V. S. Naipaul - prémio Nobel da Literatura 2001 - apresenta-nos aqui um prólogo, um epílogo, dois pequenos contos ("Um Entre Muitos" e "Digam-me Quem Devo Matar") e o livro que lhe dá o título: "Num País Livre". Como o próprio indica no final das 261 páginas, todas as histórias foram escritas entre Agosto de 1960 e Outubro de 1970 e decorrem em países supostamente livres, na época. Mas não exatamente para todos, como Naipaul faz questão de sublinhar, por vezes até com uma certa ironia.
Em "Num País Livre", a ação decorre num país africano recentemente reconhecido como independente, onde duas facções (e tribos) distintas lutam pelo poder. Até que a facção republicana, apoiada pelos países ditos civilizados, vence o confronto - pois tem o maior exército - e anda à procura do rei inimigo. É neste contexto que Bobby, um inglês funcionário administrativo do Governo Central e há muito residente no país tem de regressar à sua área de residência no Sul, em pleno território do rei, atravessando uma ampla região desde a capital, onde se encontrava a participar num seminário. Embora contrariado, acede a levar de boleia à fútil mulher de um conterrâneo radialista que mal conhece, mas sobre quem correm boatos de ser uma adúltera reincidente - por aí não há problema, porque ele próprio tem outra orientação sexual. Ambos brancos e very british, parecem não se dar conta do perigo que é atravessar aquela região africana praticamente ainda em guerra, pois de alguma forma ainda se sentem colonialistas e superiores aos bandos de negros que vão encontrando pelo caminho...
Muito interessante!
Muito interessante!
Citações:
"Uma vez, quando trouxe o seu filho para nos ver, disse-nos: - O meu filho até agora nunca mentiu. - E eu pergunto ao rapaz: - É verdade? - Ele responde: - Não - e Stephen desata a rir e diz: - Meu Deus, que má influência a vossa! O rapaz acaba de dizer a sua primeira mentira."
"Mas não, como todas as pessoas pobres, elas queriam ser as únicas a subir na vida. São os pobres que querem sempre obrigar os pobres a ficar por baixo."
"Lembro-me de como treinávamos os homens para irem para Salónica, para a Índia e outros lugares do género - disse o coronel. - Às vezes tínhamos de os atar aos cavalos. Ah-wa-wa! Ouvíamos eles a chorar do outro lado do campo. Alguns deles arranjavam, de cavalgar, feridas, esfoladelas do tamanho da palma da mão. Mas acabávamos por fazer deles verdadeiros soldados a cavalo."
"Mas não, como todas as pessoas pobres, elas queriam ser as únicas a subir na vida. São os pobres que querem sempre obrigar os pobres a ficar por baixo."
"Lembro-me de como treinávamos os homens para irem para Salónica, para a Índia e outros lugares do género - disse o coronel. - Às vezes tínhamos de os atar aos cavalos. Ah-wa-wa! Ouvíamos eles a chorar do outro lado do campo. Alguns deles arranjavam, de cavalgar, feridas, esfoladelas do tamanho da palma da mão. Mas acabávamos por fazer deles verdadeiros soldados a cavalo."
post-scriptum - o marcador da foto não vinha com o livro, foi-me oferecido por uma amiga - trata-se de um elástico negro, ornamentado com diversos botões pretos, cinzentos e dourados. Escusado dizer que adorei o miminho, que achei giríssimo, daí incluí-lo na foto!



