Esta reunião do Clube de Leitura teve a sua originalidade: parecia mais um encontro gastronómico do que propriamente a discussão de um livro. Passo a explicar - a dona da casa onde nos reunimos, entusiasmada com a leitura onde por vezes o autor refere a culinária alentejana, sendo também ela alentejana de gema, vai de cozinhar umas migas com entrecosto pró "lanchinho", onde também não faltaram os queijos e os enchidos, para lá de vários doces e petiscos. Bom, mas enquanto saboreávamos a deliciosa refeição "ajantarada", acabámos por concordar que José Luís Peixoto faz aqui uma extraordinária homenagem à sua terra (Galveias, como o título do livro indica) e suas gentes.
De algum modo fez-me lembrar Manuel da Fonseca, no livro de contos lido recentemente. A estrutura em contos ou capítulos difere, mas o todo de personagens e das suas histórias, do modo como se entrecruzam e derivam, não. O que difere realmente é a época, já que a ação de "Galveias" decorre entre janeiro e setembro de 1984, enquanto "Aldeia Nova" foi escrito mais de 50 anos antes. Mesmo assim, e dadas as devidas diferenças históricas e culturais, há ali um je-ne-sais-quoi de mentalidade "local" que perdura ao longo dessas várias décadas... (e não, não li os dois livros de seguida, embora possa dar essa impressão, uma vez que não referi o Ken Follett e o Urbano Tavares Rodrigues que li de permeio!)
Para ser franca, também não havia muito a discutir, porque a maioria dos elementos do grupo adorou a leitura, bastou recapitular algumas passagens a que achámos mais piada. E concordar que a fotografia da capa do livro era genial. Mas também não se fala muito de boca cheia, né?
Citações:
"O frio e o silêncio existiam ao mesmo tempo e ocupavam o mesmo espaço. Não havia fronteira entre o frio e o silêncio. Às vezes, confundiam-se."
"Joaquim Janeiro apontou várias vezes para esse céu, quando contou a história da coisa sem nome. Ao descrever a noite em que a terra pareceu explodir por dentro, houve homens crescidos a taparem a cabeça com os braços, como se esse gesto os pudesse proteger de um semelhante azar. Os olhos da plateia cresceram com o susto. Mas não se pode temer o céu, é demasiado medo. O céu está sempre lá em cima. Quando se perde confiança na sua flutuação, também o medo passa a ser permanente. Então, ainda que o céu se mantenha, vive-se diariamente o pior da sua queda, até se desejar que caia mesmo para, por fim, acabar com essa dor."
"A porta da igreja Matriz estava aberta, à espera. As mulheres agradeceram o fresco das paredes grossas,do chão de pedra, da sombra e dos ecos do silêncio. A maior parte dos homens ficou na rua: falavam sobre miudezas, agarrados a cigarros ou a lenços com que limpavam o suor. O noivo e o padrinho entraram, claro. Mal pôs um pé na sacristia para dar aviso de chegada, João Paulo sentiu o bafo do padre: vinho tinto fermentado e halitose. O Catarino entrou logo depois e, juntos, assistiram à forma como o padre se emaranhou em si próprio, tentando enfiar a batina, mas sem acertar no buraco da cabeça."
A próxima sessão do Clube de Leitura ficou marcada para dia 27 de junho, com o livro de Orhan Pamuk, "Neve".