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sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

CHEZ QUIPROQUÓ - 2012!

Não sei que vaipe me passou pela cabeça este ano, que foi um ver se te avias de concursos, passatempos e desafios: uns até ao dia seguinte, outros temporalmente limitados por regras definidas, inventadas à medida. A parte chata da coisa, foi o ter de relembrar que o passatempo estava em curso - detesto pedinchices!

O primeiro foi de escrita, logo em janeiro, e subordinado ao tema "Razões para acreditar em Portugal". Depois em julho e em dezembro houve dois de preencher legendas em cartoons sem elas! Super divertido verificar como a mesma imagem pode ter tantas interpretações, consoante o olhar de cada um...

Finalmente, e no que concerne aos passatempos promovidos pela gerência deste blogue, houve a "Onda fotográfica" em agosto/setembro e ""Mistério... num cartão?" em novembro/dezembro, ambos fotográficos, embora o segundo pudesse incluir desenhos, fotomontagens, colagens, trabalhos manuais e por aí fora. E os resultados são os que se veem nas colagens acima e abaixo, respetivamente.

Espero que ninguém se amofine com o uso das fotos e imagens nas colagens, realizadas por mim (em plena aprendizagem), até porque a intenção é homenagear todos os participantes, nestes e nos outros concursos, desafios e passatempos, que foram os seguintes: Rafeiro Perfumado, Luisa, Moyle, Pedro Farinha, Kim, Maria, W, Nina, Tons de Azul, Graça, São, Mixtu, Carlos II, Kok, Catarina, Rui da Bica, Carlos Barbosa de Oliveira, Vitor, Rosa dos Ventos, Vic, Teresa, Ematejoca, Safira, Poppy, Vício e Pedro Coimbra. Once again, obrigada a todos!

Por seu turno, também participei nas postagens coletivas de "Amor aos Pedaços", da Luma Rosa, Rute e Rosélia, divididas em 5 fases: Encantamento, Desencanto, Esperança, Questionamento e Reintegração. E em vários desafios e adivinhações do Rui da Bica (o nosso "mestre"!) , para além de nas "Praças da minha Vida", que o Carlos Barbosa de Oliveira promoveu em setembro. E por falar nisso, estou atrasada para um cafézinho nas "Crónicas on the rocks", não estou?

Tenham um EXCELENTE FIM DE SEMANA!

terça-feira, 30 de outubro de 2012

Desta vez a coleção de cartoons do facebook versa o amor. Uns mais humorísticos, outros mais ternurentos, com ou sem legendas, mas sempre em redor do tema preferido dos poetas. Espero que gostem da seleção:

Será que não havia pecado original?

Lá que desde tempos imemoriais deu novas ideias ao Homem, não restam dúvidas...

Talvez até com alguma ajuda dos céus!

E muita benevolência e condescendência paternal.

Claro que há sempre os insatisfeitos...

... ou os que procuram matar saudades!

Por vezes há também a consciência que ainda é cedo para aventuras amorosas,

outras é difícil entender uma singela homenagem...

Mas o amor é assim, nem sempre totalmente compreendido! 

domingo, 15 de julho de 2012

REINTEGRAÇÃO

Fotografia de Ian Britton

Parabéns, é um menino!” – disse o médico sorridente aos pais da Lurdinhas, que a tinham levado de urgência ao hospital, aflitos, por acreditarem que a filha de 16 anos estava com uma apendicite. A mulher cambaleou e agarrou-se ao braço do marido, enquanto o ouviu pronunciar, quase num sussurro: “Desculpe, senhor doutor, mas está enganado, a nossa filha chama-se Maria de Lurdes...” O médico acenou com a cabeça e atalhou: “Sim! E acabou de ter um rapaz, ainda estão ambos no recobro da sala de partos, mas está tudo bem!” Fez uma pausa e acrescentou: “Daqui a um bocadinho já os chamam para os verem, durante uns breves minutinhos, quando forem transferidos para o quarto e berçário!” Como o casal não retorquiu, deu meia volta e afastou-se, que tinha outros partos a efetuar. Noites de lua cheia, já se sabia que eram assim!

Sentaram-se novamente nas desconfortáveis cadeiras da sala de espera, desorientados, sem coragem sequer para verbalizar os pensamentos que os atingiam à velocidade de um raio. Como é que iam ser agora as suas vidas, num meio tão pequeno, onde toda a gente conhecia a vida de toda a gente, quando a notícia se espalhasse? Na cidade provinciana onde viviam existia uma casta de banidos, com quem ninguém falava, a não ser num eventual atendimento clientelar - mulheres divorciadas, as que trabalhavam no bar noturno, bêbados e mais uns quantos a quem ninguém passava cartão. Definitivamente, Lurdinhas ia entrar diretamente para este grupo e eles com ela. Uma rapariga adolescente e solteira, a ter um filho? Não havia memória de tal ter acontecido entre aqueles com quem conviviam. Dez anos após a revolução de abril e a mentalidade das pessoas da terra pouco ou nada tinha evoluído. Nem a deles, para dizer a verdade...

Apenas tiveram oportunidade de acenar à filha da porta do quarto, pois já passava das duas da manhã e as restantes parturientes estavam a dormir. O neto dormitava serenamente nos braços de uma enfermeira, antes desta o deitar e aconchegar no  respetivo berço. Embora feliz com o nascimento do filho, Lurdinhas também demorou para adormecer. Sabia que para os pais era uma grande desilusão, como para Luis, quando soubesse. Por isso não tinha dito nada a ninguém, durante todos aqueles meses, evitando o desgosto e o receio de propostas de aborto. “Para não estragares a tua vida”, parecia que os estava a ouvir. Eram todos muito católicos, mas às vezes faziam 'vista grossa' nessas questões de princípio, quando lhes tocava por perto. Mas e agora, como iria ser?

A notícia caíu como uma bomba na cidade, logo no dia seguinte: não se falava noutra coisa nos cafés, na rua e em cada esquina, as beatas benziam-se, as más-línguas costumeiras acrescentavam à história dichotes como “aquela sonsa nunca me enganou!” ou “quis apanhar o coitado do rapaz, é o que é!” Nessa mesma tarde, Luis partiu desterrado para casa de uns tios de Braga, por imposição paterna – afinal de contas, também tinha apenas 16 anos. À exceção dos pais e da madrinha - que veio de propósito de Lisboa, assim que soube da novidade – mais nenhum dos amigos de Lurdinhas a visitou no hospital. E foi a madrinha que, mais friamente, apontou uma solução temporária para o problema.  Com as aulas e os exames do 11º ano finalizados, nada impedia Lurdinhas e o bebé de irem passar uma temporada com ela à capital, pelo menos até os ânimos acalmarem. Ela própria tivera de abandonar a sua terra natal em tempos idos, pois a alternativa de ficar acarretava aturar um marido doidivanas, que gastava tudo o que ganhava com as suas múltiplas aventuras e ainda lhe ia à carteira ou à conta bancária, quando o dinheiro faltava.

A família aceitou a oferta, agradecida. Mas a solução temporária tornou-se definitiva, durante os anos seguintes – Lurdinhas conseguiu encontrar um emprego em part-time e continuou a estudar em Lisboa, até acabar o curso universitário. Visitava os pais esporadicamente, mas estes eram mais assíduos nas viagens à capital, para reencontrarem a filha, o neto e aquela boa amiga, que tanto os ajudara.

Lurdinhas criou o rapaz e atualmente trabalha como professora efetiva numa escola lisboeta. Entretanto casou e teve mais duas filhas, vivendo com a família nos arredores da cidade. O filho viajou para Paris, onde realiza um estágio profissional. Este nunca chegou a conhecer o pai biológico, nem Lurdinhas voltou a encontrar Luis...

A 5ª fase da blogagem coletiva promovida pelos blogues da Luma Rosa, da Rute e da Rosélia, na série de "Amor aos Pedaços", desta vez com o tema "Reintegração". A história em si é baseada em factos verídicos, a partir de duas ou três do mesmo género que conheci. Casos mais comuns do que se supõe...

domingo, 24 de junho de 2012

OS VÁRIOS FINAIS...

Lembram-se deste texto, onde se convidavam os comentadores a tirar as suas próprias conclusões e, se assim o entendessem, a contribuir com um final? Então, aqui estão eles, pela ordem de chegada:

Maria:
"Ela descobriu no computador do marido que ele tinha organizado umas férias surpresa para toda a família, umas férias que seriam do agrado de todos, até do dela...sentiu-se traída, não só por ele ter escondido isto dela, como também pelo 3 meses que perdeu a organizar as férias desse ano, ao mais pequeno pormenor, como fazia todos os anos, desde que casaram..."

"Se a traição é a que imagino, a estória acaba com ruptura completa e assumida."

"Pois se antes os fantasmas do passado a assombravam, não mais! Amanhã novo dia, mais livre e solta, poderia rever seus planos e agir conforme sempre quis."

"De alguma forma, a vida sempre segue, e todos viveram felizes para todo o sempreeeeeeeeee!!"


Moyle:
"Quando ele voltou, o confronto. A desilusão dela cortavam-lhe a palavra a ele. Antes de explicações o cisão absoluta, inabalável e unilateral.

Talvez ele não devesse ter mantido segredo. Uma relação constrói-se na confiança e na franqueza. Mas também descobrira que tinha aquela filha, de uma noite de maluqueira na última semana das férias grandes antes do ano de caloiro, havia poucos meses.

O despeito da esposa, a quem jurara amor eterno, não lhe permitiu ver naquelas fotografias de uma rapariga de 20 anos e, sobretudo, naquelas mensagens de e-mail mais do que luxúria, quando de amor paterno se tratava."

A maioria prefere um final feliz! Mas isso não quer dizer que, com as voltas que a vida dá e os enganos e tropeções de caminho, não se possa começar de novo e até ser mais feliz, seguindo um outro rumo... (era para colocar aqui a música da Simone, tema da série "Malú Mulher", mas hoje é o YouTube que está de birra... fica para outra ocasião!)

Obrigada a todos pela participação!

Imagem do facebook.

sexta-feira, 15 de junho de 2012

QUESTIONAMENTO


Naquele sábado, pôs fim a todas as hesitações que se agigantavam na sua cabeça há muito tempo... talvez até demais! Mas já não conseguia controlar os pesadelos constantes que lhe atormentavam as noites e lhe ensombravam os dias, sem nenhuma certeza do que era sonho ou realidade!

Aquilo que se preparava para fazer parecia-lhe uma traição. Contudo, a ocasião era única, com a ausência dos filhos e do marido: os rapazes de férias com tios e primos, ele numa viagem a Paris, para uma reunião de negócios importante e inadiável. O silêncio ecoava entre as paredes da casa vazia, também não haveria lugar a surpresas de última hora...

Pôs uma música suave a tocar na aparelhagem e abriu uma garrafa de vinho branco, que pusera previamente a refrescar no congelador. Bebeu um pequeno gole da bebida, num travo fresco e frutado, embora ligeiramente amargo. Sabia de antemão que não ia resistir àqueles olhos negros que cintilavam de longe, como se chamassem os seus braços na sua direção, sopesando a força dos verdadeiros sentimentos.

Timída, tocou-lhe de leve na capa escura, retirando-a dos seus ombros. Insaciáveis, os seus dedos procuravam tocar na tecla exata, sem perder tempo com pormenores desnecessários, mas desvendando cada segredo daquele corpo...

Três horas depois, fechou a tampa negra e brilhante do computador portátil, que o marido esquecera em casa durante aquela reunião de fim de semana. E teve a certeza que a maior traição... não era a dela!

Deitou-se e adormeceu de seguida, sem sombra de qualquer pesadelo!

§ único – Esta estória acaba aqui? Depende de quererem (ou não) dar-lhe um outro final, que poderão acrescentar na caixa de comentários...  Escolha múltipla, topam?
 
Trata-se  da quarta e última blogagem coletiva da série "Amor aos Pedaços", iniciativa conjunta dos blogues da  Luma Rosa, da Rute e da Rosélia. Parabéns a elas, por motivarem tanta gente a escrever sobre amor... ainda que aos pedaços! 

BOM FIM DE SEMANA!
Imagem do facebook.

terça-feira, 15 de maio de 2012

ESPERANÇA


Fotografia de Ian Britton

Tantos anos vividos na demanda de um “príncipe encantado”, para chegar à conclusão que afinal tal personagem não existia? Eram apenas rapazes e homens de carne e osso, com as suas qualidades e defeitos, como ela própria, muito longe de qualquer magia ou fidalguia...

No dia e hora em que percebeu que esses heróis estavam reservados para os contos de fadas, sentiu-se livre! Esqueceu deceções, ciúmes, mentiras, deslealdades e traições, passou a viver a vida como cada momento fosse o último. Talvez a inesperada morte do pai e a da avó, poucos meses depois, tivessem contribuído para esse modo de estar. Certo é que as noites eram tão longas quanto os dias, em danças, contradanças e copanadas, até o sol raiar! O cometa Halley teve influência nesse comportamento estranhamente desvairado? Ainda está por apurar, mas loucura era, de certeza!

A irmã e a maior parte dos amigos mais antigos casaram, alguns tiveram filhos, ainda os encontrava de vez em quando. Já não tinham a mesma pedalada para as noitadas, nem as conversas sobre fraldas e afins lhe interessavam por aí além, mas gostava de os rever, embora já a considerassem como a “solteirona” de serviço...

Os convites para casamentos não faltavam e, no de uma dessas amigas de longa data, ali para os lados de Azeitão, reencontrou quase todos. A cerimónia religiosa (em que o padre proibiu os noivos de se beijarem no final, porque “na minha Igreja, não!”) e o copo d'água que se seguiu proporcionaram-lhe momentos de agradável convívio. Até que a páginas tantas, um ex-namorado (já casado) a arrastou pela sala, para ir passar a mão na careca de um tio da noiva que, segundo rezava a lenda, era prodigiosa para arranjar casamento rapidamente. Recusou, mas o tio garantia que sim, que resultava e não se importava nada, e incentivada por outros amigos em redor, lá fez o papelão mais humilhante da sua vida. (perdoou tudo a esse ex, menos essa humilhação!)

O cometa já tinha desaparecido do horizonte, as noites já não eram tão longas e também serviam para dormir, o trabalho obrigava a esse descanso. As férias eram passadas em Caminha, num pequeno apartamento familiar. Nesse mesmo ano, em que decidira cultivar mais a amizade do que qualquer perspetiva amorosa, rumou ao norte conjuntamente com outra amiga solteira. Nem se lembram como, mas tiveram conhecimento de uma tradição local, em que bastava pôr uma velinha numa capela específica, para o casório estar à vista. Riram e gostaram da ideia: mal não fazia, de certeza! E lá foram as duas depositar uma velinha nesse altar, apesar da fé diminuta...

E não é que resultou... para ambas?

"Esperança" é o terceiro tema da blogagem coletiva da série "Amor aos Pedaços", numa iniciativa conjunta dos blogues da Luma Rosa, da Rute e da Rosélia.

domingo, 15 de abril de 2012

DESENCANTO


Fotografia de Ian Britton
Saiu do tribunal apressada, mas, apesar da sensação de alívio, sentia uma pedra dura dentro do seu peito. O advogado do processo de divórcio acompanhou-a ao carro, numa lengalenga sobre recursos, trâmites em julgado e mais uma parafernália de termos jurídicos complicados que nem sequer entendia. Como pudera ser tão enganada?! Despediu-se do jurista com um aperto de mão, prometendo telefonar em breve, entrou no veículo cinzento metalizado e ligou a ignição. Rumo à planície alentejana, a terra que a vira nascer e crescer...

Apaixonara-se pelo marido (agora ex) logo no primeiro encontro, após alguns meses de troca de mensagens via Internet. Como professora do primeiro ciclo, a sua vivência era essencialmente casa e trabalho, mais rodeada de crianças e mulheres que outra coisa. Alberto era alguns anos mais velho, mas possuía todos os predicados que sempre desejara no seu “príncipe”: bonito, inteligente, simpático e agradável, além de empresário de sucesso, só tinha pontos a favor. Excetuando o pouco tempo disponível para namorar, com negócios que desenvolvia em vários países e múltiplas viagens, parecera-lhe perfeito, sorte fora encontrá-lo. Casaram!

Os primeiros anos de vida em comum tinham sido de paixão - ou assim ainda o julgava - apesar de ele não estar sempre presente. Como não estivera no nascimento do primeiro filho. Nessa altura resolveram que ela deixaria de trabalhar durante uns tempos, para acompanhar o desenvolvimento do bebé. Dois anos depois nascia o segundo e ela continuou em casa, um apartamento de luxo numa torre das melhores zonas de Lisboa, com todas as mordomias de uma empregada diária, que tratava das lides domésticas. Porém, o marido ausentava-se cada vez mais, passavam semanas em que nem sequer o via, incluindo sábados e domingos. Ele repetia que era a crise que o obrigava a uma maior competitividade e ela não tinha razões para duvidar. Mas notou o facto de ele já não a procurar na cama, invariavelmente tinha dores de cabeça ou adormecia. Apesar das suas várias tentativas de tornar o ambiente mais romântico, com jantares à luz das velas ou uma lingerie mais diáfana e sedutora na hora do deitar...

Estacionou frente à vivenda do pai, onde agora vivia, e entrou. O silêncio ecoava naquelas quatro paredes - o pai certamente ainda estaria no emprego, os filhos talvez já tivessem saído da escola, pois a tia Eunice ficara de os ir buscar, só a esperavam depois do jantar. Tomou um duche rápido, mudou para uma roupa mais leve e informal e decidiu ir até à cidade, onde comeria qualquer coisa numa esplanada. Afinal até estava com fome, não tinha conseguido almoçar com o nervosismo da audiência que a esperava. Lágrimas já gastara todas nos últimos anos, decidira que jamais voltaria a deitar uma por Alberto!

- Emília, és mesmo TU?! - exclamou uma voz entusiasmada à frente dela, o que a fez levantar os olhos do livro que estava a ler. Reconheceu a antiga amiga e colega de escola e, tímida como sempre, sorriu. Mas Filomena não era dada à timidez e, assim que percebeu estar certa, quase a içou da cadeira da esplanada num enorme abraço, enquanto lhe pespegava sonoras beijocas nas bochechas. Depois desabou na cadeira ao lado e, em ritmo ininterrupto, foi exclamando: “Que caloraça, quase me esquecia como junho é quente aqui em Portugal! Vou pedir uma imperial, também queres? Conta-me tudo, tudo o que tens feito! Ó faxavor, queremos duas imperiais e um pires de tremoços! Então, quais são as últimas novidades?”

Ligeiramente atrapalhada, Emília só conseguiu murmurar: “Divorciei-me hoje!” A amiga olhou-a espantada durante alguns segundos e acrescentou: “Quem foi o traste que se quis divorciar de ti? Conheço?” Acenou que não e, comovida com a confiança daquela amiga do passado, foi desenrolando a sua história, em traços largos. Partira para a capital para estudar e tornar-se professora primária, que tinha sido feliz no exercício da sua profissão, mas que se sentira muito só e com poucos amigos... E aí conhecera Alberto, mas ao fim de poucos anos de casamento o desencanto e a desilusão foram ganhando espaço e crescendo intimamente. Já não era possível ignorar a indiferença dele, para com ela e para com os filhos, que estava a criar sozinha. Mas,  dependente dele para todos os efeitos, não quisera prejudicar as crianças. Vivia praticamente isolada lá no alto da sua torre luxuosa, em redor dos filhos pequenos, sem a cabeleira da Rapunzel que lhe desse alguma esperança de ser salva – o seu príncipe estava desencantado!

Tímida e submissa como era, nunca antes tinha pensado resistir às vontades do marido, mas naquele dia disse-lhe que não, que tinha outro programa diferente do que ele estipulara – tinha marcado um lanche com antigas colegas da escola em que lecionara, pois era o aniversário de uma delas. Ele zangou-se, mas ela saiu à mesma. Quando já estava na garagem e se preparava para entrar no carro, ele surgiu por trás dela, agarrou-a por um braço e gritou aos seus ouvidos: “Tu não vais a lado nenhum! Mas afinal quem manda aqui?” Tentou livrar-se daquela mão que a estava a magoar, o que só serviu para ele a apertar ainda mais. E, de repente, ele estava a arrastá-la na direção da arrecadação, empurrou-a lá para dentro e trancou a porta à chave do lado de fora. Gritou, esmurrou a porta, mas nada: ele tinha ido embora! A sua mala tinha caído no chão durante a refrega, não tinha sequer o telemóvel para pedir ajuda a alguém. Duas horas depois ainda lá estava, até que começou a ouvir alguns ruídos inusitados e a lâmpada da arrecadação apagou-se. Assustada, gritou a plenos pulmões por socorro, e, por fim, ouviu uma voz: “Está aí alguém?” “Tirem-me daqui, tirem-me daqui”, gritava completamente em pânico! A porta foi arrombada e ela saiu do seu cativeiro tão trémula, que teve de ser amparada pelos bombeiros até à rua. Não tinha notado o cheiro a queimado, mas facto é que um incêndio no primeiro andar do prédio motivara o aparecimento destes, que tinham desligado a eletricidade do edifício e apagado o fogo rapidamente. Mas um deles ouvira os seus gritos, através das saídas de ventilação da garagem, e resolvera indagar.

Era impossível saber quanto tempo o marido tencionara deixá-la trancada de “castigo”, mas estava longe de lhe dar nova oportunidade para tal. Chamou a polícia, relatou o ocorrido, os agentes tomaram nota do testemunho do bombeiro e ainda a escoltaram até casa, onde apressadamente encheu duas malas de roupa dela e das crianças – felizmente, o marido estava ausente! Depois de apanhar os filhos que brincavam com um amigo que residia na vizinhança, partira rumo à sua terra natal, onde sabia que o seu pai os receberia de braços abertos...

- Bolas! - exclamou Filomena – Esse gajo era um autêntico psicopata! E agora, que vais fazer?

Sorriu. "Vou criar os meus filhos e trabalhar! Mas casamento... nunca mais!"

Trata-se de mais uma blogagem coletiva - na segunda fase da série "Amor aos Pedaços", subordinada ao tema "Desencanto"- numa promoção conjunta dos blogues da Luma Rosa, da Rute e da Rosélia. Ah, e a história em si não é verídica, é um apanhado de várias histórias cruzadas, que infelizmente acontecem por aí...

quinta-feira, 15 de março de 2012

ENCANTAMENTO

Fotografia de Ian Britton

Tal como já tinha sabido da existência em múltiplos romances lidos e centenas de filmes visionados, aos 15 anos também eu sonhava com o meu cavaleiro andante, aquele que seria o amor da minha vida para todo o sempre... Não sendo eu princesa nem vivendo na era medieval, cedo concluí como provável que o meu “príncipe encantado” não fosse um nobre de sangue azul ou que me surgisse montado num alazão branco. Já se sabe que, não sendo ele possuidor dessas características, tornava-se muito mais difícil encontrá-lo!

Um dia, julguei saber quem ele era: tinha 15 anos como eu, era meu colega de turma no liceu e, desenganem-se desde já, não era lindo de morrer, nem o palhaço que as meninas tanto adoram, nem sequer um puto que se evidenciasse pela sua inteligência, cultura ou personalidade. De modo que não foi tiro e queda, não caí para o lado subitamente apaixonada à primeira vista! Na verdade, já nos conhecíamos desde os 13 anos de idade, altura em que entráramos na mesma turma e era igual aos outros, embora fosse dos mais baixotes e sardentos, alinhando no clube dos que preferiam jogar à bola do que conversar com as meninas. E nem aí se evidenciava por aí além...

À medida que ele foi crescendo e as suas preferências pelas futeboladas diminuindo, aconteceram dois ou três factos que nos aproximaram. Primeiro, calhou nas carteiras da sala de aula, enquanto tinhamos como professora de Ciências uma-parva-todos-os-dias, que embirrava com “aquele grupinho do fundo da sala junto à janela”, o seu candidato dileto à expulsão quase diária das suas aulas. O recreio maior até era motivo de alegria, mas já devido a um segundo facto importante– tinha acontecido o 25 de Abril! 

Outra coisa que tínhamos em comum era o caminho para casa, que percorríamos quase diariamente, a pé - para poupar o dinheiro do autocarro (nesse tempo ainda não existiam passes da carris) – com alguns colegas, pelo menos se não chovesse muito. As aulas terminavam às 7 da tarde e a balbúrdia da "hora de ponta" em Sete-Rios era enorme, com longas filas de espera nas paragens de autocarros. Vir a pé compensava também pela possibilidade de, no final, gastarmos o dinheiro num chocolate ou gelado, consoante o apetite de momento. 

Claro que durante esses recreios e caminhadas conversávamos muito e, no ano seguinte, ainda inventaram umas greves intermitentes na escola, pelo que os jardins da Gulbenkian passaram também a fazer parte dos nossos circuitos, onde conversávamos ou jogávamos às cartas com outros amigos. Nos dias de chuva recorríamos a uns matrecos manhosos na Calçada da Palma de Baixo ou a outro salão de jogos lá para os lados da Rua da Beneficência.

Não tinhamos os mesmo pontos de vista políticos – ele era militante da UEC- mas isso só contribuía para termos mais assuntos de que falar e até discutir. Sem nunca nos zangarmos, mesmo cada um ficando na sua. Era o amigo, o companheiro de todas as horas, divertido, simpático e brincalhão, sem deixar de ser cativante e sedutor – em suma, tinha descoberto o meu “príncipe"...  estava encantada!

Blogagem coletiva proposta por Luma Rosa, do blogue “Luz de Luma, yes party!”, subordinado ao primeiro tema “Encantamento” – de um conjunto de quatro a enquadrar em “Amor os pedaços”. Imagem de Luma Rosa.