quinta-feira, 14 de outubro de 2010

SONHOS E PENAS

Fotografia de Ian Britton

A Arminda veio para Lisboa estudar aos 18 anos, deixando para trás as terras nortenhas que a viram nascer e a mãe que trabalhava no campo, enquanto o pai emigrara para França para dar um futuro melhor à sua família. Alegre e simpática, ciente que os  pais se sacrificavam para lhe oferecer melhores oportunidades que eles próprios tiveram, determinação e empenho não lhe faltavam. E imensos sonhos, como só os muitos jovens conseguem ter!
Apesar de não conhecer ninguém na capital, conseguiu alugar um quarto perto da Faculdade, fazia as suas refeições nas cantinas universitárias e até encontrou uma antiga colega de liceu a viver em condições idênticas, que a acompanhou naqueles primeiros dias. Um mar de rosas (embora a comida das cantinas não fosse lá essas coisas, na época)...
Como os sonhos às vezes se transformam em pesadelos, uma quinzena depois, a dona da casa onde se alojara "despejou-a" no meio da rua, alegando que ela fazia "olhinhos" ao seu companheiro. A ciumenta trintona nem lhe devolveu o montante da estada já paga e, assim, Arminda viu-se abandonada na cidade com a sua  maleta, sem dinheiro suficiente para pagar novo alojamento. Sem saber o que fazer, seguiu para a universidade, onde conseguiu que lhe guardassem a mala na sala da Associação de Estudantes. Esta não tinha solução para o seu caso, nem a amiga a podia ajudar. Assistiu às aulas alheada, enquanto tentava desesperadamente resolver o problema na sua cabeça. Ainda que de um modo vago, pensou que se se escondesse por lá ninguém iria notar. 
Nunca se sabe como os acasos acontecem, mas Olinda notou o seu nervosismo e, mesmo sendo uma colega tão recente, perguntou-lhe o motivo. Ela explicou. Decidida, declarou que "na rua não podes ficar!" Pediu que esperasse um momento, enquanto foi telefonar à mãe (não existiam telemóveis na altura). E voltou, de olhos brilhantes, assegurando que a sua mãe as ia buscar... Nos dois meses seguintes Arminda viveu na casa de ambas, que ainda a ajudaram a encontrar um lar condigno para se alojar.
Por muito tempo que passe, há histórias que nunca se esquecem. E esta, para mim, é uma delas, que a própria protagonista me contou emocionada, poucos anos depois...

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

NOTICIAR OU SILENCIAR?

Todos sabemos que algumas notícias não devem ser divulgadas, pois corre-se o risco de surgirem logo de seguida uma série de macacos de imitação, para obterem os seus 5 minutos de fama (ou nem isso) originando um facto semelhante. Por exemplo, se alguém se suicida atirando-se da ponte X, surgindo a notícia nos media, logo aparecem outros a copiar o acto desesperado. Ou se uma escola fecha por ameaça de bomba - provavelmente ideia de um qualquer cábula que não estudou para o teste e para evitar o desaire - logo outras escolas recebem telefonemas idênticos e quase todas elas passariam mais tempo encerradas do que a cumprir a sua função. Até aqui, suponho que todos concordamos.
Mas o caso muda de figura, quando algumas circunstâncias do nosso dia a dia parecem ser deliberadamente ignoradas pelos meios de comunicação, que entretanto nos impingem todas as desgraças do planeta, discursos políticos ou económicos longos e fastidiosos - mas na longa linha dos poderosos, que os restantes são sistematicamente banidos do mapa -, bola, bola e mais bola, com os respectivos protagonistas a encherem o ecrã ou as páginas de trivialidades que pouco interessam, desde o que comeram ao almoço, ao quanto amam a nova namorada ou se quando eram pequeninos tinham o hábito de tirar macacos do nariz!
Assim, a censura, que não existe como tal, toma o nome de linha editorial, ao abrigo da qual tudo o que não  interessa revelar passa a não existir... Topam? E porque é que não interessa revelar? As razões são variadas, mas a primordial é velar pela segurança e bem-estar da população, que mantida na ignorância não terá ainda mais razões para se revoltar. Simultaneamente, também se cuidam dos próprios interesses, do bom nome de pessoas ou empresas, especialmente dos parceiros e amigalhaços administradores.
Quem disser que foi impedido de usar um transporte público devido a uma ameaça de bomba, que estava numa carruagem que incendiou, que participou numa manifestação de protesto, entre tantos outros "esquecimentos" noticiosos, arrisca-se a encontrar sorrisos trocistas e incrédulos pela frente! A mim, só me parece um déjá vu...

Imagem da net.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

COMER, ORAR, AMAR, EM FILME

O filme segue o livro de muito perto, e sobre esse já escrevi aqui. A minha opinião não difere da de então: é uma americanice pura! 
Julia Roberts é um trunfo no papel principal nesta película realizada por Ryan Murphy, onde Javier Bardem e Richard Jenkins também se destacam do restante elenco. Para lá do argumento fracote, poderiam ter sido explorados os fantásticos cenários de Itália, Índia e Indonésia (Bali) para, pelo menos, se destacar pela fotografia. Mas nem isso, esta resume-se ao banal "bonitinho", relegada para um plano secundaríssimo perante os dilemas existenciais e místicos de Liz!
Dito isto, é um filme leve, sem mortos, feridos (uma esfoladela na perna não conta!) ou explosões constantes, que alguns apreciarão... Pessoalmente, ia adormecendo na primeira parte, mas deixo aqui o trailer para quem quiser espreitar:


A segunda parte animou um bocadinho, com umas músicas brasileiras românticas e a tentativa do Javier (aka, Felipe)  falar português...
 
Imagem de cena do filme da net.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

ADIVINHAM O QUE FALTOU NO JANTAR?

Segunda-feira, 11 de Outubro de 2010


ADIVINHAM O QUE FALTOU NO JANTAR?

A ideia era gira: um grupo de amigos reunia-se num jantar de convívio, constituído essencialmente por petiscos de presuntos, enchidos e queijos, mas também saladas de atum com tomate ou pimentos devidamente temperadas com azeite, carpaccio  de novilho (?) com maionese, lentilhas com carnes, tortilhas e sobremesas de fruta, numa ementa tipicamente espanhola, tudo regado com água, refrigerantes, cerveja ou sangria, ao gosto do freguês.  Em seguida haveria um espectáculo de flamenco, a combinar perfeitamente com o ambiente saleroso.

Ninguém desistiu, apesar do temporal que desabou em Lisboa (e não só) - os 22 convivas continuavam  apostados numa noite alegre e de sã camaradagem. Assim à primeira, ninguém entendeu o que faltava. O empregado satisfez o primeiro pedido, mas disse que não havia mais. Alguns protestaram, até porque a cena não era tão barata assim, num preço previamente estipulado.

As doses servidas demonstraram grandes desigualdades, na que calhou em rifa a mim e às minhas parceiras, supostamente para dividir por 4, só constava um pedaço de carne e meia dúzia de feijões, até brinquei que os podíamos contar antes da divisão. O que motivou segunda reclamação (e não, não fui eu, que passo bem sem lentilhas, feijões, ou lá o que pretendam chamar àquilo!), deu azo a que o gerente, patrão ou whatever viesse ao nosso encontro desembestado, a falar alto com o pessoal, "qué esto es para disfrutarlo"! Arrogante e malcriado, mas convencido da sua razão, mandou calar os clientes, porque não suportava gente mal-disposta! Topam a animação?

Um fulano cheio de sorte, porque há muitos que conheço que por menos pediam o livro de reclamações! Nem lhe aturavam metade dos dislates!
Agora, só falta adivinhar o que faltava inicialmente (entre várias outras coisas, que também falharam)...

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ADENDA a 12 de Outubro de 2010:
Pois, ninguém adivinhou, embora algumas amigas já soubessem através de um comentário que fiz no Facebook: faltaram PRATOS! Segundo o gerente espanhol, nos bares-tabernas de Espanha o objecto é absolutamente desnecessário, o pessoal come com garfos, colheres ou... palitos! E como estávamos em  "su casa" que era "su corazón", teríamos de nos adaptar (e engordurar) para "disfrutar"...
Ainda hoje me estou a rir com a lata do fulano, até porque prato que chegasse à mesa com comida já não voltava à cozinha, no final todos tínhamos pratos ou pires à frente, no célebre desenrascanço tuga.
Mas voltar lá... NUNCA MAIS!

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

NO BICO DOS LÁPIS

Dalton Ghetti nasceu no Brasil em 1961, mas cedo se radicou nos EUA, em Connecticut, onde trabalha como carpinteiro há cerca de 25 anos. Entre outros hobbies, dedica-se a esculpir figuras nos bicos de lápis.

Para obter o efeito desejado, utiliza uma lâmina de barbear, agulhas de costura e uma faca de esculpir.

Os temas que o inspiram são variados e passam pelas próprias ferramentas que usa diariamente na sua profissão, de parafusos a...

... serras...

... ou, por exemplo, objectos rotineiros.

Estas mini-esculturas demoram vários meses ou anos a executar, com toda a minúcia e preciosismo de um verdadeiro artista, sendo que as mais complicadas são aquelas que envolvem elos de ligação, como estas últimas, e as suas obras já foram expostas em museus da área onde reside. Consta que não as vende, embora as ofereça aos amigos...


Têm um lápis aí à mão? Então anotem este meu desejo:

BOM FIM DE SEMANA E DIVIRTAM-SE!

Fotos recebidas por mail.
(Obrigada, Su!)

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

NOUTRA DIMENSÃO!

Parece anedota, mas não é: Margarida Rebelo Pinto escreveu uma crónica intitulada "As gordinhas e as outras", no semanário "Sol", onde critica veementemente um tipo de mulheres da nossa sociedade, altamente perigoso: as gordinhas!
Segundo ela, em todos os grupos masculinos há uma "gordinha" espertalhona, bem-disposta, amigona, maria-rapaz, que vai a todas as noitadas e profere palavrões em barda à medida que ingere copos (ou outras substâncias) em longas desbundas com eles, com o intuito premeditado de apanhar algum incauto na cama. E os gajos, por remorso ou pena da dita cuja, perdoam-lhes todos os comportamentos inusitados e pouco femininos, ainda aceitando as suas acusações maquiavélicas a mulheres lindas, esbeltas, elegantes, sedutoras e cultas (como ela se considera a si própria, note-se!). E estas, coitadas, nem percebem porque é que aqueles homens não se rendem aos seus pés perdidos de amor, desconfiam que a culpa é da "gordinha de serviço"...
Convenhamos que a "teoria" é sofisticada, com laivos do irrealismo de uma twilight zone. Reside algures num limbo onde falta um espelho. Ou a sensatez. Ou ambas as coisas! 
(se estiverem interessados em anedotas, podem ler a crónica aqui)

Imagem de quadro de Fernando Botero.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

TAMARA DREWE

Posy Simmonds publicou "Tamara Drewe" em vinhetas semanais  no jornal inglês "The Guardian", sendo estas posteriormente editadas em livro de BD. A história em si já é uma modernização de um romance do século XIX  de Thomas Hardy,  que agora foi adaptada ao cinema por Stephen Frears.
Numa aldeia rural inglesa, Nicholas Hardiment escreve livros policiais de sucesso, enquanto Beth, a sua mulher, o ajuda na tarefa e ainda aloja outros escritores que buscam o sossego e a inspiração nas bucólicas paisagens campestres. Enquanto isso, duas adolescentes em férias aborrecem-se mortalmente com a pacatez da aldeia, procurando animação nas páginas de revistas onde encontram as suas estrelas de rock favoritas. Mas quando a jornalista Tamara Drewe regressa à casa onde viveu com a sua mãe com intenção de a vender  - e o nariz que lhe valeu a alcunha de "pencuda" remodelado por uma cirurgia plástica - Andy, seu ex-namorado, e Nicholas (vaidoso, mentiroso e infiel todos os dias) vêem-na com outros olhos e interesse redobrado. Entretanto, Ben, o baterista pelo qual uma das adolescentes se apaixonou, dá um concerto nas redondezas e é entrevistado por Tamara, que inicia uma relação com o músico. Quem não se conforma é a jovem estudante, que faz tudo por tudo para acabar com o envolvimento dos casal...
Uma comédia ligeira e engraçada, mas que me pareceu muito longe dos rasgados elogios de alguns críticos, que se inclinam para que a película entre numa séria corrida aos Oscars do próximo ano. Apesar de considerar a fotografia brilhante. Segue o trailer, para os mais curiosos:


Gemma Arteton, Luke Evans, Roger Allam, Dominic Cooper, Tamsin Greig e Bill Camp são alguns dos protagonistas do filme,  pouco conhecidos do grande público, destacando-se este último no papel de Glen, um professor universitário com aspirações a escritor, mas com uma enorme falta de jeito para lidar com as mulheres...

Imagem de cena do filme da net.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

O CENTENÁRIO DA REPÚBLICA

Ao longo dos cerca de 870 anos da História de Portugal subiram ao trono 34 monarcas e 18 presidentes da república, alguns destes ocupando o cargo apenas durante alguns dias ou meses. O rei D. Carlos e o presidente eleito Sidónio Pais foram assassinados por republicanos, num curto espaço de 10 anos, em nome de ideais surgidos no seguimento da revolução francesa: liberdade, igualdade, fraternidade! A que estavam inerentes o da separação do Estado da Igreja e até o delinear da democracia (só para alguns, poucos: homens, cultos e letrados e com um certo património). 
A I República portuguesa foi uma das épocas mais sinistras e sangrentas da nossa história, com golpes e revoluções constantes, a par de uma participação na I Guerra Mundial inglória, onde múltiplos soldados portugueses perderam a vida, por falta de preparação e equipamentos. Daí até à ditadura militar da II República foi um passo nem muito difícil de aceitar inicialmente, que o povo continuava miserável e analfabeto, mas a Igreja voltara em força prometendo o reino dos céus aos seus fiéis, o que, a par de um certo apaziguamento das lutas partidárias, acalmou os ânimos. Isso e uma polícia secreta, que calava todas as vozes dissonantes, através de todos os meios ao seu alcance: tortura, morte, prisão, desterro ou exclusão da sociedade. E se esses governantes evitaram o envio de tropas para a II Guerra Mundial, a evolução de mentalidades decorrente atravessou todos os cantos do mundo e em breve vários territórios reclamaram a sua independência. E aí, os ditadores já não se acanharam em enviar os "heróis do mar" marchar "contra os canhões", em guerras ou guerrilhas sem fim à vista...
O descontentamento generalizado deu frutos, numa madrugada de Abril outra revolução pôs cobro aos desmandos da ditadura e, com a III República, pela primeira vez, as palavras liberdade e democracia ganharam cor. Vermelha, como os cravos que a simbolizaram! Após um período conturbado, em que os carneiros usurparam a pele dos lobos em vinganças e retaliações nem sempre justas, a serenidade foi regressando, aos poucos. Mas, entretanto, o mundo não parou de girar, os tons vermelhos esmaeceram para rosas, laranjas ou até amarelos muito pálidos: às ditaduras políticas sucederam as económicas, que escravizam muito mais do que libertam!
A liberdade e a democracia estão hoje sujeitas a um capitalismo feroz, em que ninguém vota, e muito longe dos ideais de igualdade que nortearam a implantação da República! Muda pouco nos actuais sistemas monárquicos europeus: só não se pode votar no rei, mas cujo papel é semelhante ao do presidente português - encher as páginas de jornais de banalidades ou as de revistas cor de rosa de "famílias felizes" durante as férias!
Comemorar... só se for o feriado, que para o ano talvez desapareça do calendário!!!

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

A MÚSICA TEM DIA(S)...

... em que nos enche o peito de serenidade e encanto, enquanto noutros desaparece ofuscada com gritos, lamentos e quezílias de políticos histéricos, que só nos oferecem uma justa indignação. Aqui na nossa "praça", como em quase todos os cantos do mundo...
A verdadeira  música é aquela que nos toca, envolve, fascina e comove em recordações do passado ou a marcar o presente, com melodias até ao momento desconhecidas, sendo também composta de pausas e silêncios entre acordes. E nunca, mas nunca mesmo, é igual para todos!
Daí que hoje a minha opção para celebrar o Dia Mundial da Música seja tão simples e antiga como este "som do silêncio", que só agradará a alguns:


BOM FIM DE SEMANA!
(...e vivam a música, ao ritmo do vosso coração!)
 
Imagem da net.