A questão já não é de agora: em 1985, quando visitei Paris, estava em curso uma campanha de sensibilização para os casais terem mais filhos: viam-se outdoors por todo o lado, com lindos e rechonchudos bebés. Já lá vão muitos anos, não me lembro ao certo as regalias que os governantes de então prometiam, mas tanto quanto se sabe a campanha resultou - a França é atualmente dos países europeus que tem uma maior taxa de natalidade. Na época, em Portugal, o problema nem sequer se punha...
Nos últimos anos, de vez em quando, os políticos nacionais falaram no assunto, à medida que os nascimentos de crianças portuguesas foram diminuindo. Homens engravatados, saídos de gabinetes ministeriais (e não só), dando ao caso uma relevância "séria" que anteriormente se desconhecia. Segundo consta, o atual governo encomendou um estudo a especialistas e tudo, que não se sabe quanto custou, mas também não vale a pena entrar em picuinhices... E mesmo sendo um estudo encomendado a amigos partidários, as conclusões não foram escamoteadas: por este andar a população vai decrescer em grande nos anos vindouros, mesmo que haja uma maior esperança de vida para os mais idosos.
Ah, mas o mais curioso é que o estudo foi encomendado, mas medidas concretas para, mesmo que tímida e parcialmente, tentar resolver o problema... está quieto. Alguém se lembra de receber subsídio pelo(s) seu(s) filho(s)? Quando o meu filho era pequeno, nós recebíamos. Era pouquinho, pelas minhas contas dava para umas boas botas para o inverno, com sorte também para umas sandálias para o verão - mas sempre era melhor que nada. Cortaram! "Venderam-nos" que havia famílias muito mais carenciadas e acreditei piamente, até achei justo. Depois trocaram o nome a tudo e fiquei na dúvida se o subsídio ainda existia para as famílias mais numerosas ou se tinha sido substituído por outros regimes. Mais tarde, deram um corte no Rendimento Social de Inserção, com a desculpa que era tudo gente rica. OK, há sempre quem se aproveite das falhas do sistema, mas daí a serem todos... é preciso ter lata!
Aí apareceram os problemas no BES/GES e o raio que o parta - os governantes lavaram as suas mãos, que era Banco Privado e tal, não podiam fazer nada - e toca de falar novamente da natalidade, que os portugueses tinham de ter mais filhos. Que era preciso ir com calma, porque ao certo ainda não sabem que benefícios podem dar aos novos pais, recém saídos (tomara!) da crise e tal. Mas talvez se consiga baixar um pouco o IRS do próximo ano aos que têm mais filhos e subir aos que não têm! Quer dizer, o facto de terem mandado os jovens emigrar, acentuarem a precariedade no emprego, o próprio desemprego e as múltiplas mexidas que fizeram no código de trabalho a favor do patronato e de salários mais baixos não tiveram nada a ver com o caso, que agora "estudam" como resolver.
Não sendo economista ou perita em natalidade, de uma coisa estou certa: nenhum casal que o deseje deixa de ter um filho devido às (más) condições que lhe são impostas. Talvez deixe de ter o segundo ou terceiro... Mas, excluindo impossibilidades médicas e/ou físicas, o que vão procurar é condições melhores para eles próprios e que permitam proporcionar às suas crianças, adolescentes e jovens adultos um futuro melhor... Ser pai ou mãe não é isso (também)?

