Nunca tive medo de cães, não tenho qualquer fobia em relação a eles. Se desde pequena fui habituada a lidar com cães - a certa altura a minha avó tinha sete cães e um gato (e desse eu pelava-me de medo na época!) - depressa aprendi que cão que ladra também morde, num incidente a caminho da escola primária: ia com a minha irmã e uma amiga para as aulas da tarde, um cão da vizinhança desata a ladrar e a correr na nossa direção... até afinfar a bocarra na pernoca da nossa amiga. Sorte nossa, azar dela! Mas sem dúvida um episódio marcante...
Episódios com cães agressivos foram vários, uns mais caricatos que outros: lembro-me de um antigo namorado da faculdade, que sofria da fobia, a correr desvairado em volta de um carro com um minúsculo canídeo a tentar alcançar-lhe as canelas; da estúpida cadela de uma amiga me ter mordido o sapato durante um lanche, com receio que eu lhe roubar os ossos da refeição (explicação dos donos); de uma das minhas sobrinhas ter sido mordida pelo cão de outros miúdos conhecidos, enquanto brincavam; de outra amiga que mandou abater o cão, que um dia se virou a ela e lhe fez um lanho no braço, por ciúme da bebé que acabara de nascer (explicação da própria). Ou seja, são episódios esparsos, acumulados ao longo de anos, nenhum deles me faz ter receio destes animais. Embora costume estar atenta a cães desconhecidos.
Durante as mini-férias-algarvias-de-junho, assim que cheguei ao estacionamento da praia vi as alcachofras naquele tom lilás tão característico da primavera junina. Apesar de nem sequer estar muito virada para sessões fotográficas, lá saquei da máquina, tirei uma, cliquei no zoom para esta e ainda cliquei mais uma vez. Coisa de menos de um mínuto, acompanhado por um ruído estranho, depois transformado num nítido rosnar, acabou num cão a sair debaixo de uma auto-caravana próxima e a correr na direção das minhas pernas. OMG, mais do mesmo?!?
Nestas situações, grito que nem uma desalmada. É certo que os cães ficam mais excitados, mas se houver um dono por perto pode ser que os acalme. Mas do que me diz a experiência é que os donos consideram sempre o seu bicho de estimação tão querido, manso e fofinho, que raramente intervêm. A cena prolongou-se por vários minutos, comigo a gritar em stéreo e sem o deixar aproximar-se dos meus tornozelos - não, não era muito grande, o focinho dele apontava para aí - só o meu marido tentou acalmar-me, a uma certa distância. Como não parei com a gritaria (já tinha recuado vários passos, mas o raio do animal continuava a tentar morder-me), o dono acordou da sesta e lá disse da janela com imensa sabedoria, sem sair da auto-caravana: "Não mostre medo, que ele é manso!" "Muito!"- pensei vagamente no meio da confusão momentânea. Entretanto o meu marido já se estava a aproximar devagar, trazia o chapéu-de-sol ao ombro, aí o dono lembrou-se de chamar o amoroso canídeo: "Viens ici... VIENS ICI!" Obedeceu ao segundo chamamento.
Já vínhamos embora, quando o tanso dono de tão "mansa" criatura resolveu ainda dar-nos uma didática instrução sobre como lidar com cães: "É preciso calma e não mostrar medo!" Cansada de gritar, nem respondi. "Pois, mas o seu cão é que a tentou atacar, sem ela ter feito nada!" - respondeu o maridão.
Continuo sem a tal de cinofobia, mas ando a desenvolver outra em relação a donos de animalejos tão "estimáveis"...