueles brinquinhos de ouro colados às orelhas, que as próprias avós lhes tinham oferecido na infância. Exceções só em dias de festa, quando acompanhadas pelos maridos, filhos ou outros familiares podiam exibir um pouco mais a sua feminilidade... permanecendo discretas!
Assim ditavam os rígidos padrões morais da sociedade, apadrinhados pela Igreja, e ai daquelas que extrapolassem esses ditames - de flausinas a velhas gaiteiras (... ou pior!), poucas escapavam  à má-língua da vizinhança! Uma espécie de fado: quando as mulheres envelheciam tinham de parecer velhas e o preto era a cor mais apropriada para vestirem! O que determinou a paródia de Ivone Silva, num programa televisivo dos anos 80, que gozava essa mentalidade tacanha:: "com um simples vestido preto, eu nunca me comprometo"...
Muita coisa mudou entretanto. Para melhor! As mulheres aprenderam a envelhecer mais alegremente, a cuidarem da sua pele antes, durante e depois do aparecimento das primeiras rídulas, a esquecerem os carrapitos, a madeixarem ou pintarem os cabelos, a permitirem que este cresça naturalmente envolvido em cãs ou em cortes mais sofisticados, a tratarem e a envernizarem as unhas das mãos e dos pés, a maquilharem-se subtil ou mais exoticamente, a extravasarem adiposidades extra no ginásio ou noutros exercícios físicos, a combinarem diversos acessórios com a roupa que usam e a deixarem o luto dentro do armário... pelo menos parcialmente!
Não, as mulheres portuguesas não são mais belas do que as suas avós ou bisavós. Mas a aparência cuidada faz uma enorme diferença quando se olham ao espelho: têm a liberdade de escolher a imagem que querem ver refletida e só isso torna-as mais felizes...

UM BELO FIM DE SEMANA PARA TODOS!

Imagem da net.

quarta-feira, 29 de junho de 2011

O SORRISO DE MONA LISA

Katherine Watson (Julia Roberts) vai leccionar História de Arte  para o conservador Wellesley College e depara-se com uma turma de raparigas que decoram bem a lição, mas a única finalidade que têm na vida é casar. Decorre então o ano de 1953, após um período em que as mulheres lutaram e adquiriram alguma igualdade e liberdade, ao trabalhar lado a lado com os homens no esforço exigido pela II Guerra Mundial, mas as jovens estão dispostas a retroceder no tempo e voltar à sua tradicional função de "fada do lar".
Não se cingindo apenas ao manual escolar conservador, a professora consegue que as alunas comecem a olhar a arte de um ponto de vista mais pessoal, ultrapassando os limites das opiniões veiculadas pelos "conceituados especialistas", debitadas até à exaustão nos trabalhos iniciais. O que, por um lado, lhe granjeia alguma admiração e popularidade entre as alunas, mas, por outro, a desconfiança do restante corpo docente. Porém, mudar mentalidades é mais complicado, especialmente quando todas essas jovens têm um comportamento padrão, onde reina o mimetismo na forma de vestir, pentear, maquilhar, pensar ou até nos comezinhos sonhos de, depois de casar, ter uma máquina de lavar roupa...
Para quem quiser espreitar o trailer:

Este filme de 2003, do realizador Mike Newell não parece ter despertado grande entusiasmo - a meu ver, injustamente criticado por ser uma espécie de "Clube de Poetas Mortos" no feminino - pessoalmente gostei de rever na TV. Tanto pelas interpretações das actrizes, como por retratar a sociedade americana pós-guerra, apesar de tudo mais avançada que a portuguesa da época!
Deixando no ar uma questão sempre actual: Quem define o que é arte? A apreciação refinada e conhecedora dos críticos e mestres do métier, ou o gosto comum dos diversos povos?

Imagem de cena do filme, da net.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

DE FACA E ALGUIDAR...

Um dia destes, dando uma volta por blogues alheios que não costumo visitar e ainda menos comentar (como diz o ditado popular, "gato escaldado da água fria tem medo"), dei de caras com o post de um fulano que confessou ter dado uma sova na namorada. O "coitadinho" afirmava estar muito arrependido, que a discussão começou por ela ter usado a sua toalha de banho depois do duche, que os ânimos se exaltaram e ela afinfou-lhe um estalo na cara e ele "apagou" - quer dizer, pegou nela e atirou-a para cima da cama, deu-lhe umas valentes murraças e a rapariga foi parar ao hospital pelo seu próprio pé, enquanto ele ficou a fumar um cigarro na sala. Aí já ele tinha acordado do "apagão" e telefonou-lhe, ela mandou-o bugiar e fez queixa na polícia da agressão. Portanto, para além de ficar sem namorada, o "pobre" ainda tem de responder em tribunal por um processo-crime.
Claro que todos sabemos que estas cenas de faca e alguidar acontecem, muito mais do que o desejável, mas o mais assustador é vir contá-las para o blogue, tentando desculpar-se que nem se lembrava de nada da agressão. Pois, pois, também posso não me lembrar do que comi ao almoço ontem, mas se estivesse envolvida numa cena de pugilato, não seria tão fácil esquecer!
Mas o que esta lamentável historieta tem de mais triste são alguns dos comentários das suas amigas da blogosfera (da rapaziada não teve nenhuma compreensão, antes pelo contrário!): alegando imparcialidade, indulgência, dando conselhos, etc. e tal, até aparece lá uma tonta a concordar que "algumas bem precisam de apanhar"? Infelizmente, há gente muito rasca nesta terra! E estas defensoras de brutamontes nem se tocam nos disparates que comentam...
(e não, não contem comigo para fazer publicidade a blogues de gentalha desta índole, portanto não há link para nenhum dos intervenientes!)    

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sábado, 14 de maio de 2011

SEMANA APÓS SEMANA

 "Na última semana beatificámos um Papa, casámos um príncipe, fizemos uma cruzada e matámos um mouro. Bem-vindos à Idade Média!", foi a frase de autor desconhecido que circulou no Facebook esta semana.
Semana esta em que: os Homens da Luta não foram apurados para a final do Eurofestival a decorrer em Dusseldorf (ui, ui, que surpresa!), que valeu a Nuno Markl este comentário, igualmente facebookiano: "Pronto, as almas escandalizadas com a degradação da música portuguesa podem respirar de alívio: os Homens da Luta não passaram à final. Depois deste sobressalto, para o ano decerto retomamos as nossas cantigas dramáticas sobre o mar, o mar, o mar - e a normalidade será reposta. (Bocejo)"; o ZyngaPoker do FB continua sem permitir oferecer prémios; o blogger esteve em manutenção durante cerca de 22 horas e apagou comentários; no concurso do Malato um concorrente respondeu à pergunta de "quem escreveu 'mudam-se os tempos, mudam-se as vontades'?" com "Shakespeare"!
Mas tudo isto são trivialidades,  perante a absolvição de um psiquiatra - pelo crime de violação de uma paciente grávida de 34 semanas - determinada pelo Tribunal da Relação do Porto, porque os juízes consideraram os factos provados, mas que uns "puxões de cabelos" e uns "empurrões" não foram violência suficiente para que a vítima não resistisse! Com a declaração contra de um desses juízes, note-se! Mesmo assim, suficiente para perceber a discriminação e a falta de valores e sensatez reinantes nos nossos tribunais. Será que a tal Idade Média veio para se instalar???
Fiquem bem!

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

BONECAS DE CARNE E OSSO

Uma amiga minha chamou-me a atenção para um programa televisivo que dá pelo nome de "Toodlers & Tiaras" e que passa num canal americano que nem sabia que existia - Travel & living. Em horário nobre, note-se!
Então o dito programa consiste em concursos de beleza para meninas dos 0 aos 12 anos (sim, leram bem!). Pelo que entendi, existem vários ao nível de cada estado federal ao longo do ano, provavelmente até alguns nacionais. Ao que assisti e que decorreu na Carolina do Norte, a promoção do evento coube a uma empresa de produtos derivados de porco, com a respectiva marca orgulhosamente patente na estatueta de um porco no exterior do edifício. Tudo a ver com concursos de beleza, obviamente!
A curiosidade do programa é a das câmaras televisivas começarem a seguir algumas das concorrentes nos dias anteriores à exibição. E aí as mãezinhas babadas mostram as tiaras e troféus que as filhas já receberam ao longo da sua curta existência, os seus guarda-roupas recheados de vestidos carregados de folhos, brilhantes, lantejoulas e plumas, compridos, curtos ou desportivos, a par dos inúmeros preparativos que fazem a anteceder a apresentação - além do banho de lojas na demanda pelo vestido perfeito, o bronzeamento artificial, o branqueamento dos dentes, o treino a desfilar, sessões de cabeleireiro e maquilhagem, visionamento de outros concursos idênticos. Ou seja, de amador o concurso não tem nada, as concorrentes tornaram-se profissionais, não basta ter uma carinha laroca...
Ah e tal, que devem ser apenas meia dúzia de crianças a andar nessas bolandas? Nada disso, são cerca de 300 mil! Em termos de investimento também não sai barato, uma mãe inclusivamente gabou-se de ter arranjado segundo emprego para o custear - inscrição, vestidos, cabeleireiros, maquilhadores, personal trainers, etc. são caros e bem pagos. E claro que nem todas ganham, lá ficam as crianças no palco com um sorriso amarelo, quando não debulhadas em lágrimas!
Nem é só a imensa futilidade destes concursos que me irrita, nem o desprezo por criaturas que tratam as filhas como autênticas Barbies, quiçá frustradas por não terem brincado com bonecas na própria infância. É essencialmente a diferenciação que fazem na educação dos filhos, inculcando nelas a necessidade de serem lindas e belas a cada momento (mesmo que aparente e artificialmente), e incentivando neles as práticas desportivas... 

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sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

CADEIRA VAZIA

Terá hoje lugar a entrega do Prémio Nobel da Paz, em Oslo. Uma "entrega" simbólica, uma vez que Liu Xiaobo, o galardoado, se encontra preso na China e impossibilitado de comparecer. Do mesmo modo, sua mulher Liu Xia permanece em prisão domiciliária e os amigos e simpatizantes do activista dos Direitos Humanos foram impedidos, pelo governo chinês, de sair do país. Assim, na cerimónia, supõe-se que  marcará presença uma cadeira vazia...
No facebook decorre o protesto de substituir a nossa imagem de perfil por uma cadeira vazia, como forma de solidariedade para com Liu Xiaobo que, recorde-se, cumpre uma pena de prisão de 11 anos por alegadas "actividades subversivas" (versão da justiça chinesa) - traduzidas por colaborar na escrita de um manifesto, defendendo a liberdade de expressão. Obviamente, aderi! 
Ah e tal, que não vale a pena protestar, que fica tudo na mesma? Não é bem assim: ontem, a iraniana Sakineh Ashtiani condenada à morte por apedrejamento, após confessar o adultério (não se sabe se de livre vontade ou forçada), foi libertada no seguimento de uma campanha a nível mundial nesse sentido. Uma boa notícia! Se bem que a luta continua, em prol de muitas outras mulheres que aguardam a sua vez nos corredores da morte das prisões iranianas...

BOM FIM DE SEMANA!

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terça-feira, 23 de novembro de 2010

MAIS MULHERES ASSASSINADAS!

Fotografia de Ian Britton

Já aqui referi este assunto, mas nunca é demais repetir. Se há dois anos por esta altura já tinham sido assassinadas 43 mulheres pelos seus companheiros ou ex-companheiros (que no final de 2008 registaria 46 homicídios), em 2009 estes números tiveram tendência a diminuir. O que mesmo assim não vale de muito, porque 29 casos ainda são demasiados, tendo em conta que estamos a falar de seres humanos mortos por mãos sanguinárias. Que não voltam ao convívio dos seus familiares e amigos, devido à violenta crueldade de um homem que se julgou dono e senhor da vida daquela mulher, como se vivesse em plena época feudal ou esclavagista. Mas pronto, sempre havia a ténue esperança que estas situações começassem a tornar-se menos frequentes ou quase inexistentes, com uma maior consciência de cada um na sociedade actual.
Engano! Ontem foram divulgados os dados de 2010 (provisórios, logicamente, uma vez que o ano ainda não acabou) e já se contam 39 mulheres assassinadas, mais 11 vítimas mortais associadas - supõe-se que de pessoas que estavam com elas ou as tentaram defender durante o crime - e ainda mais 37 tentativas de homicídio. Assim, tudo leva a crer que os números ficarão próximos dos de 2008 (os mais elevados desde 2004, altura em que o Observatório de Mulheres Assassinadas começou a registar estas estatísticas), perfazendo já um total de 247 assassínios!
E quem são esses cobardes assassinos? Os do costume: na grande maioria  são os companheiros - expressão genérica para  marido, homem com quem se vive em união de facto, amante ou namorado; ou os ex-tudo-isso, o que ainda é pior, porque significa que nem após um divórcio, separação ou final de relação elas estão livres desses brutamontes! 
Chamem-me radical ou feminista se quiserem, mas fulanos desta laia de macho-latino-de-trazer-por-casa, que lavam a honra que nunca tiveram com banhos de sangue, era mesmo encarcerá-los definitivamente, a "partir pedra" para ganhar o seu sustento. Mas não, daqui a uma década já andam por aí a assobiar  para o ar como meninos do coro, até encontrarem a próxima vítima...

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

NOUTRA DIMENSÃO!

Parece anedota, mas não é: Margarida Rebelo Pinto escreveu uma crónica intitulada "As gordinhas e as outras", no semanário "Sol", onde critica veementemente um tipo de mulheres da nossa sociedade, altamente perigoso: as gordinhas!
Segundo ela, em todos os grupos masculinos há uma "gordinha" espertalhona, bem-disposta, amigona, maria-rapaz, que vai a todas as noitadas e profere palavrões em barda à medida que ingere copos (ou outras substâncias) em longas desbundas com eles, com o intuito premeditado de apanhar algum incauto na cama. E os gajos, por remorso ou pena da dita cuja, perdoam-lhes todos os comportamentos inusitados e pouco femininos, ainda aceitando as suas acusações maquiavélicas a mulheres lindas, esbeltas, elegantes, sedutoras e cultas (como ela se considera a si própria, note-se!). E estas, coitadas, nem percebem porque é que aqueles homens não se rendem aos seus pés perdidos de amor, desconfiam que a culpa é da "gordinha de serviço"...
Convenhamos que a "teoria" é sofisticada, com laivos do irrealismo de uma twilight zone. Reside algures num limbo onde falta um espelho. Ou a sensatez. Ou ambas as coisas! 
(se estiverem interessados em anedotas, podem ler a crónica aqui)

Imagem de quadro de Fernando Botero.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

DONDOQUICES...

A proverbial sabedoria popular tem muito que se lhe diga, mas nos últimos anos arranjou um parente ainda mais pobre, normalmente via mail: qualquer um pode inventar umas frases, mais ou menos engraçadas, e enviá-las para os seus contactos pessoais, que mais tarde ou mais cedo vão parar às caixas de correio de  quase todos nós. Até aqui tudo bem, se a ideia inicial é provocar risos ou sorrisos...
Mas quando algumas mulheres tomam a sério uma 'pérola' deste género - "Se fores chata, as tuas amigas perdoam; se fores agressiva, as tuas amigas perdoam; se fores egoísta, as tuas amigas perdoam; agora experimenta ser magra e linda: tás lixada!" - garanto que me irrita! E rematar com um "é por isso que eu gosto tanto de homens!", parece-me ainda mais absurdo!
Bruxas, cabras e invejosas sempre existiram, mas uma amiga nunca se confunde com elas! E, verdade seja dita, a maior parte dos problemas das mulheres prende-se com homens: chatos e egoístas, quando julgam ser donos do pedaço; distantes e alheados, quando não querem compromissos para lá de uns encontros esporádicos; e agressivos, de todas as maneiras e feitios, quando a "escrava" não está pelos ajustes! Ou julgam que tanta mulher assassinada anualmente, pelos seus actuais ou antigos companheiros, é obra do acaso?
Dito isto, concordo que o mulherio tem pouca solidariedade entre si, mas acrescento que todas as minhas amigas são lindas! E se o sexo masculino não lhes dá o devido valor, eu dou!!!
(recuso-me a alinhar com dondocas, que crêem que a sua carinha laroca ou cinturinha de vespa vai produzir milagres entre os homens, forever; com o tempo, vão entender...)
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Hoje é o Dia Mundial da Fotografia! Aproveitem para ficar bem no retrato e não abrir a boca para dizer asneiras...

quinta-feira, 27 de maio de 2010

O FEMINISMO ESTÁ DATADO?!?

Isabel Allende é uma escritora chilena famosa e traduzida em quase todas as línguas do mundo ocidental. Confesso que só li dois livros dela - "Paula" e "A Soma dos Dias", ambos de cariz autobiográfico.

Como escritora é criticada por ser pouco literária e "não saber escrever" (nomeadamente pelos seus pares), mas facto é que os seus livros vendem-se aos milhões, o que despoleta sempre algumas invejas. Saber contar histórias é um dom que nem todos possuem, e ela sabe, além de ser uma mulher de causas e paixões. Assim, em 2007 foi convidada para participar no programa Ted Talks - que convida várias personagens de destaque a dar uma conferência de cerca de 18 minutos - onde, entre outros assuntos, falou de feminismo.

Segundo ela, teve uma enorme discussão com Paula - a sua filha que morreu de porfíria, após um prolongado coma, aos 28 anos (tema do livro de 1995) - quando esta afirmou que "o feminismo estava datado, o melhor era esquecer." E, com paixão, defendeu que as mulheres privilegiadas, que decidem o seu próprio caminho, nunca devem ignorar o sofrimento de tantas outras escravizadas, maltratadas, violadas, vendidas ou até assassinadas, sem se poderem defender perante os seus carrascos, que permanecem impunes.

Se bem que discorde de algumas opiniões de Isabel Allende, com esta concordo absolutamente: o feminismo só morre quando essas injustiças e desigualdades acabarem! (clap! clap! clap!)

Enfim, se tiverem curiosidade de ver os clips podem ver o resumo aqui (mas mesmo assim ainda tem mais de 7 minutos) ou a versão completa, dos quase 18.

ps - vi o vídeo completo pela primeira vez, há alguns dias atrás no Facebook, postado por um amigo, homem da minha geração...


Imagem da net.