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quinta-feira, 22 de setembro de 2016

ADEUS, VERÃO!

Esta foi uma das últimas fotografias que tirei nas férias de verão, assim em jeito de despedida. Por acaso, lembrou-me um pequeno episódio da minha juventude, que se conta assim numa penada: fui a casa de uma amiga e, estávamos as duas em amena cavaqueira, quando a mãe a chamou para lhe ir fazer um recado; ela pediu-me para esperar e espetou-me com um livro de poesia nas mãos; à falta de melhor, fui folheando e lendo aqui e ali até que encontrei este poema:

"Nunca encontrei um pássaro morto na floresta

Em vão andei toda a manhã
a procurar entre as árvores
um cadáver pequenino
que desse o sangue às flores
e as asas às folhas secas...

Os pássaros quando morrem
caem no céu."

José Gomes Ferreira 
(1932)

Como então, ainda hoje afirmo que não aprecio poesia, mas desde esse dia sei que não é inteiramente verdade - há poemas, como este, que me cativam imediatamente pela sua simplicidade.

BEM-VINDO, OUTONO!

segunda-feira, 25 de abril de 2016

GRANDES ESPERANÇAS

No dia 25 de Abril de 1974 não estive na rua: tinha 15 anos acabados de fazer e uma enorme otite que me fez passar dois dias de cama. Os sons da revolução soavam-me apenas como ruídos de fundo, quando só desejava silêncio. Com tantos dias para adoecer, logo havia de calhar naquele que tanto mudou a minha vida e a de todos os portugueses. Daí não ter gratas lembranças do dia. Mas depois de passada a maleita recordo com muita emoção a felicidade que reinava na minha casa, no liceu, nas ruas, em todo o lado. A alegria das pessoas era contagiante. Diária. Parecia que finalmente a todos nos era permitido ter grandes esperanças. E quer estas se viessem a concretizar ou não, só a possibilidade era uma fonte de alegria... 

Só voltei a sentir o mesmo clima de alegria generalizada durante a Expo 98, mas mesmo assim longe da dos tempos da revolução de cravos. É pena que essas sensações positivas não se repitam mais vezes. Ou que alguns, hoje de barriga cheia, não deem grande valor à liberdade que nos foi concedida a partir desse dia agora longínquo, por um grupo de militares corajosos. 

A Sophia de Mello Breyner Andresen expressou-o como ninguém no seu poema "25 de Abril":

"Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo"

25 de Abril, SEMPRE!

terça-feira, 29 de março de 2016

NOS CAMPOS DA FLANDRES

Neste fim de semana pascal deu na FOX Crime a mini-série "Convite para a morte" (2015), baseada num dos romances policiais mais espetaculares de Agatha Christie (e um dos meus favoritos). Como é óbvio, segui atentamente os 3 episódios, que foram exibidos pelas 9h30m da noite - fica a informação para quem quiser/puder ir espreitar. Depois calhou dar de caras com um documentário intitulado "Apocalipse da I Guerra Mundial", com bolinha vermelha e tudo, que não podia ser mais explícito sobre as atrocidades dessa guerra que ceifou inutilmente tantas vidas, há um século atrás.

Ora acontece que recentemente vários amigos bloguistas me enviaram mails para uma corrente de troca de poesias. Também acontece que não sou de correntes. Nem de (qualquer) poesia. Tenho até alguma aversão a auto-intitulados poetas que rimam luar com amar, julgando com isso ter escrito uma obra-prima. Que eventualmente poderá ser, se o versejador tiver menos de 8 anos de idade... Adiante! Portanto, foi sem qualquer remorso que não segui as correntes recebidas. Para provar que não sou assim tão insensível, nem tenho o coração totalmente empedernido, resolvi brindar-vos com um poema que me emocionou, quando via o documentário acima mencionado. Escrito pelo tenente coronel canadiano John McCrae, na Flandres, em 1915 - o então poeta e cirurgião viria a perecer em 1918, no surto de gripe espanhola que se propagou pelos exércitos que combatiam. De uma penada, também para satisfazer todos aqueles que precisam de mais poesia nas suas vidas...

NOS CAMPOS DA FLANDRES
Nos campos da Flandres
as papoilas estão florescendo entre as cruzes
que em fileiras e mais fileiras assinalam
nosso lugar; no céu as cotovias voam
e continuam a cantar heroicamente,
e mal se ouve o seu canto entre os tiros cá em baixo.

Somos os mortos... Ainda há poucos dias, vivos,
ah! nós amávamos, nós éramos amados;
sentíamos a aurora e víamos o poente
a rebrilhar, e agora eis-nos todos deitados
nos campos da Flandres.

Continuai a lutar contra o nosso inimigo;
nossa mão vacilante atira-vos o archote:
mantende-o no alto. Que, se a nossa fé trairdes,
nós, que morremos, não poderemos dormir,
ainda mesmo que floresçam as papoilas
nos campos da Flandres.

Tradução de ABGAR RENAULT

No original:
IN FLANDERS FIELDS
In Flanders fields the poppies blow
Between the crosses, row on row,
That mark our place; and in the sky
The larks, still bravely singing, fly
Scarce heard amid the guns below.

We are the Dead. Short days ago
We lived, felt dawn, saw sunset glow,
Loved, and were loved, and now we lie
In Flanders fields.

Take up our quarrel with the foe:
To you from failing hands we throw
The torch; be yours to hold it high.
If ye break faith with us who die
We shall not sleep, though poppies grow
In Flanders fields.

sexta-feira, 21 de março de 2014

QUANDO

Costumo dizer que não aprecio poesia, o que não é inteiramente verdade: do que não gosto mesmo é de alguns versos que por rimarem amar com luar já fazem com que os seus autores se auto-intitulem de "poetas". Ou quando nem sequer rimam ou fazem sentido, mas dado o uso de palavras inusitadas e/ou pomposas já os versos são apelidados de "poesia". Ora ser poeta é muito mais que isso, como bem nos ensinaram Pessoa ou Florbela...

Certo é que os verdadeiros poemas nos tocam com palavras simples e as emoções que transmitem não costumam ser muito rebuscadas. Muitas vezes até parece fácil escrever igual ou parecido... mas não é! Essa é a poesia que realmente aprecio e que aqui deixo um exemplo, para comemorar o seu dia: 

Quando

Quando o meu corpo apodrecer e eu for morta
Continuará o jardim, o céu e o mar, 
E como hoje igualmente hão-de bailar
As quatro estações à minha porta.

Outros em Abril passarão no pomar
Em que eu tantas vezes passei,
Haverá longos poentes sobre o mar,
Outros amarão as coisas que eu amei.

Será o mesmo brilho a mesma festa,
Será o mesmo jardim à minha porta.
E os cabelos doirados da floresta,
Como se eu não estivesse morta.

Sophia de Mello Breyner Andresen, in "Dia do Mar" (1947)

BOM FIM DE SEMANA!

segunda-feira, 10 de junho de 2013

CAMÕES SAIU À RUA!

"Os Lusíadas - para toda a família" é uma obra concebida e executada por artistas de rua, vulgo graffiters, num extenso muro da avenida da Índia, em frente ao museu da Eletricidade.

A visibilidade do trabalho é reduzida para quem lá passa de carro, semi-camuflado por algumas árvores e arbustos, e suponho que igualmente para os residentes nas imediações, já que sendo via rápida só se atravessa para o outro lado em locais específicos.

Como a curiosidade mora aqui todos os dias, lá fomos espreitar. E fotografar. O dia estava cinzentão, mas não deixou de contrastar com o mural, como bem se nota.

Em pequena li "Os Lusíadas - contados às crianças", mas o texto original - por sorte ou azar? - nunca foi de leitura obrigatória no meu tempo de liceu. Quer dizer, foi para os alunos do ano anterior, no ano seguinte não sei, mas voltou a ser pouco depois.

Pessoalmente considero uma sorte, não só por ser avessa a leituras obrigatórias de textos de antanho, mas porque na época os professores o escolhiam sempre para exercícios, testes e exames gramaticais. Do ponto de vista de um aluno adolescente, há lá coisa mais chata que dividir orações n' "Os Lusíadas"?

Com a grande vantagem de ter apreciado os sonetos de Camões com muito mais gosto e vontade. Há "amores que ardem sem se ver"...

Apesar do parco conhecimento do grande feito de Camões - em miúda julgava que ele tinha vindo a nado da Índia até Lisboa, com um braço no ar para salvaguardar o seu livro - deu para perceber que o mural regista os episódios mais marcantes.

Imagino que seguindo cronologicamente o ritmo do livro, mas suponho que não exatamente correspondente a cada canto.  

Ah e tal, mas assim não é muito didático? Pois não será, mas os artistas de rua não têm de se substituir aos professores... O que não quer dizer que não incentivem mais a curiosidade dos moçoilos, do que professores  antiquados a insistirem na divisão de orações nos seus X cantos (se ainda os há!).


O mundo é assim sempre composto de mudança. mudando-se os tempos e as vontades, o ser e a confiança, tomando sempre novas qualidades, já referia o poeta nos seus versos. 

MAR e RAM foram os autores deste mural coletivo, que optaram por assinar com o tag ARM Colective 2013. Um modo original de dar a conhecer a grande obra de Camões, mais próxima dos jovens e do imediatismo dos dias que correm. Mas sem dúvida também um graffiti de grande fôlego, que considerei adequado para marcar o dia de Camões e de Portugal, que hoje se celebra.

BOM FERIADO E DIVIRTAM-SE!

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

POESIA E SILÊNCIO

Por esta altura do ano relembro sempre o primeiro poema decorado como trabalho escolar, para recitar na aula. Carregado de nostalgia, numa época em que essa sensação ainda era vaga, imprecisa e aparentemente distante...

À medida que o tempo passa, cada vez leio menos poesia. Por amor e ódio, em simultâneo: amor à envolvência das palavras esteticamente enquadradas naquele ponto preciso; e ódio por me conduzir os pensamentos e os sentimentos a meandros onde não pretendo deambular.

E conseguir alinhavar duas frases, quando essa onda poética avassala? Comparativamente, as palavras que escrevo carecem de significado ou sentido. Resta o silêncio (até a fase desaparecer)! E o desejar um...

BOM FIM DE SEMANA A TODOS!

Imagem do facebook.

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

DIAS DE CHUVA...

"Um dia de chuva é tão belo como um dia de sol. Ambos existem, cada um como é." - Fernando Pessoa.

E não é que o poeta estava carregado de razão? Todos os dias são bons para sair, conversar, brincar, ler ou namorar. Quem sabe se debaixo dum único chapéu de chuva, partilhando o espaço limitado e alguma cumplicidade...

Let's fall in love, na voz de Diana Krall (uma cantora e pianista de jazz predileta!), que por sinal completa hoje 48 anos. Mas o amor não escolhe idades, independentemente do que diz a letra da canção:


UM ALEGRE FIM DE SEMANA PARA TODOS!

sábado, 27 de outubro de 2012

NÃO É CAMÕES...


...  mas é certamente de um seu descendente poeta, de quem desconheço o nome:

I

As sarnas de barões todos inchados
Eleitos pela plebe lusitana
Que agora se encontram instalados
Fazendo o que lhes dá na real gana
Nos seus poleiros bem engalanados,
...Mais do que permite a decência humana,
Olvidam-se do quanto proclamaram
Em campanhas com que nos enganaram!

II

E tambem as jogadas habilidosas
Daqueles tais que foram dilatando
Contas bancárias ignominiosas,
Do Minho ao Algarve tudo devastando,
Guardam para si as coisas valiosas
Desprezam quem de fome vai chorando!
Gritando levarei, se tiver arte,
Esta falta de vergonha a toda a parte!

III

Falem da crise grega todo o ano!
E das aflições que á Europa deram;
Calem-se aqueles que por engano
Votaram no refugo que elegeram!
Que a mim mete-me nojo o peito ufano
De crápulas que só enriqueceram
Com a prática de trafulhice tanta
Que andarem á solta só me espanta.

IV

E vãs, ninfas do Coura onde eu nado
Por quem sempre senti carinho ardente
Não me deixeis agora abandonado
E concedei engenho á minha mente,
De modo a que possa, convosco ao lado,
Desmascarar de forma eloquente
Aqueles que já tem no seu gene
A besta horrí­vel do poder perene!

Luiz Vaz Sem Tostões


Imagem e texto do facebook.

sábado, 24 de março de 2012

EM MOMENTO DE POESIA?

Numa semana particularmente poética, em que proliferaram poemas por toda a blogosfera consoante as sensibilidades de cada um, li e reli Pessoa, Florbela, Sophia, Helder, Torga e tantos outros, como se estivesse a cumprir as quotas de um ano inteiro. Os poetas saltaram do baú, entraram no palco e representaram o seu papel, com todas as palavras e letras e a mestria costumeira. Tocaram-me de fininho, como aquele amigo apressado que se encontra na rua e nos acena de longe, sem ter o vagar de nos abraçar ou sequer dizer olá.

Como já vem sendo habitual, não tive tempo de ler tudo o que se publicou, nem mesmo só nos favoritos. Concluí ainda - quem sabe se apressadamente? - que talvez não tenha um espírito muito poético. Aí, e não exatamente por acaso, passei pelo blogue da Rainha ST. E adorei o soneto de Vinicius, que diz tudo o que sempre quis dizer, neste vídeoclip apresentado por um grupo de estudantes:


Talvez não seja tão insensível assim à poesia, a questão passa por sentir o mesmo que o poeta no momento, com a mesma simplicidade e fervor... (sem desprimor para os restantes poetas portugueses enunciados, obviamente, nenhum deles precisa de "palmadinhas nas costas", só calhou sentir assim!)

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

CANÇÕES DE AMOR...

"Cada dia te amo mais, hoje mais que ontem e bem menos que amanhã."
Rosemonde Gérard, num poema dedicado a seu marido, Edmond Rostand, no século XIX.

Seria portanto de imaginar que os dois poetas vivessem felizes para sempre, como nos contos de fadas, embalados pelo gosto comum pela poesia e pelo teatro, mas tal não aconteceu: um dia, tomado de amores por uma jovem atriz, ele abandonou a mulher para não mais voltar. Ou julgam que no início do século XX os amores e desamores não aconteciam?

Edmond viria a falecer uns três anos depois, da gripe pneumónica que assolou a Europa em 1918, a mulher e a amante sobreviver-lhe-iam durante várias décadas...

Ah e tal que estou pessimista e com pensamentos negativos? Nada isso! O amor é bom, enquanto ambos  partilham sentimentos, cumplicidades e momentos de paixão, carinho e ternura. Assim, é de aproveitar hoje e sempre, em qualquer fase da vida, como se não houvesse amanhã. Quanto ao resto... o tempo o dirá!
 

DIVIRTAM-SE!
(se for caso disso...)

Imagem da net.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

POETA (QUASE) DESCONHECIDO

Foi anunciado ontem ao meia-dia o prémio Nobel da Literatura 2011 - o poeta sueco Tomas Transtromer! (escreve-se com trema no "o" do apelido, mas esse não consta no meu teclado). Descobri uns 5 minutos antes da hora que ia ser divulgado e abri a TV. Num canal, a pivot revelou o nome do laureado, acrescentando que por sinal não conhecia. Mudei de canal. No outro, a jornalista teclava vigorosamente no seu portátil, para informar os espetadores, mas sem grande sorte na pesquisa em direto. Verdade seja dita que não é para admirar o desconhecimento das jornalistas: parece que não tem nenhum livro traduzido em português (de Portugal), embora alguns poemas desirmanados já o sejam.
Assim, encontrei meia dúzia deles via Google, pelo que transcrevo um, para os que - tal como eu - nunca tiveram oportunidade de ler este poeta:

"A Árvore e a Nuvem
Uma árvore anda de aqui para ali sob a chuva,
Com pressa, ante de nós, derramando-se na cinza.
Leva um recado. Da chuva arranca a vida
como um melro ante um jardim de fruta.

Quando a chuva cessa, detém-se a árvore.
Vislumbramo-la direita, quieta em noites claras,
à espera, como nós, do instante
em que flocos de neve floresçam no espaço."
Tomas Transtromer (1962)

Dito isto, confesso não ser grande leitora de poesia. Suspeito também que à excepção de outros poetas, escritores e inteletuais poucos portugueses o conheciam. Resta saber se a visibilidade conferida por este prémio vai colocar Transtromer nas estantes das nossas livrarias...
Enquanto traduzem (ou não?) a sua obra, aproveitem para ter um...

EXCELENTE FIM DE SEMANA!
.

sexta-feira, 8 de julho de 2011

ESPANTALHOS NÃO!

"Seremos tudo o que disserem
por ganância ou especulação:
caloteiros dromedários,
fogueiras de exibição,
vigaristas primários
com dívidas de mão em mão,
manhosos perdulários,
malabaristas sem perdão.
Seremos tudo o que disserem:
Espantalhos não!"
(adaptação livre do primeiro  verso do poema de José Carlos Ary dos Santos, "Poeta Castrado", by myself)
Gentilmente dedicado a todas as agências de rating, que não gosto de ser sectária!
Convém salientar que adorei o espantalho da foto, carinhosa e habilmente efectuado pelas mãos das crianças de uma escola, para proteger uma das árvores do seu recreio. Na realidade podem chamar-nos tudo o que quiserem, mas há coisas que não nos podem tirar, por mais que insistam e lhes tentem pôr um preço em cima...
Como o velho Satchmo, desaparecido há 40 anos (mas ainda vivo na memória de todos os apreciadores de jazz), já sabia e tão bem cantava conjuntamente com Ella Fitzgerald:


UM MAGNÍFICO FIM DE SEMANA PARA TODOS!

quarta-feira, 25 de maio de 2011

NA PRIMEIRA NOITE

Fotografia de Ian Britton

"Na primeira noite eles se aproximam e colhem uma flor do nosso jardim. 
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem, pisam as flores e matam o nosso cão.
E não dizemos nada.
Até que um dia, o mais frágil deles, entra sozinho em nossa casa, rouba-nos a lua, e, conhecendo nosso medo, arranca-nos a voz da garganta.
E porque não dissemos nada, já não podemos dizer."
Vladimir Maiakovski

A polémica em torno deste poema tem cerca de um século de existência, porque outros poetas se inspiraram nele, ou, alguns mais descarados, reivindicaram-o como seu. E, claro, o plágio sempre existiu! Nisso a net é muito saudável, pois cruza dados antigos e recentes e, se o poeta russo morreu em 1930, é muito improvável que seja "obra-prima" de outro poeta em 2007...
Não sendo especialmente ligada à poesia, só me lembrei deste assunto, porque vários amigos da blogosfera referiram dificuldades em entrar em blogues alheios ou comentar: se calhou no canto deles, provavelmente também vai passar por aqui!
Um dia depois do blogger ter devolvido os comentários desaparecidos no passado dia 12 - para o caso de não terem reparado, como a Maria (desculpem se não respondi, mas já lá iam mais de 10 dias...) - dá para perceber que toca a todos, mais cedo ou mais tarde...
Até que tudo se resolva, fiquem bem!

quinta-feira, 14 de abril de 2011

O BEIJO

Ontem foi o Dia Internacional do Beijo. Como se o beijo precisasse de ter dias para o celebrar, quando sai doce e espontâneo dos nossos lábios, com paixão, amor, ternura, carinho ou amizade. Ou todos esses sentimentos em simultâneo, numa emoção sempre presente nas nossas vidas...

O BEIJO
Congresso de gaivotas neste céu
Como uma tampa azul cobrindo o Tejo.
Querela de aves, pios, escarcéu.
Ainda palpitante voa um beijo.

Donde teria vindo! (Não é meu...)
De algum quarto perdido no desejo?
De algum jovem amor que recebeu
Mandado de captura ou de despejo?

É uma ave estranha: colorida,
Vai batendo como a própria vida,
Um coração vermelho pelo ar.

E é a força sem fim de duas bocas,
De duas bocas que se juntam, loucas!
De inveja as gaivotas a gritar...


Alexandre O'Neill, in "No Reino da Dinamarca"

Posso não ter reparado no dia, mas ficou no ar esta poesia, ainda é tempo de comemorar...

Imagem da net.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

ANDAR SOLITÁRIO ENTRE A GENTE...

Fotografia de Ian Britton

Na poesia de Camões era sinal de amor, de fogo que ardia sem se ver. Noutras épocas, tanto podia ser por opção como por exclusão da sociedade, mas agora cada vez mais é uma constante: não são só os telemóveis, os headphones, as consolas, os computadores ou a televisão que impedem de reparar no que se passa em redor, é uma nova era comunicacional que funciona melhor à distância do que na proximidade, mais no virtual do que no real.
Exemplos são muitos, em todas as faixas etárias - quem não conhece ninguém que não saia de casa para ficar postado em frente ao pequeno ecrã ou ao computador? Ou que ande por aí indiferente a tudo, excepto à música privada que toca nos seus ouvidos? Ou que passe horas perdidas em frente a uma PlayStation? Ou que prescinda de conversar, para teclar infindáveis SMS? Fica o alerta:


Independentemente de interesses e hobbies, a que todos temos direito, a única certeza é a de que a Vida só se vive uma vez e raramente se recupera o tempo desperdiçado. Mesmo que as modas sejam passageiras, ou venham para ficar...

CARPE DIEM!

(Obrigada, Gatinha!)

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

AS MINHAS ILUSÕES

Fotografia de Ian Britton

Hora sagrada dum entardecer
De Outono, à beira-mar, cor de safira,
Soa no ar uma invisível lira...
O sol é um doente a enlanguescer...


A vaga estende os braços a suster,
Numa dor de revolta cheia de ira,
A doirada cabeça que delira
Num último suspiro, a estremecer!

O sol morreu... e veste luto o mar...
E eu vejo a urna de oiro, a balouçar,
À flor das ondas, num lençol de espuma.


As minha Ilusões, doce tesoiro,
Também as vi levar em urna de oiro,
No mar da Vida, assim... uma por uma...

Florbela Espanca, in "Sonetos"

Apenas uma sensação muito presente neste Outono, que a poetisa explanou bastante melhor que eu... (o que não é tão difícil assim!)
.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

CANSAÇO!

Fotografia de Ian Britton

"O que há em mim é sobretudo cansaço
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço."

(excerto do poema "O que há em mim é sobretudo cansaço", de Álvaro de Campos, aka, Fernando Pessoa)

Não, não estou em plena crise existencial ou de pessimismo, mas facto é que ontem cansei um bocado com a net, a informática, o MEO e toda esta parafernália de sistemas falíveis, que se auto-intitulam de topo de gama: error 503 (o que quer que isso queira dizer), televisão que apagava repentina e frequentemente, sei lá que mais... Melhores dias virão!

Carpe Diem!

sexta-feira, 9 de julho de 2010

MORRE LENTAMENTE...

... quem não viaja, 
quem não lê, 
quem não ouve música, 
quem  não encontra graça em si mesmo...

Conhecem este poema de Pablo Neruda? Podem ler na íntegra aqui...
Portanto, basta seguir o conselho do poeta e viver intensamente o fim de semana, as férias, a viagem, a leitura, a música, o trabalho ou que quer que vos interesse! Sobretudo...

SEJAM FELIZES!

segunda-feira, 1 de março de 2010

PIANÍSSIMO...


Excepcionalmente, os clássicos do século XIX são aqui relembrados, por duas razões: a primeira, mais óbvia, é que se comemora hoje o bicentenário do nascimento de Chopin. O célebre músico e compositor dispensa apresentações, mas como nativo do signo de Peixes, em adolescente encontrava-o sempre mencionado como ilustre "parceiro" astrológico (o que, não sei porquê, me envaidecia bastante, eheheh!). Essa, aliás, é a única semelhança com o compositor polaco, pois apesar de umas aulas de piano em criança, nunca tive vocação para esse ou qualquer outro instrumento musical ou vocal. Para além de, claro, adorar o som harmonioso que paira no ar ao toque das suas teclas:



Bom, já me deixei de astrologias - "pancada" dessa época juvenil, muito motivada por uma amiga, bruxinha-de-serviço-para-todos-os-esoterismos - mas quando Fevereiro chega ao fim, a frase mágica de Théophile Gautier (lida por esses tempos nos livros da "Brigitte", de Berthe Bernage) renasce como um hino à esperança:

"Março que ri, apesar das chuvadas, prepara em segredo a Primavera."

Confio inteiramente no poeta! Tanto que hoje, embora timidamente, uns raios de Sol trouxeram esse primeiro sorriso...


Imagem da net, do quadro de Renoir "Two sisters (on the terrace)" - 1881

domingo, 7 de fevereiro de 2010

O ADEUS DE ROSA

Fotografia de Ian Britton

SE EU MORRER DE MANHÃ
ABRE A JANELA DEVAGAR
E OLHA COM RIGOR O DIA QUE NÃO TENHO.

NÃO ME LAMENTES, EU NÃO ME ENTRISTEÇO:
TER TIDO A NOITE É MAIS DO MEREÇO
SE NEM CONHEÇO A NOITE DE QUE VENHO.

DEIXA ENTRAR PELA CASA UM POUCO DE AR
E UM PEDAÇO DE CÉU
O ÚNICO QUE SEI.

TALVEZ UM PÁSSARO ME ESTENDA A ASA
QUE NÃO SABER VOAR
FOI SEMPRE A MINHA LEI.

NÃO BUSQUES O MEU HÁLITO NO ESPELHO.
NÃO CHAMES O MEU NOME QUE NÃO VENHO
E DO MISTÉRIO NADA TE DIREI.

DIZ QUE NÃO ESTOU SE ALGUÉM BATER À PORTA.
DEIXA QUE EU FAÇA O MEU PAPEL DE MORTA
POIS NÃO ESTAR É DA MORTE QUANTO SEI.

Rosa Lobato Faria
(20/04/1932 - 02/02/2010)

Na missa de corpo presente da escritora, este poema foi distribuído e lido pelo seu filho mais velho. Não sei se escrito especificamente para a ocasião ou se se trata de um poema antigo, mas pessoalmente gostei muito, partilhando-o aqui com todos os amantes de poesia!

Não tenho por hábito escrever sobre a morte de pessoas públicas quando morrem - para isso estão aí os jornais, as rádios e as televisões, mais vocacionados para esse género de informação. No caso abri uma excepção, dada a originalidade da despedida...