
Há alcunhas que não funcionam para atazanar a vida das pessoas, mas como uma imagem de marca que fica para a vida inteira. Carinhosa, até!
É o caso de "Joãozinho da Voz Doce", professor de Educação Musical do Liceu D. Pedro V (depois passou a chamar-se Escola Secundária, porque o que os MECs, MEICs e afins souberam fazer foi trocar os nomes, os números aos anos, etc. e tal) e do qual todos os antigos alunos se lembram. João Chafes, assim se chamava ele, era um professor empenhado, que incentivou muitos discípulos a participarem no coro de canto coral, com ensaios à hora do almoço, aos Sábados, quando desse.
Claro que também tinha de aturar os desafinados, como eu e muitos mais, durante as aulas. Lembro-me de um puto cheio de estrica - o Gica - combinar com o pessoal: "Hoje vamos todos desafinar!" E desafinávamos como ó caraças, propositadamente, e o professor cheio de paciência só dizia: "Vamos repetir!" E lá voltávamos nós:
"Minhas botas velhas cardadas,
palmilhando léguas sem fim,
quanto mais velhinhas e estragadas,
tanto mais vigor sinto em mim."
Até que no final, ele dizia: "Está melhor!" Ao fim de várias repetições...
A certa altura, começou a colocar num placard da sala de música, a "anedota da semana": normalmente era um recorte de jornal, tipo cartoon, um pouquinho simplório. Vai daí que numa turma mais inventiva, na época do Carnaval, combinaram que alguns iriam lá ler a anedota e largar uma bombinha de mau-cheiro. Dito e feito! Nem com isso se atrapalhou: mandou os alunos fazerem um teste, que ficassem sossegadinhos, que ele tinha de ir à secretaria. E lá ficaram todos a aturar o pivete que eles próprios provocaram, enquanto ele foi arejar!
Durante um jantar de antigos alunos do liceu, em que graças às "intempéries" nem todos se reconheceram - mais velhos, mais gordos, mais carecas ou com cabelos brancos, desmemoriados - tentando perceber os elos que em tempos nos ligaram, TODOS se lembravam do "nosso Joãozinho". Bons professores nunca se esquecem, nem no coração dos desafinados...