A 29 de abril de 1974 regressei ao liceu, depois de ter passado o dia 25 e 26 de cama com febre, devido a uma otite. Ainda hoje a coincidência de ter adoecido naqueles dias me chateia: o pais em revolução e a totó aqui sem suportar ouvir o mínimo ruído, já que os que lhe latejavam no ouvido pareciam a caminhada de um elefante dentro da tola? Enfim, a minha mãe lá me medicou com os remédios do costume (longe de ser a primeira vez que padecia do mesmo mal), na segunda-feira seguinte voltei às aulas.
Estava entusiasmada com o regresso! A minha irmã já me tinha contado que a malta estava em festa, especialmente porque o horroroso contínuo da PIDE (um tal de Esteves) desaparecera dos pátios, para alívio de todos: já não havia lá ninguém para estraçalhar as bolas de futebol dos putos com o seu canivete, enquanto acompanhava a "façanha" com um risinho sádico estampado no rosto.
Certo é que a alegria continuava a pairar no ar, alguns alunos e professores ainda ostentavam os cravos vermelhos ao peito. Mas como a vida nunca acontece tal como a prevemos, o primeiro impacto não foi o mais agradável - um dos meus colegas de turma, que dava pela bela alcunha de "Salsicha", com um cravo meio murcho dependurado na lapela, atirou-me logo à queima-roupa e perante um grupo de outros curiosos: "Porque é que não vieste às aulas?" Lá balbuciei que tinha estado doente. E o parvalhão riu-se, acrescentando: "Ah, julgávamos que tinhas fugido para o Brasil, como os fascistas!" A que propósito é que tinha(m) tirado aquela conclusão precipitada, se ainda por cima a minha irmã - que não era da mesma turma, mas tinha aulas no mesmo pavilhão e turno - andara por lá como sempre? Claro que os meus amigos não ligaram nenhuma ao excesso revolucionário do "Salsicha", mas eu detestei aquele preâmbulo.
Contudo, as más surpresas ainda não tinham terminado. Nesse ano calhou-nos em sorte (ou melhor dizendo, azar!) o pior professor de História que tive na vida. Tinha um bigode farfalhudo e os seus trinta e muitos anos, nunca olhava os alunos nos olhos preferindo olhar para o teto e as aulas eram passadas a ler o livro da disciplina. Perguntava no início de cada aula: "Que dia é hoje? 29? Então o nº 29 que comece a ler o livro na página 70." Quando o aluno denotava na voz o cansaço da leitura em voz alta, chamava o 9, depois o 19 e o 39 (sim, éramos cerca de 40 alunos), até soar a campainha. Nesse dia foi diferente: fez um longo discurso sobre "a longa noite fascista", de quem ele próprio tinha sido um feroz adversário e blablablá. E qual não foi o meu espanto quando os meus colegas se levantaram para aplaudir o homem, como se ele fosse o herói que desejava protagonizar. Quer dizer, mesmo que fosse verdade, isso dava direito ao professor não ensinar rigorosamente nada? Como é óbvio, nas aulas seguintes voltou ao seu "maravilhoso" método, mesmo que a dita "longa noite" já tivesse passado...
Para rir só o facto de, muitos anos volvidos, o dito "Salsicha" comentar na página do liceu do facebook - num dia 25 de abril - que aderira à revolução desde a primeira hora e que ele e os outros elementos do movimento que integrara (se bem me lembro, não referiu que eram os "camaradas" do MRPP), terem tido um papel fundamental na luta contra fascistas e comunistas. Epá, aos 14/15 anos ainda se percebe aquele súbito entusiasmo revolucionário, agora aos 50 e tais gabar-se desse seu "precioso contributo" raiou o anedótico. Oops... será que na volta até fui uma das suspeitas que confrontou "heroicamente"?





















































