quarta-feira, 30 de setembro de 2009

QUEM VÊ CARAS...

... não vê corações! Certo?!

Não sou adepta de piercings e tatuagens, mas cada um faz o que bem entende com o seu corpo, supostamente para o embelezar ou por outra convicção qualquer: ideológica, religiosa, amorosa, cultural, artística, sei lá que mais. As tatuagens evoluíram bastante dos anos 60 até aos dias de hoje: primeiro surgiram os soldados que regressavam da guerra de África, com os braços perenemente marcados por números, letras ou desenhos incrivelmente mal amanhados a tinta azul; mais tarde, nas praias algarvias apareciam uns ingleses entroncados e boçais com uma "bracelete" permanente de arame farpado junto aos bíceps; e depois, com novas cores e desenhos bem mais artísticos, tornou-se moda e um desvario total, entre malta de todas as idades. Algumas destas até são giraças, mas tenho para mim que agulhas quanto mais longe melhor, já bastam as absolutamente necessárias... Mantenho que não tenho nada contra!

Mas, há sempre um mas, com um certo limite! Garanto que se me aparecesse um fulano destes pela frente, não ia ficar por perto a tentar perceber se tinha um coração bondoso...


Fotografia recebida por mail, de autor desconhecido.
Obrigada, Michel!

terça-feira, 29 de setembro de 2009

SENTIDO DE ORIENTAÇÃO...

Fotografia de Ian Britton

Há muito, muito tempo, numa vila distante dos confins do mundo... (OK, não foi assim há tanto tempo e o local distava apenas 420 quilómetros da capital do país, trata-se apenas de conferir algum mistério à pequena historieta) uma mulher aproveitou uma brecha nos céus diluvianos para visitar a feira semanal e comprar alguns alimentos frescos na praça. Acabadas essas voltas típicas de quem se encontra em férias com muito tempo disponível, verificou que os sacos das compras - carregados de frutas, vegetais, enchidos e até uns berbigões de aspecto delicioso - estavam pesados demais para regressar a casa sem empanar as costas.

Viera a pé até ao mercado, para desfrutar da paisagem acinzentada pelas nuvens que cobriam o céu, sentir o cheiro característico da terra molhada e da maresia, apreciar o festival das flores que enfeitavam janelas, varandas e jardins, aqui e ali tirando algumas fotografias de caminho. Decidiu então sentar-se numa esplanada do largo principal e telefonar ao marido para a vir buscar de carro. Assim ficou combinado, mas ele ainda iria demorar alguns minutos, pelo que entretanto pediu um refresco e um bolo de arroz. Repimpada, vendo os pombos esvoaçando junto à fonte secular ou debicando algumas migalhas pelo chão, apercebeu-se de algum movimento na mesa ao lado: um sexagenário brandia o jornal para enxotar os bichos das redondezas, enquanto a mulher que o acompanhava comia. Indignou-se! "Credo, não há mesmo respeito pelos animais neste país!", pensou, sem se manifestar.

O empregado trouxe o seu pedido, desenrolou o papel que envolvia o bolo e começou a comê-lo lentamente, ao mesmo tempo que retomava a leitura do seu livro. Um pombo veio debicar o papel que estava no prato em cima da mesa. Deixou-o sossegado! Mas depois surgiu outro e mais outro. O frenesim dos bichos instalara-se ali e aos seus pés, onde todos lutavam pelas escassas migalhas que caíam. A concentração desaparecera: de repente via-se rodeada de pombos por todos os lados! Levantou-se, ainda com metade do bolo na mão, o livro largado numa cadeira à toa. Ouviu rir atrás de si, um homem gesticulava demonstrando como se afastava aquela bicharada. Mas a batalha ainda não chegara ao fim - agora esvoaçava perto dela um outro de olho vermelho mais atento, embicado na tentativa de lhe retirar dos dedos a "fatia" mais grossa e desejada. Nunca lhe passara pela cabeça entrar numa guerra, muito menos no meio do pombal. Rendeu-se!!! Depositou o objecto tão ambicionado pelas frenéticas criaturas numa mesa vazia e as lutas desenfreadas prosseguiram, noutras paragens...

MORAL DA HISTÓRIA: Os pombos têm um grande sentido de orientação... para bolos de arroz!

post-scriptum - esta era a história para ti, Licas, mas como já puseste as restantes participações a votação, fica para a próxima! (escusado será dizer que voto à mesma, amuanços não moram por aqui... só que ainda não as li. Ah, claro, também não tinha foto própria para ilustrar!)

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

OS COMBOIOS PASSAM...

Fotografia de Ian Britton

O TGV ("Train à Grande Vittesse", do francês, que se traduz para o portuguesíssimo "Comboio de Alta Velocidade") nasceu em França, no início dos anos 80. Em Fevereiro de 2008 - numa imagem retirada da Wikipédia - as linhas espanholas já a funcionar, em obras ou em projecto eram as que constam do mapa ao lado.

Embora pouco divulgados, os traçados das linhas portuguesas já estão estipulados, em acordos com a AVE de Espanha e com a própria União Europeia, que subsidia parte do empreendimento. Questão decidida há cerca de 5 anos ou mais. E, mesmo que as obras começassem nos próximos dias, só lá para 2013 começaria a funcionar nos principais percursos e em 2015 nos restantes...

Espantoso não é que a população envelhecida brade aos céus perante a inovação, sem qualquer expectativa de benefício próprio, mas sim que figuras gradas da economia nacional venham armar-se em aves agourentas, que somos muito pobrezinhos, que o investimento não resulta a curto prazo, portanto torna-se urgente adiar esse progresso em "tempos de crise"! (nunca ouvi falar de outros, mas pronto!)

Sou absolutamente a favor do TGV: se não nos servir a nós, pode vir a favorecer as gerações vindouras! Mas fico curiosa perante as vossas opiniões, portanto façam o favor de comentar...

domingo, 27 de setembro de 2009

LEITE DERRAMADO

"Quando eu sair daqui, vamos nos casar na fazenda da minha feliz infância, lá na raiz da serra. Você vai usar o vestido e o véu da minha mãe, e não falo assim por estar sentimental, não é por causa da morfina." Assim começa o último livro de Chico Buarque - "Leite Derramado" - nas palavras de um homem centenário, que se encontra preso numa cama de hospital, após fracturar a perna direita.

Ao longo de 223 páginas, o velho delirante revela as suas memórias (ou o que resta delas) à filha octogenária, às enfermeiras que o tratam, aos restantes pacientes, por vezes desfiando-as apenas para o ar, sem grande coerência, lógica ou cronologia, contradizendo-se em diversas ocasiões. Simultaneamente, já que Eulálio Montenegro Assumpção tem imenso orgulho nos seus antepassados portugueses aristocratas, perpassam quase dois séculos da história do Brasil nos seus relatos tristes e amargurados, com o snobismo que nunca o abandonou, aqui e ali pontuados com um sentido de humor que caricatura personagens de outras eras. Para impaciência de alguns jovens companheiros de enfermaria, malcriados: "[...] nem bem eu abria a boca e já se manifestavam: não fode, vovô, conta outra! Mas se com a idade a gente dá para repetir certas histórias, não é por demência senil, é porque certas histórias não param de acontecer em nós até ao fim da vida."

Tendo perdido todos os bens e o estatuto social privilegiado que adquiriu à nascença, assistindo impotente à morte de antepassados e descendentes, resta-lhe apenas a filha e um trineto ou tetraneto narcotraficante - que ainda é quem sustenta as suas despesas hospitalares. O declínio familiar e pessoal torna-se notório nas sucessivas mudanças de casas, das mais chiques e imponentes até ir parar ao minúsculo apartamento actual, numa zona mal afamada, mas, apesar disso, o seu grande inconformismo continua a ser o abandono da única mulher que amou desesperada e obsessivamente - Matilde! "Olhando o meu corpo, tive a sensação de possuir um desejo potencial equivalente ao dele [pai], por todas a fêmeas do mundo, porém concentrado numa só mulher."

Pode não ser aquela genial obra da literatura moderna brasileira como alguns querem fazer crer, só por ser de Chico Buarque "o-famoso-cantor-e-compositor-musical", mas, pessoalmente, adorei a sensibilidade e humor latente em cada entrelinha, numa imagem quase comovente de uma velhice prolongada e inadaptada aos tempos que mudaram... Alguns críticos referem que o livro tem semelhanças com outros de Machado de Assis, ou com a música "O Velho Francisco" do próprio autor, mas não encontrei assim tantas parecenças, daí a canção ser outra:



Ah, convém salientar que desta vez não houve unanimidade no Clube de Leitura: umas gostaram imenso, outras consideraram pouco interessante, por ser demasiado vago. Opiniões! A próxima sessão será no dia 21 de Novembro, com o livro "A Noite do Teu Aniversário", de Lionel Shriver.

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

ANDAVA NA FLORESTA...

Fotografia de Ian Britton

... um cuco a cantar. E esvoaçava alegre pelos céus, quando um castelo não muito distante lhe prendeu a atenção: nem um som, nem um movimento se vislumbrava por ali! "Quem sabe não terá lá ninhos de outros pássaros?", pensou com as suas penas. Contudo, ao chegar ao local deparou com guardas petrificados, cortesãos, aios, nobres e clérigos completamente adormecidos, enquanto a bela Aurora repousava no seu dossel, com um sorriso estampado no rosto. Bateu asas e voou dali para fora sem piar, pensando que só poderia ser feitiço de alguma bruxa de serviço. Já no bosque, encontrou uma menina branca como a neve, perdida no meio do arvoredo, oferecendo-lhe algumas notas do seu cantar para a animar. Só a conseguiu assustar: aprimorava a cantoria, mas ela fugia...

Ouvindo ao longe um choro desconsolado, julgou encontrá-la, até descobrir que afinal era outra donzela, que fechada no alto de uma torre lançava o seu longo cabelo loiro pela janela, na esperança que algum príncipe encantado trepasse até junto do seu coração. Desmoralizada - naquele dia passavam todos muito distraídos (ou talvez não lhes apetecesse o exercício) - entre lágrimas contou a sua triste sina ao cuco, já que não tinha por onde fugir, nem mais vivalma com quem falar. Com pena de Rapunzel, este bem cantou atrás dos jovens varões, mas sem qualquer resultado, que os ditos tinham combinado ir jogar à lerpa, num casino fashion daquele reino longínquo!

Ainda era cedo, mas resolveu voltar à sua árvore e descansar dos insucessos. Porém, numa breve paragem de caminho, encontrou outra pequena com um capuchinho vermelho a conversar com um lobo, bem piou para a avisar dos perigos que corria, seguindo-a em voo baixo e bicando a vidraça no lado de fora da janela do casinhoto, viu-a confundir o lobo com a avó, enquanto gritava, stressado: "vai ao oftalmologista, pá!" Tanto, que um caçador mais atento se aproximou, resolvendo a situação e o pássaro aproveitou para se pirar de fininho "vá-se lá saber o que é que o fulano caçava". Com as energias esgotadas, já bem perto do carvalho que o aguardava serenamente, numa casa de aldeia, encontrou uma rapariga de gatas a esfregar o chão da cozinha. Cinderela, assim se chamava ela, suspirava e sonhava com um baile, no qual tinha sido proibida de dançar ou sequer de participar. "Cucu, cucu", cantarolou o passaroco. Ela ainda levantou os olhos do pavimento, mas, repentinamente, no meio de uma nuvem mágica, surgiu uma fada madrinha, decidida a transformar abóboras em coches, ratos em cavalos e outras coisas que tais. O cuco nem precisou de nada mais: asas sem relógio, para que vos quero?!

E teria adormecido feliz e descansado, não fosse deparar com uma cuca pestanejante no ramo preferido da sua árvore...

Acordou a cantar, só com dois pios: PARABÉNS, Roderick!!!

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

SEM (MUITAS) PALAVRAS!

Fotografia de Ian Britton

Para ti, querida Isabel, desejo o melhor aniversário possível!

Para além da flor, fica uma música clássica e serena, esperando que seja do teu agrado...

terça-feira, 22 de setembro de 2009

(DES)APONTAMENTOS

Não sei se é o Outono que contagia as pessoas ou vice-versa. Sei que ele este ano estava com pressa de chegar, bateu à porta mais cedo (mais precisamente às 22h19m de hoje, segundo o Observatório Astronómico de Lisboa), donde se pode tirar a seguinte conclusão: a minha professora primária estava absolutamente errada ao obrigar-nos a empinar as datas do início e fim de cada estação! (qual 23 de Setembro, qual carapuça?!)

Se a influência é do Outono, do novo ano lectivo ou até de alguma indecisão perante o futuro, também é mistério. Certo é que os adeuses à blogosfera começam a cair como as folhas das árvores, em forma de intervalos, pausas, intermitências, interrupções, fins, fechos e todos os sinónimos que se puderem imaginar. Há pressa de chegar não se sabe exactamente aonde, o que é que se faz? TARUZ, blog 'para o maneta' (raça de fantasma, que não nos larga)! E que tal um pouco de calma, até verificar se o bloguito interfere assim tanto na vida pessoal/profissional? Fases indecisas, confusas e pouco inspiradas todos temos...

No reverso da medalha, surgem os que sonharam que bastava escrever umas linhas intensas e importantes sobre a própria vidinha, para toda a malta se render aos seus pés, elogiando a escrita tanto como os pensamentos "iluminados", carregados de inteligência, cultura e sapiência, para já não falar na pretensão de influenciar essas hordas de fãs com as suas escolhas religiosas ou partidárias. Escassamente retribuído com um comentário esporádico, sem sequer ler o post dos bajuladores de serviço, tipo migalhas aos pobrezinhos, coitadinhos! (para que conste, nenhum dos 'linkados' na faixa lateral cabe nesta categoria, que pachorra para intelectualóides não mora aqui). A música que se segue dirige-se unicamente aos amigos virtuais:



(mantendo o respeito pelo silêncio de cada um, não "cortem as próprias asas", OK?!)

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

AO FIM DO DIA...

Fotografia de Ian Britton

Perdi a conta ao número de "reuniões de pais e professores" a que assisti. Geralmente sem grande proveito, que são quase todas de "viró disco e toca o mesmo"! Poupo-vos ao relambório habitual, às histórias intermináveis que papás e mamãs babados se lembravam de relatar a todos os presentes, sendo eles uns pais perfeitos e os respectivos filhotes verdadeiras jóias de qualquer coroa! Uma seca!

Desta vez foi relativamente proveitoso: além da participação dos encarregados de educação ter diminuído significativamente (sei lá, se calhar por alguns alunos já terem mais de 18 anos), ainda havia uma questão curricular a "discutir" - no 12º do ano passado tinham uma cadeira extra à escolha, este ano são duas, mas limitada ao número de participantes (e talvez de 'profes' para a leccionar) - e a tal da gripá (versão Rauf e Vani, faxavor!).

A Directora de Turma pediu encarecidamente aos pais presentes que não deixassem os "putos" ir para a escola em estados febris. E essa, sim, foi uma grande novidade! Nem ela sabe que em tempos, uma outra DT, muito mal encarada, me acusou de justificar mal as faltas do menino (que na altura até era!), que se tinha febre era enfiar-lhe um benuron no bucho, não era justificação plausível...

Mudam-se os tempos e as vontades...

domingo, 20 de setembro de 2009

IR PRÒ MANETA

O ensaio de Vasco Pulido Valente baseia-se em inúmeros relatos de um período tenebroso da História de Portugal - daí 109 páginas contarem com 185 notas de rodapé - onde conclui que foi a revolta do povo que libertou "nove décimos do país" dos exércitos de Junot, "antes de Wellington (ainda Wellesley) pôr o pé em terra".

Quando as tropas napoleónicas invadiram Portugal em 1807, a família real, o governo e os elementos mais proeminentes da sociedade portuguesa zarparam para o Brasil, deixando a restante população à mercê de um invasor com fama de invencível, violento e ganancioso. Mas se, de início, Junot avançou pelo território sem entraves de maior, a revolta do povo - até por uma questão de sobrevivência - não tardou em surgir! Salvo raríssimas excepções, "as 'classes superiores à populaça' permaneceram prudentemente em casa. De porta fechada." Contudo, o general desvalorizou esta revolta pensando poder reprimi-la através de operações policiais. O que não se verificou!

Milhares de paisanos, "com paus e piques e a rara espingarda raramente nas mãos de vocações naturais" ou qualquer foice a jeito, fizeram retroceder as tropas de Loison numa guerrilha constante e eficaz, atacando os flancos e a retaguarda da sua coluna, que sofreu baixas significativas. Este general, que não tinha um braço, decidiu então retaliar na população civil, gabando-se das suas proezas militares, que consistiram em saquear, arrasar e incendiar "aldeias inteiras para punir actos de hostilidade", matando todos os homens, mulheres, crianças, velhos ou inválidos que encontrasse no caminho. A extraordinária crueldade dos seus métodos motivou que a "locução 'ir para o maneta' se [fixasse] perenemente na língua" portuguesa.

Durante três longos meses de chacinas, o povo (então já auxiliado por elementos de outras classes sociais) resistiu e perseguiu os invasores e todos os suspeitos de colaboracionismo - muitas vezes bastante injustamente, não isento de vinganças pessoais sobre os anteriores opressores (leia-se, "no senhor da terra, no rendeiro, no magistrado e no pequeno comerciante (e usurário).")

(Junot acabou por negociar com os generais ingleses a sua retirada do território nacional, na denominada "Convenção de Sintra", tendo-lhe sido permitido levar consigo grande parte do saque efectuado.)

CITAÇÃO:

"A nobreza colaborara com o invasor, o episcopado colaborara, o grande funcionalismo colaborara. Apenas o 'povo' nunca se tinha rendido, e aprendera à sua custa que a traição às vezes morava, ou quase sempre morava, em altos lugares."