Comecei a desconfiar que o ataque às caracoladas estava para breve, quando vi um masterchef (Nova Zelândia) a indignar-se com uma concorrente, por ter atirado uma lagosta para dentro de uma panela de água a ferver. Segundo a criatura, a lagosta precisava de ser morta com uma facada na cabeça antes de "mergulhar" no tacho. Porque era uma crueldade, blablablá. Isto vindo de um cozinheiro parece-me do mais caricato possível: óbvio que ninguém no seu juízo perfeito deseja ver os animais a sofrer antes de servirem de refeição, mas daí a uma facada ser mais "humana" do que um caldeirão, pois, são outros cinco paus. Aliás, embora nos últimos 30 anos nunca tenha cozinhado lagosta (por outros motivos que não o sofrimento da bicha), também foi assim que me ensinaram a cozinhá-la. E como não sei ao certo onde se deve espetar a faca para a tal morte rápida, desconfio que, no meu caso, a tentativa de lhe infligir menos sofrimento resultaria infrutífera.
Mas quer dizer, se já estavam com esses pruridos com a lagosta (como com sapateiras, navalheiras, lavagantes e afins), de certo não iria faltar quem se lembrasse das amêijoas, cadelinhas, mexilhões e quejandos, bem como dos benditos caracóis. E foi assim que esta semana surgiu no facebook mais um grupelho a exigir que se acabassem com as caracoladas. Escusado será dizer que esta gente é vegetariana, vegan ou só parva, porque na verdade ninguém lhes diz que alfaces, tomates e outros vegetais e frutos gostem de ser comidos - e a maior parte das vezes "esquartejados", antes de ingeridos. Desconfio que não, mas isso sou eu!
Não façam confusão: não tenho nada contra vegetarianos ou vegans (já não direi o mesmo em relação a gente parva), desde que não tenham a veleidade de me "obrigar" a seguir a sua dieta. Tal como os nossos antepassados desde tempos imemoriais sou omnívora e não pretendo mudar a minha alimentação. Infelizmente, a insistência de que eles é que estão cobertos de razão e que portanto todos lhes devem seguir as pisadas é uma das características que costuma transformar vegetarianos (ou vegans) na tal gente parva...
Bom, mas verdade seja dita, que o que mais gosto nas caracoladas nem sequer são os caracóis: servem como pretexto para reuniões entre amigos, que por vezes já não se veem há muito. E há alguma coisa melhor do que pôr a conversa em dia com velhos amigos, frente a uma bela petisqueira? Foi o que aconteceu esta semana, quando me juntei ao Rafeiro Perfumado, à Gata Verde e ao FatiFer frente a uns belos caracóis, retomando assim uma antiga "tradição" - que teve um interregno no ano passado, por razões óbvias. Um encontro bastante animado, que nenhum activista anti-caracoladas se atreveu a interromper!













