
Fotografia de
Ian BrittonEm finais dos anos 80 trabalhei como secretária do departamento comercial de uma média empresa de informática. Uma certa tarde, apareceram por lá quatro raparigas a pedir para falar com o gerente: pretendiam autorização para falar com os empregados, durante uns breves minutinhos, para divulgar os livros de uma editora e verificar o interesse que eles suscitavam junto ao pessoal - resumindo, eram vendedoras! Afirmavam ainda ser estudantes universitárias e que essa "prospecção" as ia ajudar a angariar pontos, necessários para lhes custear os estudos. O gerente, homem na casa dos trinta e tais, era tudo menos parvo, mas imagino que tivesse ficado bem impressionado com a lábia e a indumentária das jovens: os tailleurs escuros conferiam-lhes um ar profissional, embora as mini-saias a exibir uns bons nacos de pernas fossem escusadas, os saltos bem altos dos sapatos e as maquilhagens cuidadas também. Avisou que ele próprio não estava interessado, mas que tinham autorização para falar com os funcionários, desde que não interrompessem o normal funcionamento da empresa durante muito tempo.
Quando vi aquelas quatro criaturas, bamboleando as ancas, enquanto avançavam pelo corredor na direcção da sala do departamento comercial, até tive vontade de rir. Os gajos também eram vendedores (à excepção do maridão, que ainda estava longe de ser namorado, que por acaso também se encontrava lá devido à análise de um programa ou coisa) de modo que esperava um baile... Santa ingenuidade! As meninas, muito solícitas, começaram por lhes fazer um pequeno inquérito sobre os interesses pessoais de cada um e eles adoraram esclarecê-las com todos os pormenores e mais alguns, quase babavam perante o "insuspeito" interesse delas! Nunca na vida tinha visto uma massagem ao ego tão bem feita... e a maioria nem era dada a literaturas de qualquer espécie! Até o director comercial não resistiu a ir lá meter o bedelho e dois dedos de conversa...
Entretanto saí da sala para fazer não sei o quê, encontrei uma colega de outro sector - essa sim, uma leitora compulsiva - ainda comentámos a patetice dos homens. As moças lá fizeram o "tour" pelos vários sectores, não incomodaram ninguém que dispensasse a "divulgação" (como eu, essa amiga e outros), na verdade sucesso de vendas foi só no comercial. Ao fim da tarde a romaria foi outra, cada um ia lá perguntar o que eles tinham comprado - assim como quem não quer a coisa, só por simples curiosidade... -, um que nem o jornal lia tinha encomendado as obras completas não sei de quem, outro dois livros de culinária e de costura para oferecer à mãe no aniversário e no Natal (ui, a coitada deve ter rebentado de tanta felicidade!), outro idem para a mulher (se o arrependimento matasse...), mais um ou outro livrito solto dos mais moderados, a bem dizer só um dos presentes escapou à "sedução" das vendedoras. Mas que o caso deu risota durante meses, lá isso deu!