Neste fim de semana pascal deu na FOX Crime a mini-série "Convite para a morte" (2015), baseada num dos romances policiais mais espetaculares de Agatha Christie (e um dos meus favoritos). Como é óbvio, segui atentamente os 3 episódios, que foram exibidos pelas 9h30m da noite - fica a informação para quem quiser/puder ir espreitar. Depois calhou dar de caras com um documentário intitulado "Apocalipse da I Guerra Mundial", com bolinha vermelha e tudo, que não podia ser mais explícito sobre as atrocidades dessa guerra que ceifou inutilmente tantas vidas, há um século atrás.
Ora acontece que recentemente vários amigos bloguistas me enviaram mails para uma corrente de troca de poesias. Também acontece que não sou de correntes. Nem de (qualquer) poesia. Tenho até alguma aversão a auto-intitulados poetas que rimam luar com amar, julgando com isso ter escrito uma obra-prima. Que eventualmente poderá ser, se o versejador tiver menos de 8 anos de idade... Adiante! Portanto, foi sem qualquer remorso que não segui as correntes recebidas. Para provar que não sou assim tão insensível, nem tenho o coração totalmente empedernido, resolvi brindar-vos com um poema que me emocionou, quando via o documentário acima mencionado. Escrito pelo tenente coronel canadiano John McCrae, na Flandres, em 1915 - o então poeta e cirurgião viria a perecer em 1918, no surto de gripe espanhola que se propagou pelos exércitos que combatiam. De uma penada, também para satisfazer todos aqueles que precisam de mais poesia nas suas vidas...
NOS CAMPOS DA FLANDRES
Nos campos da Flandres
as papoilas estão florescendo entre as cruzes
que em fileiras e mais fileiras assinalam
nosso lugar; no céu as cotovias voam
e continuam a cantar heroicamente,
e mal se ouve o seu canto entre os tiros cá em baixo.
Somos os mortos... Ainda há poucos dias, vivos,
ah! nós amávamos, nós éramos amados;
sentíamos a aurora e víamos o poente
a rebrilhar, e agora eis-nos todos deitados
nos campos da Flandres.
Continuai a lutar contra o nosso inimigo;
nossa mão vacilante atira-vos o archote:
mantende-o no alto. Que, se a nossa fé trairdes,
nós, que morremos, não poderemos dormir,
ainda mesmo que floresçam as papoilas
nos campos da Flandres.
Tradução de ABGAR RENAULT
No original:
In Flanders fields the poppies blow
Between the crosses, row on row,
That mark our place; and in the sky
The larks, still bravely singing, fly
Scarce heard amid the guns below.
We are the Dead. Short days ago
We lived, felt dawn, saw sunset glow,
Loved, and were loved, and now we lie
In Flanders fields.
Take up our quarrel with the foe:
To you from failing hands we throw
The torch; be yours to hold it high.
If ye break faith with us who die
We shall not sleep, though poppies grow
In Flanders fields.