Quando casei fui viver para a Colina do Sol! O que assim à partida soa lindamente, mas na realidade era uma urbanização da Amadora, na freguesia da Brandoa, que posteriormente (e até hoje) passou a ser conhecida como Alfornelos. A casa não era nova, mas relativamente recente e com boas áreas, apesar de ser apenas um T2 (mas alguém precisa de mais, no início de uma vida em comum?). Num 9º e último andar, o primeiro problema que topámos é que sol... batia lá pouco! Com todas as janelas viradas para as "traseiras", ainda usufruía de uma esplendorosa vista para um bairro clandestino, onde as barracas alastravam diariamente... como cogumelos!
A vizinhança, já se sabe, era um baú de surpresas: havia gente de todas as idades, tamanhos, credos, escolaridade, profissões, cores e feitios, para além de um grau de civismo muito variável. Por coincidência, uma grande amiga nossa também morava lá e sempre nos ia fornecendo umas pistas sobre as particularidades de cada vizinho, embora mantivéssemos com todos a cordialidade do "bom dia!" (ou tarde ou noite, consoante a hora do encontro casual).
Portanto, a cegada era mais notória a nível de reuniões de condóminos: ninguém queria ser administrador do condomínio, mas também ninguém queria pagar administrações profissionais, de modo que voluntária ou involuntariamente eram "eleitos" dois por ano. A primeira decorreu sem percalços de maior e aí tive a ideia (parva!) que o melhor era despachar logo a nossa prestação, a que não foi alheia a noção de que alguns problemas do prédio precisavam de soluções urgentes, aparentemente negligenciados. Na segunda, os administradores defenderam-se das duras críticas, explicando que após conversarem com um dos anteriores, descobriram que o saldo bancário já não existia - o outro tinha largado a mulher e o filho e, de caminho, levado a "continha" no bolso... Duas ou três horas depois, discussões acabadas e tudo decidido, chega a tal criatura abandonada pelo companheiro, completamente bêbada, mas toda aperaltada no alto dos seus saltos agulha, e toca de vociferar com todos, que tinham decidido sem a presença dela, mas que ela era jurista, que nos esmagava a todos debaixo do seu sapato! (poupo-vos ao "retrato" de uma gaja completamente grogue, a tentar demonstrar com o salto agulha como realizaria a operação...)
Portanto, a cegada era mais notória a nível de reuniões de condóminos: ninguém queria ser administrador do condomínio, mas também ninguém queria pagar administrações profissionais, de modo que voluntária ou involuntariamente eram "eleitos" dois por ano. A primeira decorreu sem percalços de maior e aí tive a ideia (parva!) que o melhor era despachar logo a nossa prestação, a que não foi alheia a noção de que alguns problemas do prédio precisavam de soluções urgentes, aparentemente negligenciados. Na segunda, os administradores defenderam-se das duras críticas, explicando que após conversarem com um dos anteriores, descobriram que o saldo bancário já não existia - o outro tinha largado a mulher e o filho e, de caminho, levado a "continha" no bolso... Duas ou três horas depois, discussões acabadas e tudo decidido, chega a tal criatura abandonada pelo companheiro, completamente bêbada, mas toda aperaltada no alto dos seus saltos agulha, e toca de vociferar com todos, que tinham decidido sem a presença dela, mas que ela era jurista, que nos esmagava a todos debaixo do seu sapato! (poupo-vos ao "retrato" de uma gaja completamente grogue, a tentar demonstrar com o salto agulha como realizaria a operação...)
O outro candidato à nova administração era um recém-reformado, picuinhas até mais não, que obviamente não queria cá conversas comigo: mulher não percebe dessas coisas! Telefonava ou batia à porta, se o maridão não estava, voltava a outra hora. Confesso que não nutria nenhuma simpatia por ele - sempre detestei gajos machistas! Certo é que conseguiu pôr as contas todas em ordem, que não se inibia nada de andar atrás dos vizinhos, para pagar a prestação ou por qualquer outra razão. Mas havia quem o odiasse, quem se encarregasse de gamar sistematicamente todas as lâmpadas dos elevadores - que "circulavam" permanentemente às escuras - e quem brindasse a sua caixa de correio com "recheio" de iogurtes azedos ou ovos podres.
A nossa participação foi bastante mais apagada! Mesmo assim, numa manhã de sábado em que estávamos apressados e de saída para mais um casório, toca a campainha e era uma vizinha chorosa - o "esposo" tinha saído de casa de pistola em punho, para matar um outro não-sei-porquê, pretendia que o fôssemos acalmar! Quoi?!? O fulano era conhecido por estes "impulsos" rocambolescos, adorava exibir o seu "pistolão" frente à cara de quem o irritava, o que já sabíamos de antemão. O maridão, mais paciente, ainda a tentar sossegar a mulher e eu já a pegar na pochette: "está a ver que estamos de saída?". Claro que não matou ninguém, mas também foi a nossa última oportunidade de protagonizarmos um filme desta categoria...
Apesar destas e doutras circunstâncias, fui muito feliz na Colina do Sol! Agora não me digam que não sei o que é "peixeirada" na vizinhança, OK?
Apesar destas e doutras circunstâncias, fui muito feliz na Colina do Sol! Agora não me digam que não sei o que é "peixeirada" na vizinhança, OK?
Imagem da net, de Fagal.










